Na ponta da língua
Começou oficialmente o delírio tomateiro do Verão tardio
Os tomates prematuros têm, pelo menos, o condão de nos fazer esquecer, todos os anos, a bondade gustativa do tomate. Ainda estamos em Agosto mas o tomate coração-de-boi (a que os espanhóis chamam huevo de toro), que já está profundamente saboroso, ainda vai melhorar.
No El País de dia 15 contava-se que a grande actriz Victoria Abril terá pago 305 euros pela caixa dos melhores tomates huevo de toro no primeiro grande concurso de tomates de Guadalhorce, no concelho de Málaga. A fotografia mostra uns belíssimos tomates, devidamente amadurecidos. Victoria Abril diz que estes tomates "curam" e que "comê-los é como voltar ao passado". Acrescenta ainda que é um tomate "que já não se encontra em parte nenhuma".
Está bem, está. O fim-de-semana passado, na feira de Almoçageme, o que era impossível era não encontrá-los. Foram, aliás, a consolação da trágica escassez de pêssegos-rosa. Há quem lhes chame "tomate saloio", "tomate antigo" ou mesmo "tomate-tomate". Os ingleses e americanos chamam-lhe beefsteak.
Mas as coisas não são tão simples. Para já são todos diferentes uns dos outros, chegando às mais barrocas configurações. Uns são mais cor-de-rosa do que encarnados. Quase não cabem numa mão e é preciso escolhê-los um a um, como as jóias que são.
Também é por agora que os raminhos de orégãos secos estão no pico aromático. Eis quanto basta para chegar ao paraíso tomateiro: dois tomates gigantes, uma cebola cortada às fatias, bom azeite, bom vinagre de vinho branco, flor do sal e umas aparas de orégãos sacudidas do ramo.
Uma grande salada de tomate é um dos melhores pratos que há. Nesta altura é a omolete que faz de acompanhamento. Até uns jaquinzinhos, se os encontrar, são forçados a ocupar uma posição subalterna.
Na loucura dos corações de boi, foi com grande sorte que vi apanhar uns tomates-maçã dos mais pequenos e perfeitos que já vi. Só de olhar para eles sossegava-se. Nunca vi tomates tão bonitos. O maior espanto foi o sabor deles: ainda eram mais intensamente atomatado do que os corações de boi.
É difícil acreditar que o tomate só chegou à Europa, vindo da América do Sul, no século XVI. Também pertence à família venenosa das
beladonas: espreite o site Tomatoes Are Evil caso queira ver o outro lado da questão. O veneno está no caule e nas folhas, tal como acontece com a prima: a batata.
Um erro terrível que vem em todos os livros de cozinha é acrescentar um bocadinho de açúcar quando se cozinha tomate. Quando o tomate é bom não só não precisa de açúcar como sofre com isso. O equilíbrio de doçura e o toque de acidez já estão no tomate em si.
No tempo do tomate come-se tanto o tomate cru como cozinhado. Aparece no centro de todas as refeições. No sábado passado, a Maria João fez uma tomatada onde caíram dez quilos de tomates coração de boi.
Bastaram dois dentes de alho, duas cebolas, um fio de azeite, um pimento verde acabado de arrancar e uma malagueta fresca e...quatro horas a apurar e a mexer.
A vantagem é poder-se congelar em tupperwares. Incrivelmente, nada se perde quando se descongela e aquece. Porque é no frenesim tomateiro que nos lembramos mais vivamente do longo, longo ano - de Outubro a Agosto - sem tomates a sério.
O doce de tomate é outra tentação. É quando se prova uma colherada que se percebe finalmente que o tomate é um fruto.
Também tentamos fazer todos os pratos que levam tomate. Faz-se um bom arroz de tomate com tomate assim-assim mas, quando o tomate é sublime, o arroz ascende com ele.
Mas quem é que pode pensar em arrozes quando o tomate ainda é novidade? O que apetece mesmo são saladas monstruosas de tomate, em travessas que ocupam meia mesa. Quando se acaba de comer, ainda resta o molho: um gaspacho automático. E divinal.