Felipe Oliveira Baptista

Não me vejo como bandeira da moda portuguesa

O novo director criativo da Lacoste é um açoriano parisiense que fez carreira no estrangeiro. Acredita que quase tudo já foi inventado em moda e que nos anos 1980 vimos as últimas grandes invenções na silhueta das roupas. À conversa com o PÚBLICO, fala da moda parisiense, do têxtil português e da sua nova marca.

Ao longo de uma conversa na biblioteca da Alfândega do Porto, horas antes de apresentar a sua colecção no Portugal Fashion '10, Felipe Oliveira Baptista refere-se várias vezes ao "patrão". Descontraído, reitera o seu não-estrelato e parece enfatizar assim, com a ideia de que responde a alguém - ao guardião da memória de René Lacoste, o espanhol José Luis Duran, presidente da Devanlay, a parceira da indústria têxtil do gigante Lacoste - que não é, de repente, o criador de moda português mais importante do momento.

Mas a chegada à direcção criativa de uma marca como a Lacoste, que em 2009 teve uma facturação no retalho de 1,4 mil milhões de euros, coroou Felipe Oliveira Baptista como o primeiro designer nascido em Portugal a atingir a direcção de uma casa com sede na capital mundial da moda. A experiência significa uma mudança de escala, mas não de estilo - nem de método de trabalho. Afinal, Felipe já se ocupava, além da sua linha principal em nome próprio, da Max Mara, outra histórica casa italiana que o obrigou ao segredo durante o período em que lá trabalhou.

Nascido nos Açores, estudou na Universidade Kingston de Londres e passou pela Cerruti, fez um projecto especial para a Nike, uma colecção-cápsula para a japonesa Uniqlo, liderou uma marca chinesa que não pode nomear e, mais importante de tudo, ganhou o prémio do Festival Internacional de Jovens Criadores de Hyères (2002) e o ANDAM em 2003 (promovido desde 1989 pelo Ministério da Cultura francês), dois importantes galardões do sector. Depois, a bolsa do gigante do luxo Louis Vuitton-Möet Hennessy, em 2003, graças à qual pôde criar a marca Felipe Oliveira Baptista, o casamento, os dois filhos, a passagem pela ModaLisboa e o apoio do Portugal Fashion, que lhe permitiu mostrar-se na semana de moda de Paris. Chegou a integrar o calendário oficial da altacostura de Paris (2005), mas agora permanece no pronto-a-vestir.

Cheio de planos e com um relógio que parece rodar mais do que as 24 horas num só dia, está a lançar a sua segunda linha, com preços mais acessíveis, mantém a aposta na marca Felipe Oliveira Baptista e está a mudar o rumo da Lacoste - mais mulheres precisam-se, frisa, ecoando a voz do "patrão". O mesmo que, no final de Agosto, dizia que, entre todos os candidatos à substituição de Christophe Lemaire na Lacoste, "Felipe foi aquele que mais nos fez sonhar!"

A marca dos pólos precisa do chique cool do português e vai levar Felipe pela primeira vez à semana de moda de Nova Iorque em Setembro de 2011, onde a Lacoste mostra as suas colecções. Empenhado na sua marca, veio a Portugal fazer prospecção de fábricas para as suas linhas e congratula-se com a crescente facilidade com que agora lá se fazem encomendas em menor escala. Antes havia pouca abertura para os pequenos criadores fazerem as suas produções em fábricas portuguesas. "Dessas histórias pequeninas. há algumas que um dia crescem", provoca o criador. Continua, ainda assim, a preferir os tecidos italianos e os japoneses continuam a preferi-lo: as vendas da FOB não foram feitas para Portugal por falta de interesse de compradores, mas o Japão e outros mercados absorveram as suas peças.

