Os portugueses gostam de comprar cerejas no Natal, como um luxo. Este ano também comprei e não me arrependi.
Vinham do Chile, onde está agora o clima do nosso Junho e já vai cheirando a Verão. Quando mordo uma cereja no frio de Dezembro profundo fico possuído de inveja dos chilenos. A cereja não é fruta para se comer no frio: o dito e bendito tempo das cerejas é outro.
Há também uma desobediência às estações do ano que também sabe bem. No Verão mergulho as cerejas em água com muito gelo. Agora não é preciso porque as cerejas não aquecem: nem por mais uma.
Também não gostava, até hoje, de clementinas, preferindo as tangerinas e as tângeras. Mas este ano apanhei-as cedo, com casca fininha, duma variedade pouco comercial. Eram deliciosamente ácidas.Eram diferentes das invasivas bombas de açúcar sem traço familiar dos citrinos.
A incongruência de comer clementinas (da época) com cerejas (fora de época) foi a experiência mais agradável de todas. A doçura tinha sido importada do outro lado do mundo mas a acidez tinha vindo de aqui perto. Não faz sentido mas os sentidos adoram as grandes confusões.
As laranjas este ano prometem. As do Algarve (provei umas de Silves) são sempre estupendas e diferentes umas das outras. Um meu correspondente no Algarve, Carlos Lopes, referiu-se assim às do sotavento algarvia: “Figos também temos. E laranjas, meu Deus, laranjas...”.
Já elogiei aqui muitas vezes os produtores de fruta em Portugal mas também é justo agradecer o bom gosto de alguns importadores. É um erro pensar que toda a fruta importada não presta.
Pelo contrário, há claramente importadores que sabem escolher a fruta, transportá-la e colocá-la em boas condições no mercado nacional. Temos preconceitos contra a fruta espanhola que nem sempre se justificam. Mas, o mais das vezes, tem sido do Chile e da África do Sul que tenho provado melhor fruta (e peixe, e vinhos, mas essas são outras questões).
Sem importações do Chile a nossa alegria gastronómica seria menor. No fim do Verão também sabem bem as grandes cerejas tardias do Canadá, país onde têm originado boas variedades de cereja.
Pensando bem, é pena não importarmos morangos da Inglaterra que são bem bons por volta do torneio de ténis de Wimbledon. Devem sair caras de mais. Mas são muitos os países com bons morangos e poucos os que não juram ter os melhores do mundo. Claro que nenhum deles se aproxima dos morangos selvagens de Colares ou dos cultivados de Nafarros...
Se a época natalícia é de bondade e de compreensão, aproveito para agradecer aos nossos mais exigentes importadores o trabalho difícil de escolher as melhores frutas. Há uma maçã de que muito gosto — a Granny Smith — que se vende cá produzida em Espanha, na França e na Itália. A francesa parece-me a única à altura do nome. Mas para quem já comeu uma maçã Granny Smith inglesa — uma explosão sumarenta de incisiva acidez e textura estaladiça — as versões continentais são sempre uma desilusão.
Longe de mim dar conselhos aos importadores mas, falando de uma posição de ignorância absoluta, parece-me que se têm privilegiado os países com climas marítimos parecidos com o nosso (África do Sul, Marrocos, Chile) ou mais quentes do que o nosso (Brasil, Sul da Turquia) à custa dos países com climas mais frios do que o nosso.
Seria bom que alguém que percebesse do assunto falasse das diferenças entre importadores e se conseguisse estabelecer uma tabela dos melhores.
Eu cá gosto de espiar os caixotes da fruta, identificando o nome dos produtores estrangeiros. Mas, felizmente, temos quem faça esse trabalho por nós. Aqui na região de Lisboa o MARL tem uma escolha imensa de fruta importada e são os proprietários das frutarias que escolhem o que está melhor para as nossas mesas.
É bom agradecer a toda a gente que contribui diariamente para o nosso prazer, sempre com o cuidado de não nos aligeirar de mais as carteiras. Muito obrigados, importadores e vendedores de fruta de Portugal!