Na ponta da língua
Sim, avozinha, há uma máquina que faz café tão bem como um ser humano
É fascinante experimentar e comparar as muitas maneiras de fazer café de filtro. Já aqui discuti as virtudes da Clever Dripper, da Hario e da Chemex, e entretanto descobri que a Bonmac, a Kalita e a Kono talvez sejam os melhores porta-filtros.
Todos eles requerem prática, um certo cuidado e até, no caso da Hario V60, uma certa perícia. Em contrapartida o material é barato e, no caso de um porta-filtros como o Melitta, fácil de encontrar.
Infelizmente, a onda do café especializado está a ser vítima do êxito que tem tido e a tendência para cafés individualmente preparados por baristas sapientes e concentrados está a ser contrariada por um movimento de regresso ao café massificado, preparado em grandes quantidades e mantido quente em termos. O termo ébatch brewing, roubado à cervejaria artesanal, mas a verdade é que são máquinas de cantina que produzem café medíocre.
Numa vergonhosa palestra online — The Death of the Barista —, o influente e muito talentoso Matt Perger propõe que se acabe inteiramente com o café artesanal e que se confie nas supermáquinas do futuro. A arrogância com que Perger quer reduzir os baristas a empregados de mesa que apenas servem o café torna-se mais irritante quando se vê logo que o que ele está a propor não é um avanço — é um retrocesso, que tornará a “terceira vaga” numa mera máquina de fazer dinheiro.
Para fazer um café pour over decente é preciso tempo, paciência e técnica. No entanto, há, de facto, uma máquina de café que é capaz de fazer café quase tão bom como um barista assim-assim. O café que faz vai além do aceitável: é delicioso.
A máquina é a Technivorm Moccamaster e é produzida manualmente na Holanda desde os anos 1970. Durante muito tempo foi a única máquina aprovada pela exigente European Coffee Brewing Center que depende de testes rigorosos feitos pela Norwegian Coffee Association.
Depois de dois meses a fazer cafés diferentes com a máquina — com a maior das desconfianças — tenho de reconhecer que o inventor, Clement Smit, acertou em cheio. Ao princípio fiz várias modificações para melhorar o café (como escaldar o filtro, mexer, etc.) mas, para testá-la verdadeiramente, tive de deixá-la fazer tudo sozinho.
Custou-me deixar o filtro seco e frio e não mexer o café, mas a verdade é que a Technivorm faz bom café sem qualquer ajuda nossa. É preciso é que o café seja bom, fresco e acabado de moer.
A máquina é muito gira, muito anos 1970 but in a good way, mas o preço dela não é bonito. Quando se recebe a máquina e se vê a solidez que tem e a maneira fantástica como funciona, aquecendo a água muito bem e muito depressa, o preço já parece uma pechincha.
De manhã uso sempre a máquina para fazer café. Faço também um bule de chá para a Maria João e não tenho disposição para ser artesanal. Quero é sentar-me e tomar o pequeno-almoço com ela. É para isso que as máquinas de café servem. A Technivorm é a única máquina de café que não assassina o café.
Vamos ao preço, que eu tenho uma boa dica. Na Amazon.co.uk custa 270 libras e na coffeehit.co.uk (um excelente e rapidíssimo comerciante com preços baixos e portes grátis para encomendas significativas) custa 205 libras. São quase 290 euros.
No entanto, muito escondido pela Google, é possível encomendar a Technivorm Moccamaster (recomendo a KBGT 741 porque não tem placa aquecedora) à própria fábrica por 199 euros mais portes de 20 euros.
Levou menos de uma semana a chegar, impecável, à minha porta. Este site é o moccamaster.nl. Não caia na asneira de ir à technivorm.com, que apenas apresenta as várias máquinas, sem hipótese de comprá-las.
O livrinho que vem com a máquina é bom mas dá, quanto a mim, indicações erradas. Os modelos com frasco de vidro têm uma placa de aquecimento que é para manter o café quente mas que o queima desnecessariamente. Compre o modelo com frasco metálico térmico mas, ao contrário do que recomendam, não sirva assim o café. Eles dizem para não o abrir mas é preciso abri-lo e deitá-lo imediatamente para um frasco de vidro ou de porcelana que também não precisa de ser aquecido.
O café leva 10 minutos a perder a graça. Mantê-lo quente mata-o mais cedo. Para mais, é a temperaturas mais baixas que se descobrem os melhores sabores do café.
E mais não digo!