Vem três a quatro vezes por ano a Portugal, visitar amigos e a família - e trabalhar, mostrando-se na passerelle do Portugal Fashion. A sua madalena de Proust é mesmo o regresso aos Açores. Volta uma vez por ano e "é como um flashback de infância, do local onde passei muito do tempo de férias escolares. É uma overdose de natureza. Gosto de ir para uma enorme quinta à beira do mar, onde uma criança consegue ser completamente livre, ter contacto com as cores, volumes e uma noção de simplicidade. São grandes referências que ficam".

Como foram os primeiros dias na Lacoste?

Foi o período de intégration, como eles dizem (risos). Só no edifício onde eu trabalho, mais as fábricas, são duas mil pessoas. Compreender como funcionam as fábricas, os mercados, as plataformas de fabrico que têm na Ásia, em França, o processo interno, mais um estúdio de 20 pessoas da equipa criativa só para as linhas todas - Homem/Mulher/Criança, mais Sportswear, Sport, Club, Golfe, etc. Ainda mais a parte das licenças, de lojas, pontos de venda, conhecer a agência que faz a publicidade. É informação, informação, informação.

Concretamente, os primeiros passos criativos para a próxima colecção só começaram na semana passada. Com a minha chegada, estamos a mudar muitas coisas nos métodos de trabalho em comparação com o que se fazia com o Christophe [Lemaire]. E, como lá a escala é enorme, quando se decide mudar alguma coisa, rapidamente estamos numa reunião com 15, 20 pessoas.

Como é a transição de escalas de trabalho, da sua marca para um gigante como a Lacoste?

Já trabalhei em Itália [nestes moldes]. Agora já posso dizer porque já acabou [o contrato]: na Max Mara, com dez pessoas [na equipa criativa]. Na China tinha um estúdio de 15 pessoas, já fiz a direcção artística em Paris de uma marca com um estúdio de 12 pessoas... por isso já tenho o hábito de trabalhar assim. Claro que, criativamente, ao trabalhar com pessoas que não se conhece há sempre uma visão pessoal de fits [ajustes das peças], é sempre subjectivo e é preciso falar na mesma linguagem.

Por exemplo, na equipa de pólos de homem/mulher vou contratar toda uma equipa nova. Isso também é bom para mim porque vou trabalhar com pessoas com quem já trabalhei noutros projectos.

Qual é o seu grande objectivo na Lacoste?

O grande objectivo é desenvolver a linha de mulher. É onde estão a pôr mais ênfase porque representa apenas 15 por cento do volume de negócios da marca - o que é pouco para uma marca com este potencial de lifestyle. É uma proporção desequilibrada e a única linha da marca que tem estado em regressão. Há um grande input interno para me ajudar a desenvolvê-la.

Trabalhar uma marca como a Felipe Oliveira Baptista ou como a Max Mara é diferente de trabalhar a marca Lacoste, que é muito transversal e com um forte referente. No fundo, toda a gente acha que sabe algo sobre a Lacoste. Qual é o desafio de trabalhar a identidade de uma marca tão global?

É a grande vantagem e desvantagem de uma marca tão reconhecida. Mas é a sétima marca no mundo de que as pessoas mais gostam, como li num estudo. Tem um capital afectivo enorme e isso também é interessante, pela sua história, pela história do René Lacoste, do sportswear. É claro que essa ideia de que é uma marca extremamente democrática que vende a todas as idades e classes sociais é muito focada no pólo. A cada dois segundos vende-se um pólo no mundo.

A ideia, e é algo em que comecei já a trabalhar, é fazer uma segmentação interior na marca. Lançámos agora uma marca Lacoste Life, para os 15-25 anos, que é algo de muito mais colorido, urban e street e com lojas próprias. Uma abriu em Paris, outra em Nova Iorque e abre uma em Londres para a semana - e depois é isto, quando é a esta escala é logo assim [risos]. Para separar o lado mais edgy e trendy.

