Na ponta da língua
No restaurante da Noélia é tudo tão bom, seja qual for o tempo ou o prato, que é Verão todo o ano
A última vez que estive em Cabanas de Tavira foi em Setembro do ano passado. Era Verão e eu escrevia extasiado com o génio culinário da Noélia, depois de passar duas semanas a conhecer os pratos maravilhosos que ela criou e trabalhou.
Mesmo ali ao lado, na Barroca, numa horta linda à beira da ria Formosa, o João estava a semear umas favas, uns dias mais cedo do que costumava.
Agora é Fevereiro e eu voltei ao restaurante da Noélia para conhecer a cozinha dela no Inverno. Voltei a apaixonar-me. O tempo, os ingredientes e os pratos eram outros mas o deslumbramento perante a perfeição era o mesmo.
Logo no primeiro almoço, ao lado de um apetitoso robalo grelhado, apareceram, espectacularmente cedo no calendário, as tais primeiríssimas favas plantadas em Setembro. Provei-as e tive de fechar os olhos. Ai que acompanhado, como manda a tradição, por uma salada de alface e coentros.
Que coisa tão boa! São as cinco palavras que nos deixa a língua portuguesa quando somos transtornados por uma delícia. Apanhadas na hora certa pelo João e guisadas no ponto certo pela Noélia — só com azeite, alho e coentros, sem qualquer tropa de fumeiro — fixaram-me os pés àquele bendito chão. Entre a cozinha da Noélia e a horta do João não chega a haver duzentos metros de terra.
Senti, com aquela estranha mas satisfatória espiritualidade que nos visita quando experimentamos coisas muito boas, que era a minha grande sorte pertencer a esta gente, naquele momento e naquele bocado de terra em que eu estava.
Não há magia na cozinha – só trabalho, dedicação, honestidade, exigência é bom gosto – mas, para quem está deste lado do palco, sem ver o que se passa na cozinha, e vê chegar, já feito e aperfeiçoado, prato após prato de delícias nunca dantes provadas, é muito difícil evitar o pensamento mágico.
No Inverno, tal como no Verão, o restaurante da Noélia está sempre cheio. A tristeza nas caras de quem não consegue marcar uma mesa é agoniante. São pessoas que sabem o que estão a perder.
Do mesmo modo, sabe bem estar no meio de outras pessoas que estão a ser deliciosamente transportadas ao mesmo tempo que nós. Os sorrisos somam-se todos uns aos outros. Os prazeres colectivamente partilhados ainda aguçam mais o dente.
Um exemplo da maneira como a Noélia inventa é o sublime ceviche de robalo que agora serve. Depois de visitar o Peru, dedicou-se a adaptar o ceviche aos gostos dela. Claro que o resultado nem sequer é um mero ceviche: é muito melhor.
A combinação do sumo de limão, do gengibre, da manga, da framboesa e dos coentros, mais a medida sempre celestial de azeite dela, levanta as fatias finas de robalo cru para o domínio sagrado do umami.
Passar uns dias a comer as criações dela é estar sempre a ser surpreendido. Perdem-se os preconceitos todos: contra uma boca encantada não se pode lutar.
Tinha o preconceito, por exemplo, de comer as ostras sem nada – nem limão nem pimenta nem nada. Nem sequer gosto delas com vinho branco. Nem com água. Gosto delas sozinhas.
A Noélia serve-as sozinhas. Encontrou as melhores ostras do mundo (as do Moinho dos Ilhéus, transcendentes) e gosta de mostrá-las nuas e vivas, bem abertas para não magoar ou entornar nada.
Mas depois não resistiu a vestir essas ostras. O resultado – a que chamou tártaro de ostra, embora não corte a ostra – é sinfónico. Faz brilhar mais ainda a própria ostra. A composição, tal como o ceviche fingido de robalo, é uma obra-prima. Ao lado, a água da ostra é servida num copinho com uma gota de azeite. Azeite?! Sim, eu sei. Mas fica a matar.
Comi uma posta de pescada grelhada. Sim, grelhada. Estava deliciosa. A pescada era muito gorda e foi grelhada com manigâncias. E o acompanhamento? Outra obra-prima: uma açorda seca, feita no forno, com amêijoas e ovo escalfado. Era melhor do que qualquer açorda molhada – e as açordas molhadas da Noélia são as melhores que conheço.
É uma cozinha espantosa, a da Noélia. É uma cozinha de ais e suspiros, incluindo os suspiros que fazem chorar e chorar por mais.
Restaurante Noélia
Rua da Fortaleza, Edifício Cabanas-Mar, Loja 6
Cabanas de Tavira.
Fecha às quartas-feiras.
Tel: 281 370 649