Na ponta da língua
As coisas que conseguimos esquecer
Viajar no tempo já não é o que era. A Internet estragou tudo. Em vez de tentarmos lembrar-nos de 1990 e do ano em que o PÚBLICO começou a aparecer nas bancas, vamos à Wikipedia e lemos longas listas de coisas que conseguimos esquecer; algumas das quais só com grande dificuldade.
O melhor disco português de todos os anos 1990, segundo um vasto júri de músicos e entendidos que a revista Blitz conseguiu reunir, chama-se Viagens e foi gravado por Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio. Sem querer, ouvi uma vez uma música desse disco. Mas consegui esquecer-me dela antes do fim do milénio.
Muito melhor do que relembranços forçados por listas – “Ah sim!
Lembro-me perfeitamente...mas isso não foi em 1989” – é irmos à procura de coisas que não conhecíamos.
Um disco de 1990 que eu não conhecia e que conheci esta semana é o maravilhoso The Nurturer de Geri Allen. Em Dezembro desse mesmo ano, com Charlie Haden e Paul Motian, gravou Live at the Village Vanguard, outra bela descoberta.
Vinte e cinco anos antes de 1990, (só para dar uma ideia dos muitos anos que são 25 anos) corria o ano de 1965. Eu tinha dez anos e pensava que conhecia toda a música pop que prestava para alguma coisa.
Um disco extraordinário – possivelmente uma obra-prima – de 1965 que eu não conhecia é Patty Waters Sings. Quatro canções têm menos de dois minutos; três têm menos de três minutos e uma delas, Black is the Color of My True Love’s Hair, tem quase 14 minutos.
Eu só conhecia esta última quando se tornou famosa por alturas da música punk. Patty Waters improvisa e grita bastante. Pensando que ela cantava sempre assim, não me dei ao trabalho de ouvir as outras sete canções, todas avassaladoramente íntimas e bonitas.
A verdade é que não gosto de ouvir a música de que gostei. Já a conheço. Lembro-me de estar apaixonado por ela, de não poder ouvir outra coisa –e essa, felizmente, é a única maneira de ouvir música. É também irreproduzível.
Felizmente somos todos facciosos com a música. Para ouvir a música que eu amava era impossível (não havia tempo nem vontade nem coragem) ouvir a outra música. Ficou muita música de fora. Muita dela má mas muita boa, tragicamente desconhecida.
Falo na música porque gera obsessões. Tanto a pianista Geri Allen como a cantora Patty Waters não me parecem de 1990 e de 1965. Nem parecem de 2015. Parecem de sempre. De um sempre que muda de semana para semana. No fim deste mês estarei farto de Geri Allen e de Patty Waters e nunca mais hei-de querer ouvi-las.
Viajar no tempo só tem graça para descobrir aquilo que perdemos; o que nos escapou. O passado é uma caixa gigante cheia de tesouros bastantes para nos ocupar durante duas ou três vidas inteiras. A caixa está escondida debaixo de uma montanha de lixo. Mas o lixo é fácil de afastar e chega-se à caixa num instante.
O presente é a melhor altura das nossas vidas. Quando somos novos chateiam-nos para pensarmos no futuro e quando somos velhos chateiam-nos para nos lembrarmos de como era e do que é que nos aconteceu. Pensar no futuro é impossível. Pensar no passado é inútil.
Tanto uma coisa como a outra são uma criminosa perda de tempo. As únicas saudades que valem a pena são aquelas que podem ser satisfeitas: saudades de pessoas com quem se pode estar outra vez.
Alguém quereria voltar a 1990? Sabe bem dizer mal da Internet como geradora automática de pseudo-nostalgias mas isso é quando se tem Internet. Em 1990 não havia.
Quem é que dispensaria os 25 anos de literatura, cinema, música, arte e bugigangas que apareceram entre 1990 e 2015? Grande parte desse tesouro são coisas de outras épocas que só apareceram entre 1990 e 2015.
Em 2015 é mais fácil (e barato) descobrir e ouvir e ler e ver a grande quantidade de coisas boas que perdemos ao longo destes 25 anos e, mais importante ainda, de tudo o que perdemos desde que começou a haver coisas para ver e ler e saber.
Um dia havemos de perder a alegria da curiosidade e o entusiasmo pelas descobertas. Só quando esse dia chegar é que nos devemos virar, com resignada senescência, para os confortos podres do que já conhecemos.