Maria João Esteves Cardoso

Lá conseguimos, depois de muitos trabalhos e desvios, provar os cafés magníficos do grandes mestre Tim Wendelboe

Até agora o melhor café que já provei é aquele torrado por Tim Wendelboe em Oslo. Os noruegueses foram os primeiros a promover a torragem leve e clarinha para quem gosta de um café mais frutado.

É um estilo novo e não funciona com quaisquer grãos de café. É por isso que é importantíssimo ter alguém como Tim Wendelboe a escolher os cafés verdes, a torrá-los e a prová-los.

Tim Wendelboe, James Hoffman e James Freeman são os três mestres baristas cujos livros são essenciais. Nem sempre concordam (Freeman é admirador da escola japonesa) mas são práticos e eruditos ao mesmo tempo.

Os três são proprietários de cafés que torram café. Não são apenas autores curiosos como dantes havia. O saber deles também é de experiência feito.

O que distingue esta nova vaga de cafeeiros é a atitude. Não falam em paixão nem “olho” nem “jeito”. Falam em medidas — temperaturas, volumes e pesos. Os cafés que fazem são 100% repetíveis. Todos os factores (a água, a temperatura e a humidade do ar) foram considerados e medidos. Usam refractómetros e software especial para medirem o grau de extracção e outras variáveis.

Todos concordam, porém, que a apreciação pessoal do sabor do café é que interessa em última análise. Dez pessoas podem provar o mesmo café em dias diferentes e só cinco podem achar que não podia ser mais delicioso — mas o que interessa é que todos provaram o mesmíssimo café.

Tim Wendelboe não pára. Chegou a comprar uma plantação de café em Huila, na Colômbia, para fazer experiências de cultura do café.

Actualmente está a aprender tudo sobre a biologia do solo e vale a pena ver a palestra dele de Novembro de 2015. A versão no website dele — timwendelboe.no — é menos defeituosa que a original na Tamper Tantrum. Talvez o melhor seja fazer o download só do áudio.

É de melhor qualidade o vídeo Manual Brewing Q&A on Periscope with Tim Wendelboe no YouTube. São 55 minutos em que se aprende uma vida inteira de experiência do café. Recomendo-o absolutamente.

Encomendei e provei os seis cafés que actualmente vende que não são para expresso. São todos maravilhosos. Os mais gloriosos são o Caballero Geisha, o Caballero Java e o Nacimiento. São muito bons o Finca Tamana Castillo, o Mutheka e o Hunkute.

No website aprende-se tudo sobre cada café, vendo-se fotografias das plantações, das famílias que lá trabalham e das plantas. É uma sensação muito agradável poder associar um café que se está a beber com uma família e uma quinta. Tim Wendelboe visita as quintas todas (na Etiópia predominam as cooperativas) e troca informações com os trabalhadores. É uma autêntica parceria que faz sentido mas é, ao mesmo tempo, comovente.

O preço dos cafés — apesar de a Noruega ser o país mais caro do mundo — é razoável, atendendo à grande qualidade dos cafés e da torragem.

Comprei seis embalagens de 250 gramas por 100 euros, o que sai a 40 euros por quilo.

Tim Wendelboe não só torra o café no mesmo dia em que o manda como insiste que nós o recebamos no mesmo dia. Usa por isso a Fedex mais rápida, que custa à volta de 40 euros.

É maravilhoso receber-se em Lisboa, passadas poucas horas, café torrado naquela manhã por Tim Wendelboe. Vale o esforço. Só que o esforço, aviso já, é enorme. Pense bem antes de se arriscar.

Como a Noruega não faz parte da União Europeia, é preciso ir-se à sede da Fedex perto do aeroporto de Lisboa buscar um papel que se tem de levar, juntamente com todos os documentos da compra, à Alfândega. Na Alfândega os funcionários são muito eficazes e simpáticos e tornam o processo o mais fácil possível. Paga-se apenas o IVA do café.

Depois tem de se voltar à Fedex para finalmente levantar o café. É uma tarde inteira de voltinhas: o extremo contrário de receber o café comodamente em casa.

Para mais há a possibilidade — inteiramente legal — de a Alfândega exigir um certificado de importação (ou lá o que é) que ainda leva mais umas viagens, papeladas, despesas e dias para arranjar.

Como pode ser tão complicado comprar café de um país tão simpático e amigo como é a Noruega, que tanto bacalhau e salmão nos vende? Ou será o problema da Fedex, que não faz o desalfandegamento de produtos alimentícios vindos da Noruega? Nesse caso, será Tim Wendelboe que deverá usar outra transportadora.

Pense duas vezes antes de se arriscar. Mas, no caso de se arriscar, não se arrependerá.