ANA MARIA COELHO

Os carapauzinhos de Março são os que menos fama e mais proveito têm: os carapaus-pelim, assim chamados por custarem meras moedas

trachurus trachurus é magnífico por ser vários belos peixinhos e peixes não tanto ao mesmo tempo como em tempos diferentes.

Nos melhores livros sobre os peixes e mariscos do Atlântico Norte — e nenhum há melhor do que North Atlantic Seafood, de Alan Davidson — o trachurus trachurus é, com uma tremenda injustiça, vilipendiado. Diz Davidson que nós, portugueses, temos um jeito especial para cozinhá-los e menciona o escabeche.

trachurus trachurus, que Lineu classificou repetitivamente por ser o verdadeiro, tal como pagrus pagrus é o pargo legítimo, é o que nós em Portugal continental chamamos o carapau.

O carapau quando é pequenino é o deliciosíssimo jaquinzinho, para fritar e comer com arroz de tomate e salada de alface. Quando cresce torna-se no belo carapau para grelhar ou, como se diz aqui, assar. Com ou sem molho à espanhola. Os melhores, gordos no Verão, não precisam de molho nenhum que não a gordurinha que deitam.

Os melhores de todos, muito difíceis de localizar, são os carapaus que dizem dourados, que soltam uma manteiga quase alaranjada, saborosos ao ponto de se uivar por eles durante o resto do ano.

Se deixarmos que o carapau continue a crescer, ele tornar-se-á num titânico chicharro — para muitos apreciadores o melhor peixe para grelhar de todos. Também é maravilhoso cozido, embora seja difícil convencer os fãs a prescindir da versão grelhadinha.

Mas o carapau só chegará a chicharro se tiver passado quase toda a vida a fugir.

Jaquinzinho, carapau e chicharro: são três versões do trachurus trachurus. Mas falta uma que exige uma celebração especial, por ser tão rara a vez em que é honrada.

É que entre ser jaquinzinho e ser carapau-carapau, o carapau passa por uma fase jovem e de porte pequeno mas maneirinho em que é conhecido por carapau pelim.

O carapau pelim é maltratado (e tem um preço insultuosamente baixo) por ser grande de mais para ser jaquinzinho mas pequeno de mais para assar.

No entanto, o carapau pelim tem um tamanho ideal para fritar inteiro e ter carnucha bastante para ser comido como peixinho. Eu também sou um louco por jaquinzinhos, mas é preciso reconhecer que são uma delícia mais estaladiça do que carnuda.

O carapau pelim pode-se comer à mão. Basta segurá-lo e deixar que os nossos próprios dentes façam a filetagem. Só ficam a cabeça e a espinha.

O ano passado, a nadar numa praia de Tavira, estive quase vinte minutos a olhar para um cardume enorme de carapaus que brilhava e contorcia-se como uma corrente de elos vivos ao longo da ponta de cada onda que entrava. Fiquei transfixo com a beleza daquela complicação.

O carapau continua a ser desprezado em Portugal. Quando eu era novo, durante a Idade Média, o carapau “era para o gato”. O carapau era injustamente comparada com a sardinha e, por causa da estupidez da comparação, saía-se sempre mal.

Envergonho-me de ter pertencido ao bando de ignorantes que propagava estes despautérios. Por outro lado, os amantes de carapaus constituem uma maioria silenciosa que, habituada a comprar os carapauzinhos frescos e baratos, conspiram contra qualquer publicidade sobre as delícias carapauzeiras.

Dito isto, o preço do carapau tem aumentado bastante. Mas continua a ser muito bom peixe por um baixo preço. Os jaquinzinhos estão justamente caros e os criminosamente pequeninos são felizmente quase impossíveis de comprar, seja a que preço for.

O carapau pelim vende-se ao público entre 3 e 5 euros por quilo. Um quilo e meio, bem fritinho, dá para encher cinco ou seis barrigas. O carapau pelim está bom em Março mas em Março não há bom tomate, pelo que não se aconselha o arroz de tomate. Eu gosto de comê-los com o acompanhamento que mais se presta a comer mais carapauzinhos: nada.

Talvez estacione lá perto uma salada de alface e cebola — não para comer, claro, mas para atenuar a solidão da travessa gigante à minha frente, para não dar tanto nas vistas.