SUZANNE PLUNKETT/REUTERS

Mira vos: ao almoço mais bem regado da minha vida seguiu-se o jantar mais bem regado da minha vida

No número de Março da Revista de Vinhos, João Paulo Martins e Nuno Oliveira Garcia escreveram uma deliciosa e esclarecedora apreciação das aguardentes vínicas velhas que se fazem em Portugal. Explicam também o mínimo que se deve saber sobre elas, com muitas surpresas interessantes pelo meio. Para rematar, provam e pontuam catorze das mais conhecidas, a preços desde os 30 aos 250 euros. O artigo chama-se “Aguardente Velha: O Milagre do Alambique” e está disponível online, grátis, em formato PDF. 

Falam, obviamente, das aguardentes da Junta Nacional do Vinho que serviam para aproveitar os excedentes de produção de vinho. A Aguardente Velha Reserva 20 Anos, de “engarrafamento limitado” e devidamente numerada, era sempre de confiança e muitas vezes maravilhosa.

Conheci essa aguardente graças ao José Miranda e ao Fernando Fernandes do sempre exímio restaurante Pap’Açorda. Fico feliz que tenha ganho vida nova na Praça da Ribeira gerida pela revista Time Out Lisboa. Lembro-me da chef Manuela Brandão (parabéns e felicidades!) quando ela era uma aprendiz de cozinheira com 18 anos que aprendia tudo depressa e bem, por gostar tanto de lá trabalhar.

O Pap’Açorda da Rua da Atalaia foi muito mais do que um grande restaurante. Mostrou que se podia ter em Lisboa um restaurante muito bonito e civilizado onde se podia comer muito bem. Mas também foi uma universidade que educava os clientes, ensinando-os a comer comida portuguesa de uma forma divertida mas exigente.

Aprendi imenso com o José Miranda, um sábio intransigente que tolerava tudo menos a mediocridade, a preguiça e a ignorância. O longo balcão da entrada que fazia de bar informal era hospitaleiro e tentador.

Ainda ninguém falava em cocktails já o Fernando Fernandes sabia fazê-los todos, sempre com perfeita exactidão. A lista dos vinhos do Pap’Açorda era curta mas a selecção era rigorosa. Todos os vinhos eram muito bons.

Foi graças a eles que conheci a Aguardente da Junta dos Vinhos. Não era nada fácil de obter e por isso criaram-se histórias fabulosas acerca da aguardente. Muitas delas eram elaboradas durante o consumo da dita aguardente, que era gulosa.

Houve um dia em que bebi muitos balões dessa aguardente divididos em duas sessões: uma depois do almoço e outra depois do jantar. Foi num dia muito especial que vou lembrar aqui como testemunho de como se almoçava antigamente.

Fui ao Pap’Açorda almoçar com o meu amigo Carlos Quevedo. Sentámo-nos à uma da tarde e levantámo-nos à meia-noite. Graças ao milagre do álcool, o almoço tornou-se num lanche líquido que desembocou no jantar.

Naquele tempo havia, falando em bebidas, aperitivos (para “abrir” o apetite), vinhos (que acompanhavam” a refeição) e, depois dos cafés, uma longa série de digestivos (que auxiliavam a digestão).

Os aperitivos eram margaritas, dry martinis, negronis, caipirinhas e, sobretudo, gin tónicos. O estômago vazio era uma oferenda aos deuses da intoxicação. Era preciso escolher judiciosamente o cocktail para inaugurar a sequência. 

Depois vinham os vinhos brancos, bebidos como água fresca e seguidos mais cuidadosamente pelos tintos. Sempre que a nossa boa disposição esmorecia (quando deixávamos de rir loucamente de qualquer coisa que se dissesse) era sinal que o nível do álcool tinha caído e que os nossos fígados atónitos mas jovens tinham começado a desintoxicar-nos.

Vinham guilherminas (Williamine, eau-de-vie de poire, destilada na Suíça pela Morand) em copos de shot rodeados por gelo britado. Tinham 43 graus e deslizavam num instante. Serviam para esterilizar a boquinha.

Seguia-se então a aguardente “da Junta”, que era bebida devagar, com grande respeito, sem aquecê-la ou agitá-la. E só depois de bem digerida a refeição — literalmente duas horas depois dela ter acabado — é que se começava com os whiskies. Os whiskies, sendo irlandeses e consumidos com muito gelo e água, podiam ser bebidos à vontade porque não contavam. Cada um anulava o anterior e ia abrindo o apetite até chegar a hora de jantar e começarmos tudo de novo, com mais uns gin tónicos só para desenjoar...