Na ponta da língua
O prazer de cozinhar à mesa, fazendo com que a refeição se vá transformando conforme nos apetecer
Maio é um mês de transformações. Os almoços também podem ser transformativos.
Vou dar um exemplo que já experimentei várias vezes esta Primavera.
Para duas ou três pessoas, começa-se com uma só dose de bacalhau com grão. Come-se metade enquanto está quente. Quando fica tépido aproveita-se para transformar o grão e o bacalhau numa salada de bacalhau.
Usam-se tomates, cebolas novas, pimentos, pepinos, alcaparras, espargos, agriões, alface, ovo cozido, beterrabas, feijão verde, nabos, coentros, cebolinho ou o mais que se quiser.
Só um bocadinho de vinagre também ajuda a transformar a refeição. A ideia é provar os elementos constituintes nas várias temperaturas, de muito quente a frio.
No fim da refeição é já uma salada completamente fria. Mas o que tem graça não é passar de um prato quente de bacalhau com grão para uma salada fria de bacalhau. O que tem graça é considerar que o prato está sempre em movimento. À medida que se vão acrescentando (ou tirando) elementos, vai-se sempre provando os resultados, o que leva a aperfeiçoar os temperos e assim sucessivamente até já não haver mais nada para comer.
Quando somos pequeninos dizem-nos que não se deve brincar com a comida. Mas brincar com a comida — considerar um prato que nos trazem como um ponto de partida — não só é divertido como pode ser delicioso.
A maneira ideal é ir às compras a caminho do restaurante onde se vai almoçar — que tem de ser um restaurante de amigos, dispostos a colaborar.
Compram-se as coisas que estiverem mais fresquinhas e apetitosas e levam-se para o restaurante. Escolhe-se uma refeição que se preste à gradual saladificação. Para além do bacalhau, funcionam bem os peixes cozidos. O feijão frade também pode substituir o grão, só para variar.
É como cozinhar à mesa, a cru. A liberdade é total. É divertido fazer reconfigurações de elementos. Por exemplo, fazer um micro-hummus de três grãos com um bocadinho de pimento pisado. As permutações possíveis são tantas que ficamos sempre surpreendidos — para o bem e para o mal.
A passividade — de receber e comer aquilo que nos trazem — é um aprazível descanso. Mas em certos dias, por estas alturas primaveris, apetece mais tornarmo-nos activistas.
A grande maioria das pessoas jamais terá jeito para cozinhar bem. Mas, partindo de um prato bem cozinhado por um bom cozinheiro, é fácil fazer variações experimentais que satisfazem não só a curiosidade como a faísca criativa que existe em toda a gente.
Quando se está sozinho tem menos graça. Quando há duas pessoas a almoçar, podem provar as experiências que ambas vão fazendo. Há colaborações e competições. Por exemplo, pode haver colaboração no tempero de uma salada. Ou competição quando se fazem dois temperos separados, para ver qual é que fica melhor. Aprende-se muito sobre outra pessoa vendo-a a reconfigurar uma refeição.
Começando com um vulgar bacalhau cozido com grão, é extraordinário aquilo em quer se pode tornar. Em vez de lutar contra o arrefecimento da comida (comendo-a depressa de mais), deixa-se que o arrefecimento funcione a nosso favor. Come-se muito devagar porque se está sempre a fazer interrupções para fazer experiências novas.
Quando conheci a Maria João, meu amor, eu era um refeiçoeiro completamente passivo. Quando ela começou a fazer pequenas transformações e eu fui provando como elas melhoram não só o sabor como o puro divertimento das coisas, passei de pessoa “sem pachorra” para entusiasta disposto a tudo.
Brincar com a comida está na nossa natureza. Todos nós temos maneiras diferentes — muitas vezes escondidas (e mal-escondidas, ainda por cima) — de comer as coisas. Basta um bocadinho de nada de experimentação para encontrá-las e aprender que também essas maneiras vão mudando conforme os tempos.