Na ponta da língua
À sua saúde: um belo Sauvignon Blanc de 2013 plantado, crescido, vinificado e engarrafado a 500 metros da nossa casa
Esta semana conheci o barão Bodo von Bruemmer, que plantou a vinha mais ocidental da Europa com 95 anos de idade. Tem hoje 102 anos e falou-me com entusiasmo desta nova epopeia numa vida cheia de momentos épicos e mudanças de rumo. Em Junho, a Câmara Municipal de Sintra atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Municipal Grau Ouro, a mais alta condecoração que pode dar.
Em Julho de 2013 a Andreia Sanches entrevistou-o para o PÚBLICO. A entrevista é encantadora, surpreendente e inspiradora, como o próprio Bodo von Bruemmer. Vale a pena procurar a entrevista no PÚBLICO online e, já agora, uma bela entrevista filmada pela Rádio Renascença. Ponha “fazer vinho com 100 anos de experiência” na máquina de busca e aparecerá imediatamente.
A vinha tem 7,5 hectares e tem uma vista verdadeiramente magnífica do Oceano Atlântico, vendo-se bem o Cabo da Roca. Os enólogos são Jorge Rosa Santos e António Figueiredo. Faz parte da Quinta Casal de Santa Maria, em Casas Novas, perto de Almoçageme e a caminho do Penedo, na freguesia de Colares.
Até agora só provei o Casal Sta Maria Sauvignon Blanc 2013. Foi para comprar duas garrafas que acabei por conhecer von Bruemmer. Não fui convidado para nenhuma prova nem visitei as caves nem a vinha, pelo que as minhas palavras são as de um cliente sincero que de vinho não percebe quase nada.
Foi inteligente a escolha de Sauvignon Blanc. O vinho é fresquíssimo, sequíssimo e delicioso. Não tem nada a ver com a complexidade do maravilhoso Malvasia de Colares produzido pela Adega Regional de Colares. É escusado compará-los.
Custando 12 euros por garrafa é um vinho limpíssimo e refrescante — claramente um Sauvignon Blanc mas com características próprias do clima envolvente desta parte de Colares, mais enevoada, húmida e marítima.
Sei que têm vinha da casta Riesling plantada e aposto que vai sair coisa boa, como aconteceu com o Sauvignon Blanc. Nos anos 1980, logo no princípio deles, foi fulgurante o aparecimento dos vinhos Riesling, Sauvignon e Gewurztraminer da Quinta da Pacheca, no Douro, sob a orientação de Eduardo Serpa Pimentel.
Foram lufadas de ar fresco num mercado ainda muito pouco imaginativo e corajoso. Afinal os microclimas de Portugal — que são mais do que muitos — permitem fazer grandes vinhos com castas estrangeiras.
Claro que é absolutamente urgente e bom conservarmos todas as nossas castas nacionais mas, olhando para os preços dos bons Sauvignons Blancs franceses, neo-zelandeses ou sul-africanos em Portugal e para a pouca escolha que existe, sabe muito bem poder comprar e beber logo em Maio de 2014 o novíssimo Sauvignon Blanc de 2013 do Casal Sta Maria.
Uma das razões principais, para quem cá vive todos os dias ou visita Colares regularmente, é que ainda nos lembramos do tempo e do clima de 2013. Podemos assim beber o ano que passou, com a memória da Primavera e do Verão do ano passado, durante a Primavera e o Verão deste ano.
Há uma alegria especial nesta rapidez, que não precisa de envelhecimento em madeira nem de tradicionalismos escusados.
Claro que jamais será um bom Sancerre mas veja-se o preço a que estão esses vinhos. São baixos, para a qualidade dos vinhos, mas são, em Portugal, mais caros do que doze euros.
É um vinho completamente diferente de um Sancerre. É um erro enorme, aliás, guiarmo-nos pelas castas, como fazem alguns ignorantes americanos. Este Sauvignon Blanc é o do Casal de Sta Maria, de Casas Novas em Colares. Conseguiu ter uma personalidade única porque tem atrás dele uma personalidade única que soube confiar em enólogos inteligentes e escorreitos.
Quantas vezes temos a oportunidade de saudar um novo vinho de Colares?
Poucas. Esta é esplendidamente uma delas: obrigado, senhor barão, é o que dizem os que cá estão.