Vamos também trabalhar o topo da marca, um projecto que tem por enquanto o nome Club, para a faixa mais fashion, high end [gama alta]. A grande base de negócios é o sportswear, que é esta linha mais transversal da qual tirámos o Life e o Club. O desafio também é trabalhar numa marca tentando fazer algo contemporâneo e moderno e, ao mesmo tempo, mexer com algo que possa abranger toda a gente.

Mas a Max Mara também é, à sua maneira, uma marca extremamente democrática, quase na neutralidade, que tem de ser apelativa para a maioria das mulheres. Quando estou a fazer a minha roupa, faço mais ou menos o que quero. Na Max Mara, os fittings não são bem assim, há que pensar "30, 40, 50 [anos]", se cobre o braço. É design com esse lado de função.

Essa ideia de acesso à moda interessa-lhe sempre?

A Uniqlo fez 70 mil tops [com a minha assinatura]. Comparativamente, na minha marca - que tinha três anos na altura - teria de trabalhar pelo menos mais cinco anos para vender o que eles venderam em duas semanas. Isso é bom, porque a moda é para ser usada.

Já se confrontou com utilizadores da sua roupa na rua?

Já. A primeira vez foi engraçada. Aconteceu quando ainda trabalhava para o Christophe Lemaire em Paris [entre 1998 e 2000]. Fomos a Tóquio para abrir uma boutique - 80 por cento das vendas dele eram no Japão, onde o viam como uma espécie de pop star - e na primeira manhã, no meio de Tóquio, vi três pessoas com roupas dele. Do outro lado do mundo. Tem tudo a ver com esse lado do design, de como as coisas ganham outra vida depois de serem desenhadas, ajustadas, de desfilarem.

Recentemente, quando estava a ir para o escritório, passou uma pessoa de bicicleta com uma parka minha. Há minha volta há muitas pessoas que usam as minhas peças, mas vê-las num estranho é sempre mais marcante.

Uma espécie de reconhecimento: reconheço aquela peça ou aquela peça reconhece o meu valor?

Aquela peça ganhou independência e tem a sua vida. Alguém a comprou, apropriou-se dela.

Para além desta democratização da moda, há outras coisas que marcam a primeira década deste milénio. É fácil identificar momentos marcantes - desde a silhueta da mulher à fast fashion, passando pelo facto de a moda se ter tornado um bocadinho cultura pop. Como vê esta última década?

A questão da fast fashion é extremamente importante. Se por um lado é bom, porque é uma enorme democracia, por outro é mau porque se pega sem pudor nas ideias de muita gente e três meses depois estão disponíveis em lojas - como já aconteceu com peças nossas na H&M. Tira também um pouco o valor às coisas. Por exemplo, um café num café chique em Paris não custava o mesmo preço do que uma T-shirt na H&M, ou do que uns jeans de dez euros. E pode-se beber um café a dez euros. Todo o trabalho e pesquisa que se põe na roupa torna-se num cartão descartável. Mas são os tempos.

Outra coisa interessante é que já não há essa coisa do lady like [o estilo senhoril, muito propalado nesta estação por casas como a Louis Vuitton]. Eu não tiro conclusões, mas essas mutilações fascinam-me um pouco. Como o caso de certas marcas que ninguém com menos de 30 anos tem meios para comprar, mas que têm miúdos com 14 anos nas campanhas publicitárias.

A crise foi um ponto de referência na moda porque de repente voltámos para algo muito mais pragmático. Vemos uma marca como a Céline, que tem na loja os coordenados colocados quase pela ordem que os apresentou no desfile, quase como um statement dos valores de honestidade e de algo mais que faltava. Isto quando a maior parte das marcas vendia peças completamente diferentes das que mostrava nos desfiles. Houve também uma emergência de jovens criadores mais competentes, muito criativos, como é o caso de Alexander Wang. E também o caso de uma Isabel Marant, que existe há 20 anos mas foi agora descoberta... E, no fundo, a ideia dos básicos - porque voltar a valores seguros também tem um lado positivo.

