Na ponta da língua
Tudo bem medido e pesado, é The Barn o melhor cafezeiro europeu para nós portugueses
Depois de muitas experiências com vários torradores europeus de café da nova geração, estou finalmente pronto para recomendar um para todas as encomendas. É o famoso The Barn de Berlim. A loja online que uso fica em www.thebarn.de. A qualidade dos cafés é sempre excelente. Aliás, até se pode comprar, por um preço irrisório, os cafés que eles torraram mas que acham que não estão à altura dos melhores. Chama-se Testroast, não se sabe a proveniência, e custa apenas 18 euros por um quilo. Os cafés verdes são fornecidos pela Nordic Approach, a melhor importadora da nova geração, co-fundada pelo grande mestre da torrefacção ligeira, o norueguês Tim Wendelboe.
Na minha opinião, Ralf Kueller torra melhor do que o próprio Wedelboe.
Com a desgraça do Brexit, fala-se muito no Reino Unido adquirir o estatuto que a Noruega tem com a União Europeia.
Pois sim, mas encomendar café da Noruega (a Tim Wendelboe, por exemplo) é um pesadelo: é-se obrigado a ir à sede local da transportadora (a Fedex) e seguir para a alfândega, onde se tem de pagar direitos.
De Berlim o café vem sem problemas para qualquer casa portuguesa. Se comprar cinco sacos de 250 gramas (por cerca de 12 euros cada um) apenas lhe cobram três euros pelo transporte. É uma grande pechincha porque a transportadora é a impecável DHL.
Não são ultra-rápidos — a encomenda leva cinco dias úteis a chegar — mas o café é torrado no dia da expedição, dando tempo para ser consumido enquanto ainda está fresco.
As embalagens são das melhores. São as mesmas usadas por Stanislav Rotar na pioneira Fábrica Coffee Roasters, na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa (tel.: 213 399 261). Aliás, foi o próprio Stanislav Rotar que me recomendou The Barn, de onde tinha acabado de chegar.
Os dois cafés em Berlim são muito criticados por proibirem carrinhos de bebé, computadores e música. Ralf Kueller quis e impôs um ambiente civilizado e adulto, como os cafés antes da Internet, em que as pessoas conversam umas com as outras, de preferência sobre os soberbos cafés que estão a saborear.
São puristas mas acho que têm açúcar para os filisteus e um leite biológico (que só servem aquecido) para aqueles que inexplicavelmente não se satisfazem só com o café.
As embalagens são importantes porque é fácil abri-las e voltar a selá-las. Outro café famoso de Berlim — o 5 Elephants — também torra bem bons cafés mas os sacos que usa para expedi-los são terríveis. Uma vez abertos ficam rasgados para sempre — mesmo nas embalagens de um quilo. Para além disso, os cafés não são sempre sublimes e cobram o preço justo (cerca de 12 euros) pelos portes.
No Barn eles estão sempre a variar os cafés que torram, conforme as colheitas. Isto faz com que certos cafés desapareçam muito depressa, ficando-se um ano à espera que regressem.
À data de escrita ainda ofereciam um café excepcional, criado numa quinta de um só hectare por José Yohan Vega: o Finca El Tablon, de Huila, na Colômbia. Trata-se do mais delicioso café colombiano que já bebi, com muita doçura, pouca acidez e um sabor que eles descrevem bem como sendo parecido com avelãs e flor de laranjeira.
Apesar de José Vega ter recebido mais 170.000 pesos por saca de 25 quilos do que o preço recomendado pela Federación Nacional de Cafeteros (FNC), a Barn vende 250 gramas por 12,50 euros. É outra virtude deles: no cartão que acompanha cada café oferecem-nos os pormenores todos. Vão muito além da concorrência. Ainda o mês passado estive um mês inteiro a beber outro colombiano magnífico: o La Parcelita de Andres Roldan. Mas esse já acabou. Só para o ano.
De um modo geral, é nos colombianos, etíopes e quenianos que o Barn mais brilha. O preço mais baixo, para os cafés de filtro, é de 12 euros (o Kochere etíope) e o mais caro é de 14,50 (o Ngunguru AA queniano).
Uma última vantagem é o facto de incluirem instruções para fazer café em casa, com os pesos e os tempos rigorosamente medidos, que produzem um resultado sublime. Esta informação é reservada apenas aos clientes.
Tem um senão: para o café ficar perfeito só dá para duas pequenas xícaras. Tem de se pesar, moer e filtrar 16 gramas de café num máximo de 90 segundos. A última frase do cartão é “Está delicioso, não está? Agora vá fazer outra chávena”.
Fiz batota e usei quantidades maiores de café e água, mantendo as proporções. Não fica perfeito — mas suficientemente próximo da perfeição para se aturar ao pequeno-almoço. No resto do dia vale a pena fazer como eles dizem.