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Sempre na Noélia, sempre de boca cheia, onde o Verão desata a deliciar

Os restaurantes muito bons — e não há melhor do que o da Noélia, em Cabanas de Tavira — ganham em ser acompanhados ao longo do ano, sobretudo quando a cozinha segue as novidades de cada mês. Conheci os pratos da Noélia em Setembro do ano passado e em Fevereiro deste ano. Escrevi sobre estas duas maravilhosas experiências de fim de Verão/princípio de Outono e, depois, de Inverno.

Na última semana de Junho fui lá saber como estava o restaurante no princípio do Verão deste ano. A grande novidade — uma obra-prima — é o Mergulho na Ria (16 euros). Trata-se de um risotto de plâncton onde se embrulham nacos de ostras cruas, troços de lula cozida, salicórnia, duas algas cheias de umami e uma colherzinha de maionese de wasabi com ovas de arenque fumadas.

Come-se de olhos fechados, tal os sabores nos transportam para as águas da ria Formosa, como se pudéssemos habitá-la. 

Imagine-se que as nossas papilas gustativas constituem uma grande orquestra. Quando se come um prato da Noélia todas as papilas acordam. A orquestra que passou o ano a usar apenas o piano e um violino para tocar canções de embalar é de repente chamada para tocar uma sinfonia.

Descobrimos que há cem sabores em vez de cinco. A nossa boca é convocada para ser usada plenamente — e entra em festa.

O tártaro de ostra (7 euros) é outra obra-prima que em princípio não faz sentido no papel (coentros, um pingo de azeite, manga, abacate) mas põe a boca inteira a cantar hossanas.

Depois de comer umas três vezes pensa-se que se está a comer um prato tradicional, por cair tão bem. Esquece-se que foi uma criação individual. Um dia — estou convencido — será um prato tradicional português.

A propósito, foi noutra visita à Noélia que provei as melhores amêijoas à Bulhão Pato da minha vida, tendo comido regularmente versões muito boas. Tanto as amêijoas como os coentros tinham sido apanhados pelo já lendário João das Favas, menos de uma hora antes. As amêijoas da ria Formosa são justamente celebradas como as melhores de Portugal e os coentros da horta do João, a trinta passos do restaurante da Noélia, tinham um cheiro de maresia verde.

A Noélia seguiu a receita tradicional mas como filha de ameijoeira e maluquinha por coentros sabe a quantidade certa de azeite para deixar brilhar a água das amêijoas e sabe ler os pontos para suspender a brevíssima cozedura quando tudo está com o melhor sabor possível.

Todos os pratos da Noélia procuram e encontram o maior prazer possível de comer. A demanda impossível de ser definitivamente satisfeita que a anima é sempre “o que posso eu fazer para tornar este prato ainda mais delicioso?”.

Um prato novo que ainda está em movimento é arroz de tinta de lula com três texturas de lula. Tem uma profundidade emocionante. A lula aparece frita à espanhola, cozida e quase crua. Fica-se num delírio de lulidão. É mais um prato que corre o sério risco de se tornar um clássico do futuro, durante décadas a fio.

O ceviche de robalo (ou corvina), que estava em desenvolvimento, é mais uma obra-prima. Sem cebola ou leite de tigre (mas com azeite, framboesas, coentros, manga) é um ceviche só dela que entretanto se tornou o prato de peixe de maior frescura gustativa e sensual que alguma vez provei.

A Noélia apanhou este Verão e tornou-o numa delícia nova. Não há estação do ano ou tradição culinária que não consiga traduzir e trazer para o prato. É incrível. Mas é belissimamente comestível. 

Nota: O grande problema da Noélia é o restaurante estar sempre cheio, seja qual for a hora ou o dia ou o mês do ano. A única possibilidade é chegar às 11h30m ou às 18h e esperar por uma mesa na esplanada. É também a única forma de ter a sorte de poder marcar uma mesa. A Noélia não deixa que se reservem as mesas da esplanada, precisamente para não fechar completamente o acesso aos principiantes. É absolutamente democrática e popular, sem manias, elitismos ou preços antipáticos: entra quem lá estiver, sejam ingleses para comer massa, sejam crianças para comer salmão grelhado.