Os estilos de moda, conforme os vemos referidos nas revistas, parecem ir beber a todas as épocas - até aos anos 1990. Parecemos viver num eterno revivalismo. Não há um estilo novo, fresco, do milénio?

Houve referências muito fortes e próprias do design de moda nos anos 2000, o que ainda não há é distanciamento suficiente [para os identificar e catalogar]. Daqui a dez anos as pessoas vão olhar para a Balenciaga, para a Balmain... Nicolas Ghesquière [director criativo da casa Balenciaga] é o equivalente do Helmut Lang dos anos 1990. É só uma questão de mudança.

Já está tudo inventado em moda?

As últimas invenções aconteceram nos anos 1980. Os anos de 1990 já são referências dos modernismos dos anos de 1930, quando se redescobriram as formas do corpo da mulher - como, por exemplo, mostrar as pernas. As grandes progressões em moda são sempre feitas por designers que impõem um novo tratamento [de tecidos] ou uma nova modelagem ao corpo - na Chanel, quando se tira o espartilho e se põe roupas de homem, por exemplo. O statement tem a ver com o corpo e com o facto de se fazer algo glamoroso depois de um período triste. [Thierry] Mugler e a relação dos [criadores] japoneses com a desconstrução [momentos históricos da moda na década de 1980/90] criaram formas diferentes do corpo.

A verdade é que já se deram trezentas mil voltas. Há 15 anos que o director do meu curso em Londres dizia que tudo já tinha sido inventado em moda. O interessante é como as pessoas misturam referências opostas criando novas linguagens, que são sempre evolutivas. O interessante no trabalho de Nicolas Ghesquière é precisamente as referências quase contraditórias que ele utiliza.

O que resta para evoluir na moda é toda a parte técnica. Por exemplo, no ano passado na Felipe Oliveira Baptista, apresentámos bordados que são colados a temperaturas quentes e que não levam um pesponto de costura. As pessoas que habitualmente usam esta técnica fazem-no para logótipos e fizeram-no pela primeira vez para roupa. Nesta estação, estão a fazê-lo também para a Balenciaga. É neste lado técnico que ainda há muito para fazer.

Hoje em dia, o que me irrita imenso é essa coisa de olhar para os anos de 1950 - o caso das saias da última colecção da Vuitton - quando estamos rodeados de iPods, de iPads e vivemos de maneira completamente diferente. Não faz sentido, mas por outro lado é sempre reconfortante para as pessoas. Muita gente prefere jogar pelo seguro e oferecer valores seguros nestes tempos de crise. Como oferecer uma imagem nostálgica de um período em que tudo era "tão bom".

Referiu várias vezes Nicolas Ghesquière. É uma referência actual para si?

É uma pessoa que faz avançar tecnicamente a moda e que faz questionar muitas coisas. Acho que vai ser uma das figuras marcantes quando tivermos a distância suficiente para falar da moda dos anos 2000. Referência? Não sei, cada criador tem de encontrar o seu vocabulário. Mas é uma figura marcante desta década em termos de moda. É um dos poucos designers cujos desfiles vou ver.

Como funciona esse ambiente em Paris? Como comunicam os criadores?

É um meio bastante duro onde se trabalha muito. Mesmo quando se faz um baile fantástico para comemorar os 90 anos da Vogue Paris, em plena semana de moda e toda a gente se veste maravilhosamente, à uma hora da manhã vai tudo para casa porque no outro dia o trabalho começa cedo. É uma profissão apaixonada que requer bastante energia. Mas tenho amigos designers e encontramo-nos. O engraçado é que, na maior parte dos casos, foi fora de Paris que nos encontrámos e percebemos que temos o mesmo género de vida, os mesmos problemas e hoje alguns deles são grandes amigos meus. Mas a verdade é que o meio é tão duro e tão competitivo que de certa maneira acaba por ser bastante individualista.

