Na ponta da língua
Finalmente há um livro que nos diz que não é fácil beber whiskies das melhores maneiras
O melhor livro do ano, da cada vez maior secção de destilados e cocktails, foi Whisky: The Manual, de Dave Broom. Dave Broom é o autor do indispensável The World Atlas of Whisky, cuja mais recente reedição aumentada e corrigida (de Outubro de 2014) já esgotou em muitos livreiros online.
Dave Broom tem 57 anos, gosta de jazz e escreve boas colunas para as revistas Whisky Advocate e Whisky Mag. Tal como Jim Murray, o autor do Whisky Bible (a edição de 2015 também saiu em Outubro), não se rende facilmente aos lugares-comuns acerca da supremacia dos single malts da Escócia.
Num pub em Glenfiddich onde entrei há muitos anos, ao lado de uma ponte sobre o rio (glen) Fiddich, dei com um balcão de escoceses a beber whisky (Famous Grouse e Bell’s) com garrafas de litro e meio de gasosa e laranjada à frente de cada um.
Meti conversa com eles. Eram empregados da destilaria de Strathisla, que fornecia o principal whisky de malte para fazer o Chivas Regal. Tinham orgulho nisso.
Perguntei-lhes por que é que misturavam laranjada e limonada com o whisky. Responderam-me que era assim que gostavam de bebê-lo. Logo a seguir um deles acrescentou, agressivamente: “Nós somos trabalhadores do whisky. Toda a gente que disser que o whisky deve ser bebido seco ou só com uma gota de água é nossa inimiga.”
Disseram-me o mesmo em todas as destilarias que visitei (incluindo a deliciosa mas gigante e industrializadíssima Macallan): “Bebam whisky como muito bem entenderem. O pior que nos podem fazer é beber outros destilados...”
Em 2015 os whiskies são os destilados mais procurados do mundo. Reina o gin — uma vodka condimentada — mas o futuro pertence às bebidas velhas e castanhas (whiskies, runs e conhaques) que são muito mais versáteis e misturáveis do que se pensava.
O meu pai quando era novo — nos anos 1940, na Inglaterra — começou a beber whisky and soda e continuou a bebê-lo (com água Castello, soda da Schweppes ou Perrier) até morrer. Só por causa da filoxera é que se tinha deixado de beber brandy (Cognac) and soda e passado para os whiskies.
Ele bebia J&B e Cutty Sark (dois blends concorrentes criados pela mesma pessoa) com Água Castello. O whisky and soda era um aperitivo e um digestivo. Na Inglaterra levava um esguicho de soda water da Schweppes. Em Portugal juntavam-se blocos de gelo e a maravilhosa Água Castello.
Dave Broom vai além da água gaseificada para provar os whiskies mais conhecidos: inclui o ginger ale (que se sai quase sempre bem), a coca-cola, a água de coco (popular na América do Sul) e o chá verde adocicado (popular na Ásia).
Não vou revelar aqui as escolhas de Broom porque gostaria que todos os que se interessam por estas coisas comprassem o livro, que é mesmo um manual que dá gosto — e é util — ter.
Basta dizer que o whisky é o mais interessante dos destilados não-vínicos. Nas experiências de Dave Broom o ginger ale é rei; a água gaseificada é princesa e a coca-cola é espantosa com Lagavulin. A água de coco é tão boa com Johnny Walker Black como com água Castello. Broom acha que o fumo e o gás da água dão um casamento perfeito.
No entanto, é preciso dizer que, para quem gosta verdadeiramente de whiskies, a coca-cola, o ginger ale e o chá verde açucarado são assassinos. O gelo (feito de uma boa água mineral, como a Fastio, a Luso ou o Caramulo) é bem-vindo. Mas o açúcar, amplamente elogiado por Dave Broom, é um convidado indesejado.
A verdade é que cada país tem as preferências que tem, atendendo ao clima, à cultura e às matérias-primas mais à mão. E, dentro de cada país, cada um é como é. Em Portugal, por exemplo, bebemos whiskies secos, com uma pedra de gelo, com água lisa e com água com picos. O nosso mal é não conhecermos os maravilhososwhiskies que não são escoceses ou irlandeses, fora três ou quatro whiskies americanos e um ou dois japoneses.
Os whiskies, sejam irlandeses, escoceses, americanos, japoneses, canadianos ou europeus do continente europeu, são bons de mais para serem catalogados e resumidos.
Dave Broom tentou. E falhou como tinha de falhar. Mas é divertido acompanhá-lo e aprende-se muito com a coragem dele. Mesmo nos cocktails tem umas dicas inteligentes. É por isso que se recomenda Whisky: The Manual não aos principiantes mas aos veteranos — sobretudo aos mais batidos, que tendem a privilegiar duas ou três destilarias e esquecer o resto do mundo, que é, graças a Deus, muito, muito grande.