Ricardo Silva

Um branquinho perfeito, o Corvus 2014, para a praia da Adraga

São muito poucos os vinhos que apanham uma paisagem viva, de ventos e de mar, de sol e de névoas. Descer de Almoçageme para a praia da Adraga é mergulhar num mundo de céu aberto, mar sem fim e montes verdes que parecem lá estar desde o princípio do tempo.

Por um acto de heroísmo e de sorte nasceu este ano um vinho branco — o Corvus 2014, comercializado por José Humberto Nunes Corvo — que é aquela mágica paisagem feita vinho.

A vinha é de longe a mais ocidental da Europa, ficando a apenas quilómetro e meio do cabo da Roca. É o vinho de onde o mar acaba e a terra começa. No rótulo fala-se dos “ventos violentos e nevoeiros salgados” que deram o gosto marítimo e atlântico ao vinho.

Esperei pela vinda do meu amigo Manuel Serrão, impiedoso crítico dos brancos da moda, para beber o vinho. Ficámos encantados. A garrafa esvaziou-se num instante.

O Corvus 2014 é um vinho invulgarmente honesto. Não tem manhas nem truques nem modas. Tem a graduação correcta — 12 graus — e o sabor é verdadeiramente fresco, acidulado, mineral e deliciosamente selvagem.

Não é um vinho que esconde as origens. Provam-se a determinação das uvas e o convívio com as tempestades e as bonanças da Adraga. É um triunfo da teimosia e do amor: teimosia por fazer um vinho num lugar tão difícil e amor por ser tão bonita a terra onde nasceu.

O Corvus 2014 é um vinho da Adraga. É um vinho de uma paisagem encantadora e proibitiva que não serve só de vista. No promontório da Adraga, para além da vinha, há hortas e pomares. É uma terra altiva mas é trabalhada. Há ali um entendimento maravilhoso entre Deus e o homem.

O vinho bebe-se muito bem sozinho — tem uma personalidade arrebatadora que surpreende mesmo quem é avisado — mas é irresistível acompanhá-lo com ostras, mariscos ou peixe. Idealmente olhando para o céu e para o mar da Adraga.

O famoso Restaurante da Adraga (219 280 028), mesmo em cima da praia, é um lugar perfeito para beber este vinho. Não há ano em que este antigo restaurante não seja elogiado na imprensa portuguesa e estrangeira e, no entanto, portam-se com a mesma simplicidade, simpatia e qualidade dos tempos em que não eram conhecidos.

É um caso raríssimo de consistência. O facto de estarem muitas vezes cheios não os impede de tratar bem todos os clientes, sejam ou não conhecidos da casa. Têm sempre tempo para conversar e paciência para acomodar as manias de cada um.

Quem quiser comer só uma sopa ou dividir uma dose de amêijoas à Bulhão Pato pode sentar-se na esplanada, diante daquela vista deslumbrante e ser tratado como um príncipe.

O peixe é sempre muito fresco e muito bom e é sempre sabiamente cozinhado à vontade do cliente. Nas centenas de vezes que lá fui houve só uma vez em que um prato (que não era de peixe) não estava excelente e, mal me mostrei surpreendido por ter levado tantos anos para poder fazer um protestozinho, foi logo surripiado da minha frente e substituído por outro prato incrivelmente delicioso. Não sei o que fazem para não lhes subir à cabeça a justa fama que têm.

Têm tudo: o melhor lugar, o melhor peixe, preços muito razoáveis, empregados briosos e simpatiquíssimos, uma cozinheira exímia, clientes fidelíssimos...e, mesmo assim, acolhem e servem toda a gente que por ali passa como se se tratassem de velhos amigos.

Um vinho da Adraga e um restaurante da Adraga: ainda bem que ainda há maravilhas destas, irmanadas e boas, no nosso país.

Nota: uma garrafa de Corvus 2014 de 7,5 decilitros custa 6,50 euros e as castas usadas são Fernão Pires, Malvasia e Chardonnay. O único contacto que tenho é o telemóvel de um dos dois irmãos responsáveis pela produção do vinho, José Corvo: 934 026 516.