A Susana Cabrito, que trabalha na Givenchy com Riccardo Tisci, dizia-nos precisamente isso: que é um mundo competitivo e só quem está fora pensa que o glamour é constante.

Sim. Muitas pessoas têm amizades fora do meio. É uma necessidade, porque é um meio bastante duro e violento.

E a imagem da moda portuguesa no estrangeiro, como é?

Toda a gente me faz essa pergunta. Não se ouve falar em moda portuguesa mas também não se ouve falar em moda espanhola.

Mas fala-se de moda francesa...

Sim, claro. Como se fala da moda belga porque há uma escola, uma cultura de moda criada sobretudo pelo grupo conhecido como "os seis de Antuérpia". Mas há lugar para designers portugueses, bem como de outras nacionalidades. Este ano quem ganhou o prémio ANDAM, promovido pelo Ministério da Cultura francês, foi um turco. O que prova que em França há abertura para novos designers. O que é um paradoxo porque muita gente diz que os franceses são snobs, mas são também os primeiros a acolher escritores que não são reconhecidos nos países de origem, ou o cinema estrangeiro. Aliás, França consome mais cinema português do que Portugal. No que diz respeito à moda portuguesa como expressão, não [se fala nela]. Mas não há nada contra.

Há então designers. Alguém em particular?

Os jovens designers que querem começar uma marca devem escolher Londres ou Nova Iorque. O sítio mais difícil é Paris. Mas fala-se por exemplo da francesa Anne-Valerie Hash ou da espanhola Estrella Archs, responsável pelas colecções Ungaro no ano passado. No meu caso e no de quem começou por Paris, houve uma decisão de princípio de tentar estar no centro onde tudo se passa.

Fazer formação fora é essencial para chegar a um patamar médio ou médioalto na moda?

Para quem quer criar uma marca própria, ajuda muito. Claro que a entrada de um jovem belga é mais fácil porque já houve meia dúzia antes dele. Se calhar eu também vou abrir o caminho para algum português. A nível de frequência de escolas, não. Eu já tive vários estagiários portugueses [formados em Portugal] que chegaram com um bom nível de profi ssionalismo e uma abertura excelente. Alguns deles estão em postos óptimos hoje em dia, outros vão trabalhar comigo para a Lacoste.

Não é ser depreciativo, mas não me vejo como bandeira da moda portuguesa. Até porque estudei em Londres, tudo o que aprendi em moda foi no estrangeiro, acrescentando os 12 anos de Itália, na Max Mara. Mas sou português, não tenho pretensões nenhumas de deixar de ser. Posso ser visto como uma bandeira apenas para quem vem a seguir, mas não sinto nenhum peso até agora.

O que se passa é que estou num novo cargo que me faz acordar todos os dias às cinco da manhã - às vezes, quando tento explicar isto, sou muitas vezes tomado por arrogante, mas é só sinceridade, é pragmatismo. É esta a minha forma de trabalhar. Até agora a ajuda do Portugal Fashion tem sido imperativa no crescimento da minha carreira, pois deu-me a possibilidade de fazer desfiles de qualidade em Paris - não sei se teria desenvolvido tão rapidamente [a minha marca] sem isso.

Cada vez mais o mundo está mais globalizado, as marcas são multinacionais e o que conta é o nome, o trabalho do designer e não tanto a sua escola. É isso?

Mesmo estando a trabalhar em Paris foi bastante importante trabalhar para uma marca na China e outra em Itália. O estar fora... as saídas são importantes. Estou em Paris, mas não me sinto no centro da moda. Não há melhor e pior. Há diferente.

Parece haver nesta estação uma obsessão pelo estilo senhoril e com os anos 1950. O que será que isto diz sobre a sociedade? Que queremos que volte a imagem de um tempo em que a mulher tinha outro papel? O que se está a passar na moda?

Há dois extremos: há o lado completamente pragmático do back to basics e do conceito de woman designers [mulheres que desenham para mulheres]. O Marc Jacobs tem uma ideologia completa de mulher [tem uma cliente] que pensa nela, que trabalha, que tem filhos e ele está numa de fantasia. O que é um bocado sintomático de como as pessoas querem viver.

