É um prazer passar um ano inteiro a ler e a conviver com plantas bonitas, úteis e boas

A mais interessante e saudável agenda que pode comprar é a Agenda de 2015 de Fernanda Botelho, este ano com o título Hortas e jardins medicinais. Trata-se já da sexta edição, é publicada pela Dinalivro e, apesar da alta qualidade da encadernação e da impressão a cores, custa apenas 12,50 euros.

Quantas agendas conhece em que todo o conteúdo escrito e fotográfico é novo?

Todos os anos a autora escolhe 52 plantas novas (uma para cada semana) e escreve o livro inteiro de raiz. Conta também com novos e excelentes artigos introdutórios: este ano são quatro. Cada agenda é um livro inteiramente novo, pelo que se vai constituindo uma colecção importante de pequenos ensaios sobre as plantas e as utilidades que têm. Ao contrário das outras agendas que se deitam fora, estas agendas-livros acumulam-se, cheias de informações preciosas para as nossas vidas (e de plantas que prendemos entre as páginas).

A generosidade de Fernanda Botelho é lendária: o blogue dela, Malva Silvestre, é uma maravilha, igualmente poético, prático e político.

Também vale a pena segui-la no Google Plus. Fernanda Botelho sabe muito sobre plantas mas mantém-se apaixonada por cada nova descoberta.

É uma pessoa empenhada que se diverte e uma pessoa divertida que se empenha. Não é fundamentalista e por isso pode ser lida sem receio de levar com sermões ou ralhetes. Tal como as plantas, cada um é como é.

O sub-título do blogue Malva Silvestre dá uma boa ideia das frentes de batalha dela: plantas medicinais, aromáticas, condimentares, jardinagem, ateliers, cursos,workshops, passeios, agricultura biológica, permacultura, ecologia, jardins nas escolas, jardins botânicos...

Cada artigo sobre uma planta conta-nos a história dela, como se deve plantar e cuidar, como protegê-la sem usar venenos, como se pode usá-la para ajudar a nossa saúde e, quando é caso disso, como podemos cozinhá-la e comê-la.

É que Fernanda Botelho não é apenas uma estudiosa. Tem uma horta e um jardim onde gosta de trabalhar. Sabe de cozinha e é bom garfo. Também é muito sensível à beleza das plantas: algumas de que gosta (e que ficam lindas nas fotografias) são invasoras e matam as plantas vizinhas. A autora diz as feias verdades sobre elas mas não as arranca: é assim o amor. Não é por ter defeitos que se deixa de amar uma planta ou uma pessoa.

É espantosa a variedade das plantas. Tanto diz coisas novas e úteis sobre as cebolas (se espigarem, as espigas também se comem) como nos apresenta a brugmansia, que é altamente alucinogénia (sendo melhor deixá-la aos xamanes mais experientes da Colômbia, do Equador e do Peru).

A leitura é sempre empolgante. Se julga que é mais um livro com belas ilustrações e legendas corriqueiras, desengane-se já. A segunda semana de Fevereiro, por exemplo, cabe à arruda (ruta graveolens).

Estou farto de ver as flores da arruda sem saber o nome da planta. Agora fico a saber que “está muito associada a rituais de limpeza, de purificação, de bruxaria e de protecção contra o diabo. Diz-se que espanta as cobras e o mau-olhado, sobretudo se for plantada na entrada das casas, do lado esquerdo da porta”.

Depois vem a surpresa científica: “a arruda pertence à família das Rutáceas, de que também fazem parte os citrinos. Quem diria que a arruda é prima do limão e da laranja?”

Passa-se aos conselhos práticos de jardinagem: “Incompatível com o manjerico, consocia-se bem com a roseira e a framboeseira, pois afasta o besouro japonês.”

E finalmente vêm as aplicações, sempre inesperadas: “É benéfica para as figueiras, podendo com ela lavar-se os canis. Como os gatos não gostam do seu cheiro, esfregue-a nos móveis para os proteger das arranhadelas dos felinos. Pode ainda pendurar ramos de arruda em casa, nos estábulos ou perto das estrumeiras para afastar as moscas.”

A primeira agenda-livro é de 2009. Comece pelo de 2015 e vai ver que não descansará enquanto não tiver a colecção inteira. Até hoje...