Na ponta da língua
O melhor e mais moderno moinho para os baristas amadores nem sequer é eléctrico: é manual e dá prazer dar-lhe à manivela
Há um casal, Doug e Barb Garrott, que mora e trabalha numa povoação chamada Troy, no remoto estado de Idaho nos EUA. Ele terá uns 70 anos de idade e apresenta-se com uma longa barba branca. É um dos heróis do mundo do café porque inventou e construiu à mão o moinho manual de café que muitos consideram ser o melhor do mundo. A empresa deles chama-se Orphan Express e o moinho chama-se Lido 2 Grinder.
A profissão de Doug Garrott é reparar moinhos de café. Depois de décadas a desmontá-los e a estudá-los escreveu o ensaio definitivo sobre moinhos de café manuais. Está escondido no site orphanespresso.com debaixo do linque “500 Grinders”. O título completo do ensaio é “500 Grinders: What I learned about vintage European Hand Coffee Grinders by taking them apart and putting them back together again”(aquilo que eu aprendi sobre velhos moinhos manuais europeus depois de desmontá-los e voltar a montá-los).
O ensaio é sobre moinhos de café mas aquilo que ele descobriu e as cautelas que recomenda aplicam-se a muitas outras categorias de objectos industriais. Não se podem resumir os ensinamentos porque o que tem graça são as críticas contundentes a modelos específicos de marcas europeias de grande prestígio e preço, como a Zassenhaus e a Peugeot.
Mas aprende-se que não há uma maneira certa de determinar se um objecto é de boa qualidade. É mentira, por exemplo, que os objectos mais antigos eram feitos para durar e que os modernos são feitos para serem substituídos passados uns anos.
Às vezes os moinhos começam por ser bem construídos mas, quando se tornam conhecidos e aumenta a procura, alteram a composição e o processo de fabrico para poderem produzir mais moinhos de mais baixa qualidade.
Também não se pode julgar pelas marcas. Quase todas as marcas fabricam objectos de qualidades muito diferentes. E muito menos é pelo preço que se pode adivinhar a qualidade. O preço depende da procura.
Depois de uma vida inteira a lidar com moinhos de café, Doug e Barb Garrott decidiram construir um moinho sem defeitos. Um é o Pharos e outro é o Lido (na foto). O primeiro modelo do Lido foi muito bem recebido pelos baristas amadores que fizeram o favor de criticá-lo. Um dos defeitos era levar um ano e meio entre a encomenda e a entrega...
Em 2014 eles apresentaram uma versão melhorada: o Lido 2. Há quatro versões: o Lido 2 (para fazer café de filtro em casa), o Lido 3 (para fazer café de filtro em viagem), o Lido E (para fazer café espresso em casa) e o Lido E-T (para fazer café espresso em viagem).
Como estão tão isolados geograficamente, o site deles está recheado de vídeos de demonstração (engraçadíssimos, feitos pelo próprio casal) e das mais variadas informações. O que mais espanta é a sinceridade deles. São os primeiros a admitir as imperfeições dos moinhos. Ao mesmo tempo dão genuínas dicas – aprendidas por décadas de experiência – para moer e fazer café.
Depois de muito investigar decidi comprar o Lido 2. Comprei-o no excelente coffeehit.co.uk onde custa 140 libras. Gastei mais 35 libras noutros materiais cafézeiros para beneficiar dos portes gratuitos.
Chegou, muito bem embalado, passados quatro dias.
Já estou a usá-lo há quatro meses. Apesar de ser caro para um moinho manual, os resultados são impressionantes em termos de consistência. A moagem é muito rápida: num minuto e meio moem-se 70 gramas de café. O aparelho é pesado (mais de um quilo e meio) e, até se apanhar o jeito, é trapalhão.
Levou-me semanas para aprender a calibrar a moagem. Parece simples mas não é: é de dar em doido. Mas, mal se aprenda a enroscar e a desenroscar, torna-se fácil. Mesmo assim aconselho a manter a posição com que se obteve uma moagem boa, marcando-a como uma ponta de feltro.
A máquina é excêntrica mas é extremamente robusta e satisfatória. Tudo é da melhor qualidade possível. Foi feita para durar muitas décadas.
Tudo foi pensado: é incluída uma chave de parafusos para desmontá-la para poder limpá-la por dentro e uma jeitosa escovinha para limpezas exteriores.
Numa época de cada vez maior automatização (até no mundo do café) é um prazer usar um moinho tão gloriosamente humano como desumanamente eficaz.