Sandra Ribeiro

A mão divina da dona Lurdes faz sorrir os olhos e as barrigas de quem vai regalar-se à Adega das Azenhas

Às vezes os nossos restaurantes favoritos são os mais desconhecidos.

Habituamo-nos a comer lá certos pratos que são famosos e esquecemo-nos sempre de investigar a amplitude da carta.

No caso de Lurdes Dias, a grande cozinheira do restaurante Adega das Azenhas, são tão boas, bem servidas e economicamente apreçadas certas iguarias (os filetes, o bacalhau com natas, o cozido à portuguesa, o arroz de pato) que é preciso muita coragem para resistir-lhes e experimentar outras coisas.

É o que tenho feito nestas últimas semanas, surpreendendo-me vez após vez com novos prazeres. A dona Lurdes é uma daquelas raríssimas cozinheiras que sabe fazer muito bem todo o receituário tradicional português. Não é apenas a experiência, o gosto e a sabedoria: é um dom que tem.

Esse dom é exacerbado por uma generosa maternalidade: não há outra palavra para o afecto altruísta com que cozinha para os clientes, todos amigos. Cozinha como cozinha para os filhos, que trabalham com ela.

Gerações de empregadas e empregados também se reconhecem filhos e netos adoptivos dela, tal a Adega das Azenhas é a escola de simpatia, trabalho duro, delicadeza e afectuosidade onde todos aprenderam bem as lições profissionais e humanas.

“Na Lurdes come-se sempre bem e barato” é uma das frases (justamente) feitas da zona de Colares, Janas e Sintra. Até o meu irmão Paulo, a quem não escapa um restaurante onde se coma bem, quando me convidou para almoçar num restaurante fantástico que ele tinha descoberto levou-me, de olhos vendados...para a Adega das Azenhas.

É daqueles restaurantes que estão sempre cheios, ao almoço e ao jantar, por causa do elevado número de clientes que lá vão todos os dias, mas que arranja sempre maneira de sentar um casal que cometeu a loucura de não reservar. A propósito, 219 281 357 é o número da sorte.

Como o irmão da dona Lurdes tem um talho, a carne é sempre de primeira. A semana passada, com o nosso amigo Manuel Serrão como testemunha — numa casa onde faz questão de testemunhar muitas vezes — comemos uma carne de porco frita que era um portento, tal era a qualidade da carne e a delícia da cozedura. Era tão boa que comemos todos de mais — o único perigo de ir à Adega das Azenhas. O Manuel confessou à dona Lurdes que tinha comido de mais. Resposta da dona Lurdes, com um sorriso: “Ah, isso passa...” E é verdade. Por muito que lá se coma — e come-se sempre muito — está tudo tão bem cozinhado, com saúde e atenção, que a digestão é sempre facílima.

Também fiz a experiência de lá ir só comer o prato do dia e mais nada: fica-se satisfeitíssimo. O segredo são os arrozes da dona Lurdes, todos perfeitos. Desde o branco — que costuma ser descuidado em muitos bons restaurantes —, que é macio e saboroso, ao de tomate, passando pelo magnífico arroz à Lurdes que é o arroz que acompanha quase tudo — são arrozes dignos de serem servidos sozinhos, sem mais nada.

Nesta quinzena comi uns “chocos com batatas” que eram a mais espantosa jardineira de chocos que em toda a minha vida já comi. A dona Lurdes cozinha para puxar pelo sabor dos ingredientes e não para escondê-los ou atrapalhá-los. Os chocos sabem a chocos e o molho é subtil, deixando que as batatas sejam batatas e as cenouras cenouras.

A maneira de escolher é perguntar aos excelentes empregados. Há sempre um ou dois pratos e duas ou três sobremesas que estão particularmente deliciosos. O filho mais velho da dona Lurdes, o senhor José Augusto, é um anfitrião magnífico. Aconselhe-se também com ele.

Os empregados são peritos em conhecer os clientes. Aquele que nos foi atribuído, o senhor Zé, é um conhecedor profundo da gastronomia e sabe ler-nos as almas, adivinhando-nos os apetites.

Para se ficar com uma ideia da amplitude culinária, eis algumas das coisas formidáveis que lá comi: um ensopado de borrego perfeito, o melhor rosbife do concelho de Lisboa e, cada vez que lá vamos, por serem irresistíveis, os melhores pastéis de bacalhau — aqui vou mesmo arriscar o pescoço — de Portugal. Nem menos! Viva a dona Lurdes e todos os que fazem da Adega das Azenhas a nossa segunda — e muitas vezes única — casa.

Adega das Azenhas
Avenida Comissão de Melhoramentos, 5. Azenhas do Mar
Tel.: 219 281 357
Fecha às quintas-feiras