Rui Gaudêncio

Mitos que comemos

É capaz de fazer uma dieta cetogénica?

Existe uma abordagem terapêutica que se baseia na restrição crónica de hidratos de carbono: a dieta cetogénica.

No último artigo falou-se sobre os efeitos negativos que uma dieta cronicamente pobre em hidratos de carbono pode ter no nosso organismo, sobretudo em quem pratica exercício com regularidade. Existe no entanto uma abordagem terapêutica que se baseia precisamente nessa restrição crónica de hidratos de carbono: a dieta cetogénica. Esta dieta baseia-se numa ingestão minúscula de hidratos de carbono (até 20-50g/dia ou %5 do valor energético total da dieta). Esgotando-se as nossas reservas de hidratos de carbono no músculo e fígado, há que encontrar uma fonte de energia alternativa e o nosso fígado consegue produzir os chamados corpos cetónicos, que conseguem passar a barreira hemato-encefálica e servir de combustível ao cérebro, bem como a outros tecidos.

Explicação genérica do processo feita, há que tentar operacionalizar esta dieta. E tendo em conta o nível de restrição exigido, quase que é melhor falar em “tratamento” cetogénico do que em dieta. Um “tecto” de 20 gramas diárias de hidratos de carbono, não chega a um pão, a uma mão de cereais e é sensivelmente o teor existente numa peça de fruta ou 100 gramas de batata ou massa cozinhada. Dado que outros alimentos como os legumes, lacticínios, oleaginosas (nozes, amêndoas, avelâs, etc.) e leguminosas (feijão, grão), possuem igualmente quantidades mais ou menos residuais de hidratos de carbono na sua composição, o mais certo é os primeiros alimentos citados, nem sequer fazerem parte das suas escolhas alimentares durante largas semanas. Poder-se-ia então pensar que este “problema” ficaria resolvido compensando na quantidade de carne, peixe e ovos ingerida, no entanto a quantidade de proteína a ingerir é igualmente um desafio nestas dietas, uma vez que dada a capacidade de muitos aminoácidos serem convertidos em “açúcar” no nosso organismo, o teor proteico deverá ser o suficiente para limitar a perda de massa muscular, mas não em demasia para não “interromper” a cetose.

Posto isto, quando se consegue acertar esta difícil equação, esta é uma abordagem que resulta. Não sendo muitos os ensaios clínicos que avaliem todos os parâmetros necessários a uma correcta compreensão desta abordagem, demonstrou-se que uma ingestão de hidratos de carbono diária a não exceder as 20g, e um aporte proteico modesto (não acima das 1,5g/kg), consegue induzir a cetose, ser mais saciante e provocar uma maior perda de peso e massa gorda do que uma abordagem já ela moderada em hidratos de carbono (36% do valor energético total), mesmo tendo em conta que a estes indivíduos não foi imposta nenhuma restrição nas quantidades ingeridas. Aliás, uma das vantagens das dietas cetogénicas é exatamente o seu caráter supressor do apetite.

Apesar de ser já uma terapêutica utilizada com sucesso em indivíduos epiléticos, também pacientes com acne e diabetes tipo II, parecem beneficiar mais deste tipo de abordagem do que da convencional (mesmo não tendo sido avaliada a ingestão calórica e proteica, nem o nível de corpos cetónicos).

Quanto à retenção de massa muscular neste tipo de dieta, convém referir que a restrição energética por si só constitui uma forte estímulo ao catabolismo muscular, sendo que em muitos protocolos de dietas cetogénicas, esta restrição é bem mais agressiva que noutras abordagens mais convencionais. Em todo o caso, o papel determinante na preservação da massa muscular acaba por ser sempre a existência de treino de força, sendo que quando existente a perda de massa muscular consegue ser reduzida, independentemente da composição nutricional da dieta.

A aplicação desta dieta em contexto desportivo já é mais controversa, ainda assim, quando o objectivo passa única a exclusivamente pela otimização da composição corporal numa vertente estética e de emagrecimento e não tanto pela performance ou aumento de massa muscular, esta pode ser utilizada (desde que bem feita), até porque não parece haver prejuízo da força e potência. Já em desportos de endurance não será novidade para ninguém que a restrição de hidratos de carbono a longo prazo induz adaptações metabólicas positivas, sendo no entanto necessário “mudar a ficha” quando se pretende aumentar os níveis de intensidade e potenciar a performance. No entanto, quando passamos dos atletas para indivíduos com obesidade, até numa simples caminhada, os indivíduos com maiores níveis de corpos cetónicos em circulação são também aqueles que apresentam maior fadiga.

E uma dieta tão restrita em hidratos de carbono não irá afectar o meu perfil hormonal? É perfeitamente possível. Muitos dos estudos a este nível acabam por não ter uma duração suficiente para avaliar os indivíduos já adaptados à cetose. Não será por isso surpresa que na fase de transição (4 a 15 dias) em que muitos ensaios avaliaram o efeito da restrição drástica de hidratos de carbono, se tenha observado uma diminuição da hormona tiroideia com mais impacto no nosso gasto energético (T3), mesmo sem um contexto de restrição energética associado, que por si só já é suficiente para diminuir estes valores. Ainda assim, há que reconhecer que mesmo em estudos com maior duração, esta maior diminuição da função tiroideia observada nas dietas cetogénicas, é sempre um resultado secundário, uma vez que analisando a perda de peso, esta consegue ser maior que nas dietas convencionais, sendo que este efeito parece ocorrer nos vários estudos efectuados.  

Resumindo, uma dieta cetogénica não é para todos nem é uma brincadeira ou mais uma dieta para ser tentada. É reformular todo um paradigma ao nível alimentar durante um grande período de tempo pois são necessárias 2 a 3 semanas para uma total adaptação ao estado de cetose. Para quem faz clínica é importante perceber a dieta, mas mais do que isso perceber a pessoa. É que mesmo nos estudos com grandes melhorias no peso (em média), existem 20% dos indivíduos que não perderam ou até ganharam peso, do mesmo modo que outros 55% perderam mais de 15% do mesmo. Ou seja, podemos dizer que face à mudança exigida, uma dieta cetogénica ou se ama ou se odeia. Se se acha capaz de a fazer então consulte um especialista e avance, mas com a consciência de que para resultar, nada na sua alimentação e autodisciplina poderá ser como dantes.