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Mitos que comemos

Serão as bebidas açucaradas boas para matar a sede?

“Se tens sede bebe água”. Este clássico de Verão faz todo o sentido. Mas será que as bebidas açucaradas não serão também boas para “matar” a sede?

Em teoria, a água deveria de facto ser mais eficaz no alívio da sensação de sede do que as bebidas açucaradas. Tal acontece porque as variações na “concentração” sanguínea (o termo correcto é osmolaridade) são um dos principais factores responsáveis pelo desencadear de vários mecanismos que nos levam a ter sede. Ora sendo a água menos “concentrada” que o sangue e as bebidas açucaradas mais concentradas – proporcionalmente à quantidade de açúcar que possuem – o lógico seria que a água “matasse” a sede e os refrigerantes a aumentassem.

Mas, de facto, o que podemos afirmar com base nos estudos disponíveis é que não parecem existir grandes diferenças na capacidade de água, refrigerantes e outras bebidas na sensação de sede. Os estudos que investigaram esta relação foram totalmente inconclusivos e tanto nos revelam que não existem diferenças entre várias bebidas com grandes variações no nível de açúcar como sumo laranja, leite magro, refrigerantes de cola e água gaseificada na sensação de sede, como até que bebidas mais açucaradas (como sumos de fruta e bebidas lácteas de fruta) conseguiram ”saciar” a sede em maior extensão do que iogurtes com menos açúcar.

O nosso grupo de investigação levou igualmente a cabo alguns estudos que não revelaram qualquer tipo de diferença significativa entre água e refrigerantes com açúcar e adoçantes e sumo 100% laranja, sendo que apenas o leite revelou ume ténue tendência para o aumento da sede e apenas nos homens. Também a doçura da bebida, outrora definida como uma característica negativamente relacionada com a capacidade refrescante da bebida por painéis sensoriais, não se mostrou nas nossas investigações um determinante fundamental. Assim, aquilo que podemos concluir é que mais do que “fisiologia pura”, a sensação de sede - com toda a larga subjectividade interindividual que encerra - pode estar também dependente de outros factores mais periféricos como a secura da boca e a sensação refrescante da bebida.

Neste contexto não é de estranhar que bebidas a baixas temperaturas sejam muito mais eficazes que bebidas quentes ou mornas na diminuição da sede e que bebidas com pH mais baixo produzam o mesmo efeito devido a um aumento da produção de saliva decorrente dessa acidez e consequente diminuição da secura da boca. E sendo a grande maioria dos sumos e refrigerantes mais ácidos do que a água e ingeridos frescos ou com gelo não é de estranhar que estes factores mascarem até a sua maior osmolaridade.

Por isso, se tiver sede, beba algo fresco e dada a subjectividade inerente à classificação desta sensação, beba algo que goste e que saiba que lhe vai saciar a sede. Se for água tanto melhor, mas um refrigerante pode fazer o mesmo efeito… Poupe-se é à ingestão desnecessária de açúcar e opte por uma versão light ou zero.

Take home messages:

- Não obstante serem aparentemente tão eficazes quanto a água na diminuição da sede, não deve ser esta uma razão para o consumo desenfreado de refrigerantes nesta altura do ano;

- Beba sempre um bocadinho para além da sede. Quando a sentimos já estamos desidratados e deixamos de ter sede ainda antes dos nossos níveis de hidratação estarem já restabelecidos;

Pedro Carvalho, assistente convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (pedrocarvalho@fcna.up.pt)