Daniel Rocha

Dá Deus pernas a quem não sabe aonde ir

A minha filha começou a andar. Foram pequenos passos para a Laura, um grande passo para mim. Estou contente com a sua independência mas há uma pergunta que não me sai da cabeça: Agora que aprendeu a andar, onde é que ela vai?

A bebé põe-se de pé, assume a posição de pernas inclinadas e braços abertos como se fosse surfar e atira-se para a frente. Funciona. Dou por mim a visualizar amigos, colegas de trabalho, vizinhos, todos a andarem assim no dia-a-dia. Porque é desta forma, literalmente, que andamos todos: a medo. Não conheço nenhum adulto que não tropece nos próprios pés. Receio por este país cujos filhos já não usam botas ortopédicas e hão-de caminhar torto. Ainda mais com tão poucas crianças a nascer sinto-me na obrigação patriótica de pôr a miúda a andar na linha.

Ainda assim, olho com alguma inveja estes primeiros passinhos de uma bebé que não quer saber onde vai. E lá vai ela. Talvez os bebés estejam certos, lá porque andamos não temos de ir a lado nenhum. Basta andar, cair, levantar, cair. Ter de saber para onde se vai é uma invenção de gente crescida e que retira toda a piada de se cair. Corta para o slogan “É bom cair!”. Até porque já existem sticks anti-nódoas negras. É que se nem sabemos de onde vimos ou quem somos, porquê saber para onde vamos? Vamos andando.

Uma vez de pé, os bebés podem ver o mundo de outra perspectiva. Chega de contemplar as moscas e infiltrações dos tectos, quase sempre brancos, pois já nem tectos se fazem como antigamente. Chega de costas quentes de tanto tempo deitados. Chega de gatinhar já que somos da espécie que evoluiu para uma vista sobre duas patas que sustentam um cérebro, na maioria dos casos. Bípedes, ficámos com as mãozinhas livres para trabalhar, comer, tirar macacos do nariz. Quase nos esquecemos das pernas que servem para nos deslocarmos. São como pneus, estão lá em baixo, pisam cocó de cão.

Pois é preciso cerca de um ano para os bebés perceberem como se faz para dar à sola. Será que estiveram todo este tempo a pensar em como fugir dos pais? Mas também estes precisam de um ano para se livrarem dos actuais dez quilos de colo, esquecerem que os rins existem e voltarem a endireitar as costas. Porque se há algo que verga um ser humano são os filhos.

Pais com a espinha dorsal e a moral novamente de pé, após o embate do primeiro ano de convivência, ficam maravilhados por verem os seus bebés a andar, saltar, correr. Para longe deles, por alguns minutos.

Só que a criança dá dois passos e logo se instala a dúvida na mente dos pais: se devem ou não indicar-lhe o caminho. O que dizem os livros? Pergunto à pediatra? Vê aí no Google se há resposta. Será certo explicar que o caminho é sempre em frente? Mas qual caminho? O da felicidade. Ah, mas essa senhora não estava mesmo aqui no quarto ao lado? Hum.. acho que se foi embora quando demos o quarto ao bebé. Bem, talvez seja mais sensato os pais ficarem quietos e calados em vez de mandarem sentar e calar os meninos. Ainda assim, podia sentar-me com a minha filha e ter uma conversa. Explicar-lhe que para andar não basta ter pernas, é preciso ter cabeça para saber onde se quer ir. Como ela pouco mais fala que uma dúzia de palavras, não corro o risco que me pergunte onde é que eu quero ir; e sempre fica com a pedagogia locomotora ensinada sem que eu tenha de dar o exemplo.

Vou antes apostar em algo menos denso e com praticidade imediata: “Filha, não andes à deriva. Acima de tudo, não corras porque a mamã não está fit para correr atrás de ti”. Se ela soubesse o que vai ter de andar a vida toda, tinha começado a andar mais tarde.

Não sei onde é que a Laura vai. Certo é que não estou mentalizada para a perder de vista. E entendo que já esteja um passo à minha frente, que fico para trás, ficamos sempre que a juventude se nos adianta. Pé ante pé, a miúda há-de fazer o seu caminho. Algo me diz que a festa vai começar, que o último ano foi um aperitivo. E se vou ter de correr atrás, sempre tenho uma boa desculpa para comprar mais um par de ténis.