Olho para a minha vida e tento arranjar uma coisa que seja coerente com a vida, ou algo de escape. A moda ajuda nesse lado de utilidade porque é design mas também fuga. Se calhar hoje em dia está mais extremado, mas isso também é bom.

Hoje vivemos com estímulos a toda a hora - isso é contraproducente ou é um sonho tornado realidade? O que é isto para si em termos criativos?

É uma associação das duas. Como disse há pouco sobre a roupa que se compra e deita fora. É o mesmo que ver um filme ou ler um livro e estar com aquela sensação de que há milhentas coisas que nos estão a passar ao lado. Por isso há alturas em que desligo completamente para me concentrar no que estou a produzir. E outras, quando estou em fases em que estou a escrever uma história nova, que quero consumir e preciso de toda a informação possível. Tem um lado quase de viciado. Só que o facto de estarmos constantemente a ser informados de tudo também cansa e leva as pessoas a deixar de procurar e a não dar valor às coisas.

Falava em histórias novas - qual é a próxima história?

Ainda está na cabeça e nunca falo dela antes de a concretizar.

Mas é isso que faz quando apresenta uma colecção, uma história com princípio, meio e fim?

Sim. Por vezes é mais narrativa, outras menos, mas na minha cabeça a história fica sempre completa. Só que, neste trabalho, outra coisa interessante é que, por muito que a história esteja pensada, no fim há tanta coisa que vem interferir: desde a sala, à música, ao casting, que acaba por nunca ser rígido.

Tem o seu iPhone em cima da mesa. Leva esse gosto ao vício em gadgets?

Sim, tenho os iPhones e os iPads... E fotografia. Sempre tirei muitas fotografias. A máquina digital é mais rápida, mas quando vou de férias gosto também de levar uma máquina normal. E imprimo as fotografias porqueas digitais ficam no computador e servem quase só para trabalhar, já não se tocam.

Como se relaciona com os objectos culturais e de que forma, se é que isso acontece, é que isso se traduz no seu processo criativo?

Livros é por fases: há alturas que leio dois ou três por mês mas, por exemplo, este mês não li nenhum. Depende muito. A leitura é uma das coisas que me fazem desligar e adormecer, por isso é uma das coisas que faço quase todas as noites, mas sou bastante ecléctico. [A inspiração vem também daí] como é o caso da música que escolhi para a apresentação da minha colecção Primavera/Verão. É uma das músicas que mais ouvi neste Verão - Love for Sale, de Caetano Veloso e cantado a cappella. E escolhi-a porque queria uma música que fizesse as pessoas desligar durante três minutos, de forma a que olhassem simplesmente para as roupas. Na próxima colecção, em que estou agora a trabalhar, foco-me num dos grandes livros que mais me marcaram nos últimos quatro meses. E mais não digo.

A apetência visual, a noção dos volumes e das cores de que fala sobre os seus regressos aos Açores surgiu em criança. As artes visuais foram sempre o caminho?

Sempre desenhei e os meus pais sempre acharam que ia fazer algo de criativo. A moda veio um bocadinho por acaso e imagino-me perfeitamente a fazer outra coisa daqui a 20 anos. Fotografia ou design gráfico, por exemplo. Mesmo neste trabalho da Lacoste, é extremamente interessante a dimensão da direcção artística porque não vou passar muito tempo a desenhar. É mais falar de ideias, de conceitos e sobre as mensagens a passar nas campanhas de publicidade. É um sistema muito rico e que sai um pouco fora da roupa, roupa, roupa.

Esteve a visitar algumas fábricas tendo em vista a produção da marca Felipe Oliveira Baptista. Quer continuar a produzir em Portugal? O que fazemos bem?

