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Mitos que comemos

O leite, a soja e as imitações

Face às recentes informações (e desinformações) que hoje em dia se assistem sobre o leite de vaca, é bem provável que uma resolução de ano novo por parte de muitas pessoas tenha sido o abandono do seu consumo.

Face às recentes informações (e desinformações) que hoje em dia se assistem sobre o leite de vaca, é bem provável que uma resolução de ano novo por parte de muitas pessoas tenha sido o abandono do seu consumo. E por norma, quando se pensa num substituto para o leite de vaca, surge com todo o esplendor o “leite” de soja. Como o “Mitos que Comemos” se iniciou precisamente com um artigo sobre o leite de vaca, debrucemo-nos sobre a soja.

Em primeiro lugar há que reconhecer que para o melhor e para o pior o leite, ou melhor dizendo, a bebida de soja, de soja tem muito pouco. As versões “normais” possuem entre 6% a 13% de grãos de soja e a versão light de cada marca ainda menos, o que equivale a dizer que paga mais por uma bebida mais diluída e com menor teor de soja e da sua proteína.

Quanto à soja, trata-se de um alimento cuja análise é bastante complexa e com muitos “ses”, principalmente quando se fala dos efeitos das suas isoflavonas, compostos com capacidade de “imitar” os estrogénios em muitos processos metabólicos. Tentando sumarizar de forma simples e pragmática, parece que quem mais beneficia com a ingestão de soja e das suas isoflavonas são mesmo os indivíduos asiáticos, uma vez que se estima que 80% consiga transformar na nossa flora intestinal estas isoflavonas num outro composto (S-equol), este sim relacionado com a diminuição dos “afrontamentos” associados à menopausa, aumento da densidade mineral óssea e diminuição do “mau” colesterol e proteína C reactiva, o que equivale a dizer redução do risco de osteoporose e doenças cardiovasculares, respectivamente. Talvez por isto, o efeito da ingestão de soja na diminuição do risco do cancro da mama seja mais potenciado em países asiáticos do que ocidentais, dado que por cá apenas 25 a 30% da população consegue efectuar esta produção de S-equol. Já em mulheres às quais foi diagnosticado cancro da mama, a soja pode ter o efeito inverso.

Nos homens, muito se questiona a soja e os seus efeitos na “masculinidade”, principalmente após alguns estudos que verificaram uma diminuição dos níveis de testosterona (mas com uma ingestão diária significativa de proteína de soja em pó) e na concentração de espermatozóides (apenas em indivíduos com excesso de peso e obesidade). Em todo o caso, as revisões dos vários estudos sobre a relação entre a ingestão de soja e testosterona, fertilidade masculina e cancro da próstata indiciam que não existe razão para alarme.  

Apesar destas contradições, nos produtos de soja ainda podem ser vislumbrados alguns efeitos benéficos, existindo mesmo alguns “leites” de soja com uma quantidade de proteína semelhante à do leite e pouco açúcar. Já outros produtos da moda como as bebidas de arroz e aveia são igualmente denominadas de “leites”, mas até podiam ser apelidadas de “sumo” de arroz ou aveia, uma vez que falamos de água e quantidades substanciais de açúcar que de proteína nada têm. Muitas das vezes alimentos “diferentes” são apenas isso, diferentes. Não quer dizer que sejam melhores.

Assim, encontrar algum alimento cujo consumo apenas nos traga vantagens é tarefa praticamente impossível. Resistir a exercícios de manipulação de informação no sentido de apenas se falar dos benefícios ou malefícios de um ou outro já se torna mais fácil. Leite de vaca e bebida de soja ambos apresentam prós e contras e não consumir nenhum dos dois é uma alternativa igualmente válida.

Terminamos com um cliché, mas que nesta temática faz todo o sentido: “o segredo é mesmo variar os venenos…”

Take home messages:

– Se tolera bem o leite de vaca e o bebe moderadamente continue. Acredite que há muitas outras coisas mais importantes que pode mudar na sua alimentação e estilo de vida para melhorar a sua saúde

– Se não tolera bem o leite de vaca, experimente as opções sem lactose e também a bebida de soja, não esquecendo que os iogurtes acrescentam propriedades benéficas que nenhuma destas três bebidas oferecem

– Os efeitos da soja na saúde possuem uma variabilidade individual muito grande. Nestes casos o mais prudente é utilizá-la sem receios, mas tentar não fazer dela a sua fonte proteica principal