NFACTOS/FERNANDO VELUDO

Sara Sampaio

Esta é a cara (portuguesa) do momento

Sara Sampaio já está por todo o lado: caída do céu como anjo da Axe, a dar o tom português à imagem da Lanidor e da Blumarine. Agora, é capa da Marie Claire França.

Disseram-lhe que era baixa para fazer desfiles. Disseram-lhe que tinha uma imagem mais "comercial" e que dificilmente entraria no mercado de high fashion - aqueles editoriais de moda conceptuais, cheios de modelos angulosas. Sara Sampaio tem 20 anos, foi do Porto para Lisboa, e daí para Paris, onde vive há um ano. Agora está a fazer as malas para o atarefado calendário das semanas de moda de Nova Iorque, Paris, Milão e Londres. A capa da Marie Claire francesa de Setembro é dela.

Sara Sampaio é representada por sete agências europeias, entre as quais a Marilyn (que tem no rol de clientes Claudia Schiffer, Kate Moss, Naomi Campbell, Coco Rocha, Irina Lazareanu ou Adriana Lima) e a portuguesa Central, que a agenciou desde que venceu, aos 16 anos, um concurso de busca de melhores cabelos da marca de champô Pantène. É, a par de Ana Sofia, Luís Borges e dos gémeos Kevin e Jonathan Sampaio, uma das manequins portuguesas mais bem sucedidas actualmente. E lá teve de suspender a matrícula no curso de Matemática Aplicada para ser modelo.

Já fez a capa da Elle portuguesa, editoriais para a Vogue ou Lux Woman, mas continua o sonho: "Gostava muito de ter uma campanha de beleza e, como toda a modelo, ser a capa da Vogue Itália e da Vogue Paris". Para já, em Setembro, estará nos castings das semanas de moda a tentar encontrar lugar num ou mais desfiles. "Sou baixa para manequim, mas vou tentar. Quero provar que as pessoas estão erradas".

Assaltos, borlas e vulcões

Um modelo é um foco de expectativas e um vértice de uma imagem idealizada por toda uma indústria, para não falar de toda uma cultura. O corpo é o seu instrumento de trabalho, como diz Sara Sampaio ao telefone à Pública, e por isso vamos a factos: 1,72 e um pé 37, quase impossível para sapatos muito altos como os cobiçados Louboutin. A cara é a que se vê aqui ao lado - olhos verdes, pele tisnada, lábios carnudos. Ou a que se vê nas lojas e campanhas da portuguesa Lanidor, que há muito não usava uma modelo made in Portugal. Também se vê Sara a cair na televisão, nos anúncios em que é um anjo que não resiste ao poder de atracção do desodorizante masculino da Axe. Já enumerámos o que fez (ou quase, falta o Globo de Ouro de melhor manequim feminino deste ano, editoriais para a WAD, Glamour e Elle francesa, a campanha da Blumarine ou da Pandora).

Chegou aqui porque venceu o concurso aos 16 anos, em 2007, e decidiu terminar o ensino secundário, com boas notas e aconselhada pelos pais. Mudou-se para Lisboa quando entrou no curso de Matemática Aplicada e fez trabalhos típicos de modelo em princípio de carreira: trabalhou gratuitamente para revistas portuguesas, para ir criando experiência, book e currículo. A moda pesou um pouco mais do que a matemática quando se candidatou à faculdade na capital. E rapidamente tomou conta dela. "No primeiro semestre fiz muitos editoriais, para a Vogue ou para a Elle, e na Páscoa decidi acompanhar o [colega modelo] Luís Borges a Londres. Visitámos uma agência e quiseram logo contratar-me. Fiquei mais tempo". Pouco depois, uma sucessão de acontecimentos infelizes - um assalto e um vulcão de singelo nome Eyjaallajokull - fizeram-na ficar fora de Portugal um mês."O segundo semestre estava um pouco perdido" e seguiu-se o anúncio que a tornou num anjo.

Entretanto, o solicitado Luís Borges, que depois da Tommy Hilfiger representa a linha masculina de Tom Ford, ia para Paris. Mais uma vez, a amiga Sara acompanhou-o a conselho do seu booker na Central. A matemática ficava definitivamente para trás - suspensa, não cancelada - e assinou com a Marilyn. "É uma oportunidade que não acontece a toda a gente e, para a aproveitar, é agora. Daqui a quatro anos não sei como vou estar, o meu corpo pode mudar. Foi um salto muito grande, mas não me arrependo."

O corpo como ferramenta

O corpo pode mudar, diz-nos. Eis o olhar crítico de modelo. Sara, voz de menina ao telefone, é pragmática: "Fiz mais de 20 desportos quando era criança. Depois parei, mas agora sim, tenho de fazer mais exercício porque o meu instrumento de trabalho é o meu corpo e um cliente, quando me contrata, conta com ele". Os corpos dos modelos, especialmente dos femininos, são julgados como os tais símbolos de algo que a sociedade procura num dado momento. Dietas, magreza excessiva, rejeição, idades. São factores incontornáveis na profissão e numa conversa com um modelo. Mais uma vez, Sara é directa nas respostas. Há acompanhamento, no início de carreira, para a sucessão de avaliações e rejeições por parte de clientes? "No início levamos o 'não' a peito. 'Porquê? O que fiz mal? A outra é mais bonita do que eu?' O 'não' é uma palavra constante neste mundo. Os meus pais ajudaram-me a ultrapassar, mas às vezes ainda é complicado", explica. Os primeiros 'nãos' chegam no começo, quando as manequins são mais jovens. Sara Sampaio sabe que começou na idade certa - "Era uma criança que cresceu muito tarde, aos 14 anos parecia que tinha 10. Aos 16 tinha a maturidade suficiente". Acha que não há regras inexpugnáveis, porque a idade mental de cada principiante é diferente. Ainda assim, "a idade mínima [de trabalho de uma modelo] devia ser 16 anos. Vejo miúdas de 14 anos sozinhas em Paris e sei que é complicado. Há criançasmodelo, mas não é a mesma coisa", porque estão mais acompanhadas e não têm o mesmo regime de trabalho diz, a propósito do editorial da Vogue Paris do início do ano com uma menina de 10 anos e que agora se tornou polémica.

Dietas? Reitera que lhe dói ouvir termos como "modelos esqueléticas", embora não ignore que há casos extremos. "Já me chamaram anoréctica e isso não é verdade". Atenta às porções e ao exercício, diz ser abençoada pela genética e idade. Quando falamos dos últimos anos e do eterno retorno do tema dietas e tamanho zero, modelos anorécticas e a imagem que a indústria passa, acha que "hoje há menos pressão nas agências. Fala-se mais de tonificar do que de medidas" do corpo, explica, já que a escolha de uma modelo começa sempre pela sua "magreza normal".

Vinda de férias, Sara Sampaio estava descansada. Prepara-se para as semanas de moda, a fortalecer as pernas e os tornozelos, porque "anda-se quilómetros" nas passerelles e de um desfile para o outro, e de saltos vertiginosos. Confirma: "O maior medo de um manequim é cair na passerelle".

Texto publicado a 14 de Agosto, na revista Pública.