A confecção de tudo o que é mais "produto" e mais clássico - umas calças, uma T-shirt. São coisas muito bem feitas. Hoje estive numa fábrica que faz peças de vela para a Puma e para a Fórmula 1, tudo coisas que a nível técnico são muito inovadoras. Claro que toda a parte mais couture está em Paris. Mas a nossa colecção FOB é toda feita em Portugal e da colecção principal há uma boa parte que é fabricada em Portugal - uma das nossas principais fábricas faz também coisas para a Dior, por exemplo. É uma produção com qualidade.

Fale-nos um bocadinho da FOB.

Acabámos ontem as vendas. A FOB é uma colecção-teste para a próxima estação e a ideia era pegarmos em coisas que vendemos sempre bem - tudo o que é outerwear, parkas e T-shirts temáticas como as dos wrestlers mexicanos - e fazermos quase um monoproduto, uma silhueta. O conceito é muito básico: cinco calças diferentes, cinco partes de cima, como uma parka, um blusão em tamanhos diferentes (mini ou maxi) e cinco caras diferentes [nas estampas das T-shirts], que vão das máscaras ao vodu, tudo em algodão, tudo lavado, tudo muito mais democrático em termos de preços e mais fácil de usar, completamente quotidiana. Mas com um fit, com cortes e construção [mais sofisticados] - muitas das peças são bases de elementos que fizemos na nossa colecção principal, mas com tecidos muito mais caros.

E agora FOB, Felipe Oliveira Baptista, Lacoste...como é que a sua estrutura de trabalho vai mudar tendo em conta a multiplicação de marcas a seu cargo?

Não é esquizofrénico, mas é quase. São quase precisos dois cérebros. Passa por uma mudança completa da forma como eu trabalho em equipa. Metade do tempo estou noutro local [entre as sedes da Lacoste e o seu atelier, ambos em Paris], é toda uma nova organização, uma nova metodologia. Mas isso também foi interessante porque nos fez questionar e fazer tábua rasa de tudo. Vamos ter uma estrutura mais alargada, há duas pessoas que vão entrar na equipa, temos um freelancer comercial que passa a ficar a tempo inteiro a trabalhar as duas linhas. Toda a parte de gestão do estúdio criativo era eu que fazia e vai passar a ser a minha mulher a fazer. Vamos ter de ter pessoas a fazer contabilidade e toda a parte de organização, mais uma pessoa para lançamento da colecção, para que as minhas assistentes a possam desenvolver e preparar trabalho criativo. Para que, quando eu lá estiver, seja tudo muito mais rápido. Fazer grupos de trabalho mais peque nos - fazíamos muito as coisas a quatro, agora tem de ser a dois. É pensar em maneiras de ganhar tempo. A sorte de ser tudo em Paris é que são cinco minutos de bicicleta de um escritório ao outro. Posso estar um dia de manhã num lado e no outro à tarde. Dois dias antes do desfile [da sua colecção], falei com o meu patrão na Lacoste e pude sair [para se ocupar dos últimos preparativos da sua linha em nome próprio]. Há uma mobilidade e abertura dos dois lados, que compreendem quando há mais trabalho num lado ou noutro.

Qual é a sua meta para daqui a cinco ou dez anos: é que a marca Felipe Oliveira Baptista chegue ainda mais longe ou a direcção artística de outra marca?

A minha prioridade é a de continuar a desenvolver a minha marca. O que me agradou bastante neste cargo da Lacoste é o facto de não ser concorrencial - esta ideia de design mais democrático, noutra escala mais industrial, mas também o ter de pensar em toda a parte da imagem.

Outra coisa muito positiva é que não me colocou no meio da arena fashion, o que pode ser muito violento. Espero que o meu trabalho na Lacoste seja a longo prazo, resultado que saberemos daqui a três ou quatro anos. Paralelamente, quero que a minha marca continue a crescer, quero abrir uma loja, expandir a FOB. Há muito a fazer.

Texto originalmente publicada na Pública