Mães há muitas
O rosa é cor de homem
Cor-de-rosa é cor de homem. Macho mesmo, não há pontinha hesitante por trás desta constatação. Os guerreiros usavam esta cor nas armaduras. E, no início do século XX, um catálogo americano de roupa apresentava o cor-de-rosa, em tom forte, para os meninos, e azul, mais suave, para as meninas. E assim foi até que uma manobra de marketing experimentou inverter esta proposta de cores para agitar as vendas. Bingo! Foi quando os homens perderam os seus sonhos cor-de-rosa para as mulheres.
Devíamos reavivar a herança máscula do cor-de-rosa. Já que o revivalismo está na moda, agitávamos a moral dos géneros voltando a vestir os homens com esta cor. É que, se as mulheres usurparam as 100 sombras de azul, a verdade é que os homens ainda debicam timidamente o cor-de-rosa no seu armário. Um euro a cada homem com peúgas cor-de-rosa na gaveta. Dez euros aos que tiverem um blusão de cabedal nesta cor. Mas bonito, bonito, desculpa lá Tozé Brito, era o equipamento da nossa selecção no mundial ser cor-de-rosa.
Meninos gostam de azul, meninas gostam de cor-de-rosa. Não. Os pais dos meninos gostam de azul porque os seus pais gostavam de azul e os seus avós gostavam de azul e a genealogia é igual para o rosinha. As cores, os modos e as brincadeiras são códigos e comportamentos herdados.
A Laura foi ao lar visitar a bisavó. “Tão bonito que ele é!”, diz uma senhora que estava na sala. Caramba, é que até levei a miúda com um vestidinho beje com florzinhas, collants azul escuro, uma menina exemplar. Está certo que estava num lar e que portanto há a probabilidade daquela senhora de 90 anos já não ver muito bem. Mas isto está sempre a acontecer com as meninas bebés. Já com os meninos há menos enganos, não conheço nenhuma mamã que vista o seu Manuel de leggings rosa choque.
A minha filha só tem nove meses e já tem uma cultura do género feminino a pesar-lhe nas costas. Talvez, por isso, refile tanto para se vestir. Porém, mais que enfiar-lhe à força os bracinhos na camisola, compete-me sim educá-la sobre o género feminino. E não sei se me apetece ensinar-lhe de que cor é suposto uma menina gostar, com que brinquedos brincar e como se deve sentar sem mostrar a fralda. Como é que faço isto sem parecer ridícula?
– Filha, sê boazinha e deixa a mãe estereotipar-te. Prometo que não faz dói-dói.
As meninas não nascem a gostar de cor-de-rosa. São as mães que as educam para aprenderem a gostar até ficarem “rosaólicas”. Depois bolsam sonhos cor-de-rosa o resto da vida. Os dois primeiros anos são decisivos nesta adição. Começa no enxoval do bebé, segue pela roupa, continua na decoração do quarto, roupa de cama, brinquedos, tudo a enjoar em mono-rosa. Quem escolheu? Nesta fase, descaradamente a entidade parental.
Esquecemo-nos, frequentemente, que escolher é um acto que permite todo um terreno fértil de criatividade. Se induzimos a escolha, impedimos novas criações de nascer. Como uma colecção só de roupa preta para bebé que, segundo li, já existe.
Voltando à possibilidade de aumentar as vendas da secção masculina de roupa, teríamos de pesquisar no mercado: “É homem suficiente para vestir cor-de-rosa?”
O homem do tutu rosa foi. Lançou um projecto em que tira fotografias em vários locais vestido com um tutu rosa só para arrancar um sorriso à sua esposa, doente com cancro. Na Nigéria, a moda entre os jovens rapazes é tatuarem os lábios de cor-de-rosa. Já no Brasil, outro jovem, ilustrador e muito encalorado, decidiu num dia abrasador ir trabalhar vestido com uma saia da sua mulher para que o sistema de ventilação o deixasse mais confortável. É que, convenções à parte, há sempre uns movimentos transgressores que nos deixam com as faces rosadas de inveja.
Mas há também modas de género conciliadoras. Na Coreia do Sul, a moda entre os jovens casais é usarem roupinhas iguais. É uma forma de mostrarem o seu amor. “Amo-te. Vamos comprar duas jaquetas amarelas”. Se fizesse esta proposta ao meu marido, era gozada durante um mês. A tendência chama-se look de casal, está em expansão, só não se sabe ainda o que se faz às roupas quando o casal se separa.
Tal como nas cores, o mesmo acontece com os brinquedos. O meu sobrinho de dois anos tem um balde com uma esfregona para brincar. O filho de uma amiga gosta de pôr batom. E há meninas que adoram brincar com carrinhos e atirar o pau ao gato. Recentemente, uma menina de sete anos escreveu à Lego a pedir que a marca fizesse mais legos femininos e em brincadeiras de aventura. Está tudo certo até aqui.
Li que é comum as crianças pegarem num brinquedo e olharem para os pais a procurarem a validação destes: é de menino ou menina? Vá, para não fazerem má figura. Vá, para nos agradarem. Tão pequeninos e já tão constrangidos nos seus gostos. “Ora bem, queres brincar com um fogão, Joãozinho? Está bem, mas leva-o para a varanda e faz de conta que estás a fazer um churrasco. O pai já te leva uma jola.”
É nesta resposta que os pais deviam morder a língua. É que as crianças não nascem preconceituosas pois esse é um comportamento adquirido, quase sempre, em casa dos papás.
Por isso é que o Carnaval devia ser todos os dias. Para as pessoas se poderem vestir e brincar àquilo que lhes apetece o resto da vida. Já agora, será mero acaso vermos tantos homens a vestir-se de mulher neste dia?
Quanto à Laura, no que toca a cores, desejo-lhe somente um futuro cor-de-rosa.
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.