Daniel Rocha

Abençoada seja a primorosa Primavera que chega finalmente aos nossos pratos

Primeiro foram os espargos, sempre os primeiros a fazer manguitos ao Inverno. Depois vieram as favas. Mas, num só almoço desta semana, chegou a primeira variedade de novidades de 2015: nêsperas, morangos e ervilhas. 

Antes de comerem a primeira fruta do ano os judeus fazem questão de agradecer: “Bendito és Tu, Senhor nosso Deus, Rei do Universo, que nos deu vida, nos manteve e nos fez chegar à presente época”. Ou, por outras palavras: “Obrigado por me teres aguentado mais um aninho permitindo-me chegar a mais uma rodada de nêsperas”.

As nêsperas são das verdadeiras, pequenas e irregulares, apanhadas de uma nespereira regada só pela chuva e irradiada só pelo sol. Nada têm a ver com as nêsperas gigantes, bombas sensaboronas de açúcar, que se vendem para aí.

Estas nêsperas sabem a quinino. São aciduladas ou simplesmente ácidas. Amarfanham a boca, preparando-a para o sabor misterioso deste fruto, contraposto por uma doçura intimamente correcta.

Enquanto eu arrematava as nêsperas, a Maria João tinha encontrado os primeiros morangos de Colares. Eram pequeninos e sabiam mesmo a morango. Ainda é cedo para os morangos chegarem ao pico de sabor e doçura mas estes davam boa conta dos sucessores.

Andam para aí montanhas de morangos enormes, lindíssimos e baratos: todos são de estufa; todos estão cheios de água e de açúcar; nenhum sabe a morango. São falsos morangos. São morangos para quem só gosta da imagem de morangos.

Os morangos de Colares — alguns do tamanho de berlindes — cresceram ao ar livre. A água que têm — da chuva — foi toda convertida em sumo. O sol deu-lhes directamente a doçura.

É um dos maiores prazeres da vida esperar nove meses pelo regresso de frutas que cresceram no mesmo sítio onde vivemos. Deveríamos seguir o exemplo nobre e inteligente dos enólogos quando contam como as uvas reflectiram ou conseguiram resistir à passagem das centenas de dias e noites que as preparou para a colheita.

Estas nêsperas e estes morangos mostram, acima de tudo, que o Inverno de 2014/15 foi invulgarmente suave e soalheiro. É o tempo — e a memória desse tempo — que nos vai parar à boca. Estamos a comer o tempo — a comer o tempo com que já comemos.

Comer a fruta no tempo dela, no lugar onde ela nasceu e cresceu e se pôs madura, não é uma forma de respeitar a natureza ou de cumprir religiosamente dogmas gastronómicos inflexíveis: é apenas a estratégia mais inteligente para comer fruta boa que nos saiba tão bem como é capaz de saber.

Foram esses os nossos aperitivos. De seguida esperava-nos uma surpresa avassaladora: umas ervilhas de agricultura biológica que um amigo nosso nos ofereceu. Comemos calados. Nunca tínhamos comido ervilhas tão boas. A bem dizer nunca tínhamos comido ervilhas. Aquilo que comemos no passado eram apenas esboços ou aproximações de ervilhas.

A Maria João queria fazer umas ervilhas com ovos. Eu queria mostrar-lhe como os ingleses fazem as ervilhas, com manteiga e hortelã. Mas estas ervilhas, quando as descascámos, eram tão verdinhas e redondas que decidimos apenas cozê-las brevemente em água salgada.

Depois decidiríamos se eram melhores temperadas com azeite ou manteiga. Está bem, está: as ervilhas eram tão deliciosas que as comemos todas sozinhas, sem nada. Com meia dúzia que sobraram experimentei três com manteiga e três com azeite: em ambos os casos as ervilhas foram gravemente prejudicadas. Ervilhas tão boas como estas não só não precisam de tempero como desaparecem caso se tente temperá-las. Quanto à hortelã (para nem falar em chouriço!), nem pensar: aquelas ervilhas eram o princípio e o fim da refeição. Acompanhámo-las com garoupa cozida mas até a garoupa era escusada.

As ervilhas tinham sido apanhadas e cozidas num prazo de 12 horas. Dizem que acabadas de apanhar são ainda melhores mas, como é óbvio, não consigo imaginar melhor.

Os primores da Primavera nunca vieram tão cedo ou foram tão bons.