Hélder Olino

Cuidado com a Adega do Saraiva, o restaurante onde é tudo tão bom que é preciso ter mais barriga do que olhos

Há instituições da cozinha portuguesa tradicional mas a Adega do Saraiva não é uma delas. Na Adega do Saraiva cada dia nasce fresco, com uma ideia diferente, um jeitinho especial, um propósito perfeito para aquele dia.

Estando aberto e sendo justamente afamado há mais de 50 anos em toda a zona de Sintra e Lisboa, é natural que a família Saraiva e a grande equipa de cozinheiras e empregadas saibam fazer as coisas à antiga, com muito cuidado, muita sabedoria e pouca curiosidade pelas modas passageiras.

Os pratos são de arromba: deliciosos, bem servidos e modestamente apreçados. É preciso cuidado quando lá se vai para não comer de mais.

A minha querida cunhada Teresa e o meu concunhado Álvaro, da última vez que lá foram connosco, caíram na armadilha número um.

O pão, cozido pela Teresa Baleia nas Odrinhas, sai dos fornos ao meio-dia para estar no Saraiva, quentinho, ao meio-dia e meia. Cortado em grossas fatias vai quentinho para as mesas, com um prato de boa manteiga.

Juntam-se as excelentes azeitonas e um copinho ou dois dos excelentes vinhos da casa (os melhores e mais baratos de qualquer restaurante português que conheço) e é difícil não se ficar almoçado só com o pão.

A armadilha número 2 são as saladas: a de alface, cebola e coentros, temperada pela Catarina ou pela Simone, é de uma verdura e frescura que só costumam aparecer em contos de fadas.

Seja o que for que se estiver a comer, só apetece continuar a comer essa coisa. A mim aconteceu-me, por exemplo, comer lá cabrito, todos os dias, durante seis meses. O João Pedro, marido da Maria João, filha dos fundadores, António e Maria Emília Saraiva, avisou-me que assim haveria de fartar-me e assim foi: estive anos sem querer comer cabrito.

Felizmente passou-me a fartura e ainda esta semana lá fui para o cabrito (uma dose dita “pequena” é generosíssima), verificando com alívio mas sem surpresa que continua formidável.

O cabrito é servido portuguesmente, com arroz e batata frita. O arroz, inventado pela dona Maria Emília Saraiva, é um arroz branco com subtis intrusões de ervilhas. As batatas fritas são impossíveis de controlar. São tão boas — estaladiças e quase ocas no meio — que não se consegue deixar uma na travessa.

As cozinheiras treinadas pela dona Emília — a Fátima, a Helena e a Cristina (exímia grelhadora ensinada pelo saudoso António Saraiva) — são tão talentosas como trabalhadoras.

Não há espaço neste jornal inteiro para falar dos pratos que se comem no Saraiva. Cada cliente que lá vai tem dificuldade em escolher.

Comecemos pelos pratos do dia: à terça-feira há polvo cozido e vai voltar a haver dobrada. Quarta-feira (e domingo ao almoço) é o dia do cozido à portuguesa. É tão bom e tão grande que tenho de escrever as coisas de que gosto mais, para não ficar avassalado. Na quinta-feira é dia de peixe fresquinho e de mão de vitela com grão. Uma garoupa ou pescada cozida com todos é uma perfeição. A mão de vitela é uma obra-prima inesquecível. Sexta-feira é dia de caldeirada. É uma caldeirada bem temperada, com muito safio e raia de primeira qualidade, feita à moda da dona Emília.

Como todas as grandes cozinheiras, ela cria tradições. A caldeirada dela — que não se come em mais lado nenhum e tem segredo — é, mais uma vez, tão boa que é difícil parar de comer. Meia dose chega e sobra para duas pessoas.

Sábado e domingo regressa o admiradíssimo cozido à portuguesa. Ao domingo à noite e à segunda-feira há descanso, bem merecido.

Depois há os outros clássicos: o cabrito, a vitela no forno, a feijoada de chocos, o bacalhau assado, o polvo à lagareiro e, espantosos, os bifes à moda antiga, feitos com um molho politicamente incorrecto.

Mas não é só pela comida que se vai ao Saraiva: é pelo ambiente de camaradagem e de brincadeira, pelas personalidades bondosas e encantadoras da Simone, da Paula, da Sílvia, da Catarina e de toda a família Saraiva.

Aquilo é mais do que um restaurante: é uma maneira de viver. Uma boa maneira de viver. De viver bem.

Adega do Saraiva
Largo do Paquete, 4, Nafarros, freguesia de São Martinho, Sintra.
Tel.: 219 290 106
Atenção: é barato mas só aceita dinheiro.