Na ponta da língua
Março é o mês do delicioso mas ameaçadíssimo sável em Vila Franca de Xira e em Vila Nova da Barquinha: aproveitemos antes que seja tarde
Ainda se pescam salmões do Atlântico no rio Minho mas o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) considera-o criticamente em perigo. O portal do ICNF é excelente e as fichas sobre os peixes são completas e assustadoras. Procure a lista de “Peixes dulciaquícolas e migradores”.
O salmão do Minho é um peixe selvagem que regressa do oceano para o rio onde nasceu, para reproduzir-se e morrer. Tem todas as qualidades gastronómicas que não tem o duvidoso salmão de viveiro que cada vez comemos em quantidades maiores.
O salmão não é o único peixe vai-e-vem que se pesca em Portugal. Há também a truta marisca (Salmo trutta), o sável (Alosa alosa) e a savelha (Alosa fallax). Estes três peixes heróicos estão em perigo, com populações gravemente reduzidas de ano para ano.
As causas desta desgraça são citadas no site da ICNF mas, para não cair no absoluto desespero, parece que existem métodos drásticos que poderão atrasar o declínio. Mas só se houver vontade de gastar dinheiro e energias para fazê-lo.
Não percebo nada dessas coisas mas acho chocante que haja muitos portugueses que nunca tenha ouvido falar no sável ou na savelha e muito menos provado uma posta de sável ou de savelha. É triste quando um peixe está a desaparecer e quase ninguém se importa.
Há muitos anos que a valente e teimosa Câmara de Vila Franca de Xira organiza o “Março, mês do Sável”. Dura o mês inteiro e este ano aderiram 26 restaurantes. Também a entusiástica Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha promove de 11 de Março a 16 de Abril o mês do Sável e da Lampreia, havendo nove restaurantes onde pode provar receitas tradicionais de sável.
A lampreia não é um peixe nem uma enguia mas tem muitos apreciadores, dispostos a pagar bem pelo petisco. Sabe-se lá porquê, o sável é um peixe relativamente barato mas tem muito menos apreciadores.
Esta semana tive a sorte de comer postas fininhas de sável muito bem frito com uma celestial açorda de ovas no Restaurante Neptuno, na praia das Maçãs. É um restaurante tão rigorosamente dedicado aos peixes selvagens do mar que nunca lá entrou um único salmão.
Mas, lá está, o sável é um peixe selvagem e delicioso. Tem fama de ter muitas espinhas mas são fininhas, inofensivas e fáceis de separar ou cuspir.
Nunca provei truta marisca portuguesa (o sabor é bastante parecido com o do salmão), ou savelha de qualquer nacionalidade.
Encontrei na web, num site brasileiro, uma apetitosa descrição da “savelha à moda do Minho” escrita por um gastrónomo cuja assinatura é “Miguel T”. Com a devida vénia, passo a citá-lo: “É cortada em fatias muitos finas para fritar e o acompanhamento é um arroz solto com as ovas do peixe, juntamente com a cabeça e a calda para dar mais sabor, sem faltar a broa frita.”
Março também é o mês em que começa a época das raias. As raias também correm grande perigo e também são pouco valorizadas pelos portugueses. Esta combinação é desastrosa no verdadeiro sentido da palavra.
O salmão selvagem não é completamente diferente do salmão de viveiro mas é quase. O selvagem é sublime e o de viveiro é banal e enjoativo. No Reino Unido, por exemplo, paga-se uma pequena fortuna para poder pescá-lo.
Como dá dinheiro, as pessoas esforçam-se para conservá-lo. Em Portugal — se não é tarde de mais — porque não se faz o mesmo? A pesca do sável, da savelha, do salmão e da truta marisca é, segundo os praticantes, difícil mas excitante.
Mas sem conhecer o sabor dos peixes — nem que seja dos parentes pobres de viveiro — como é que se arranja vontade e força bastantes para tentar salvá-los?