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Castelo do Sabugal

Agora atravessamos o rio Côa como se nada fosse, há 800 anos atravessá-lo era entrar em território inimigo - no reino de Leão e Castela. Atravessamo-lo para chegar ao Castelo do Sabugal, que antes de ser português foi leonês; que foi construído como resposta a um castelo português, o de Sortelha, naquela lógica de "política de diálogo de fronteira", refere Mário Jorge Barroca - e que até obrigou a uma "transferência", do "Sabugal Velho" (há ruínas) para o "Sabugal Novo". Este onde chegamos por estes dias e que passou a ser português em 1296, com D. Dinis - confirmado em 1297, na assinatura do Tratado de Alcanices.

Ainda atravessamos no mesmo sítio onde D. Dinis o fazia. Quase que abraçada pelo rio, a elevação onde se situa o castelo é diminuta e sobe-se por ruas que receberam recentemente nomes históricos - D. Sancho I, Aljubarrota... No topo, uma praça de empedrado novo, com pelourinho do Estado Novo e plátano crocitante, deixanos face a face com as muralhas do castelo - as da povoação foram desaparecendo: a Torre do Relógio, ninho de cegonhas, é a parte mais visível dessa muralha que foi quase oval, ao lado da Câmara Municipal (também ela erguida em parte da fortificação). Na verdade, o próprio castelo não resistiu totalmente a essa voracidade construtora e está também espalhado em pedras e cantaria por todo o Sabugal, mas a intervenção dos anos 40 da DGEMN recuperou-lhe a silhueta.

 

Mas ainda estávamos com D. Dinis, que conquistou o Sabugal e dentro da muralha leonesa construiu o castelo. Em zona baixa, sim, logo "sem condicionalismos topográficos", refere Mário Jorge Barroca, e com "determinados mecanismos de defesa" que lhe permitem a sobrevivência - e validade. Um castelo novo e pensado. "Um bom exemplo do castelo gótico" - a saber, planta geométrica, distribuição muito racionalizada das construções no interior, quatro torreões e uma torre de menagem única: pentagonal.

 

Para chegar à torre das quinas, passamos primeiro a barbacã (do século XIV), muralha baixa que circunda a fortaleza e passamos pela recepção/posto de turismo, edifício recente de ferro e vidro. Pela porta principal, desembocamos na praça de armas, espaço rectangular amplo agora coberto de terra amarela - excepção para o pequeno anfi-teatro de xisto virado para um palco, que aproveita a boa acústica do espaço.

 

Nas muralhas, notam-se as marcas das construções que outrora aí estiveram encostadas, na cor das pedras (silhares) - mas esses edifícios, arruinados, foram completamente arrasados quando, no século de XIX, o castelo serviu de cemitério, depois da proibição de enterramentos nas igrejas.

 

Há quatro escadas de pedra que permitem a subida ao adarve, que se percorre ininterruptamente em piso de xisto restaurado, entre merlões largos e outros mais estreitos que terminam em pirâmides (nos torreões) - estes, têm apenas frestas para a utilização de arco e flecha, os outros já tem troneiras, o que indicia uma adaptação às armas de fogo (possivelmente do reinado de D. Manuel I): a fresta tem na base um buraco cónico, porque o pequeno canhão era pousado no chão (e na barbacã até existem dois níveis de tiros).

 

O acesso à torre de menagem faz-se pelo adarve, quase por cima da porta principal: o escudo manuelino na frontaria e duas salas abobadadas (os arcos de fresta unem-se em escudos de quinas apoiados em grossas colunas) em cada andar, no primeiro, piso de pedra vermelho, no segundo de madeira - a mesma madeira que faz outro andar em varanda, uma mão estendida para as abóbadas. Antes de sair para o terraço em quinas, espreitamos os balcões (quase varandas mas que cobrem uma pessoa), com orifícios em baixo, para o tiro vertical - são uma solução "tipicamente gótica", estes balcões com matacães.

 

Do topo da torre de menagem, vê-se o rio e as suas margens arranjadas, praia fluvial incluída, e o casario que tem um pouco do castelo e não só - há aras romanas em casas e na parede exterior da Igreja São João; noutra casa, um miliário também romano é decoração. E, depois, há casas com janelas manuelinas descaracterizadas. Nem todas as pedras têm o mesmo valor no Sabugal.