Mães há muitas
Dois murros no estômago maternal
Normalmente, tenho muita acidez no estômago, mas que é expelida um dia de cada vez, misturada entre palavras. O que nunca me tinha acontecido foi isto: esta acidez sair toda de uma golfada.
Desde que fui mãe, é a segunda vez que isto me acontece. Em sete meses, portanto. É um incómodo muito rápido em que o estômago começa por se contrair de um momento para o outro. De seguida, sinto um ligeiro calafrio. Por fim, vomito a acidez e a garganta engole, estranhamente, em seco.
Não que eu fosse insensível antes de ser mãe. Sentada no sofá ou à mesa de jantar, escutava aquilo, achava terrível, mas era como sempre fora: cinco minutos mais tarde, esquecia. Eis senão que a Laura me entra pela vida adentro e, inesperadamente, já não estou convicta do que achava que era e, afinal, não sou. Do ponto de vista da minha nova pessoa, eu era insensível.
Foi a notícia daquela senhora, a quem não consigo chamar m-ã-e, nem sequer juntar-lhe as letras para evitar que a palavra ganhe significado. Refiro-me à senhora, portuguesa, que teve uma filha e a escondeu no carro. Quase dois anos. O que vi na televisão bastou, e não quero, mesmo, saber mais. Não me interessa o motivo, não mo contem, por favor, pois recuso-me a acreditar que possa existir qualquer verdade condescendente. Porque se houvesse alguma resposta atenuante, talvez pudesse até aliviar a alma da tal senhora mas, seguramente, não aliviaria os dias, os meses, e mais me custa escrever os anos, que aquela bebé passou, ali, no carro que foi o seu mundo. O que me ocupa a mente não é o porquê, porque esse é um tempo passado. O que me inquieta é o futuro. Quem é que alivia a alma desta menina? Dá para consertar esta existência? Se sim, quanto tempo leva, a que custo e quão bem vai ficar?
Pois só podia ser mesmo muito indiferente, eu, antes. Porque agora, juro mesmo, que só de pensar – repito – se me continua a contrair o estômago. É que tenho nos braços uma bebé, tal como aquela senhora teve. E só se sabe o que é ter uma bebé nos braços, até se ter, e como isso nos faz sentir diferente, até se sentir.
Somos gente crescida e donos da ideia de sermos, “eu mais que tu”, um poço de sensibilidade. E enquanto teimamos nos nossos grandiosos sentimentos de humanidade, vamos esquecendo de os sentir e ficando cheios de poeira no coração. E se não lhe limparmos o pó, ele vai bombeando dia após dia – bum, bum - envolto nessa camada de pó que nos enrijece os sentimentos. Porque um coração começa por nascer mole.
O segundo murro no meu estômago maternal aconteceu no passado dia 28 de Novembro. Telejornal. Um casal de nigerianos, envolvido em tráfico de crianças, tinha-as em sua casa, desnutridas, presas aos móveis e drogadas para não chorarem. Sei o que todos sabem, dia-atrás-de-noite-atrás-de-dia, há notícias ruins. Sei o que a minha avó me dizia, homem-mulher-branco-negro-farda-não-farda, há pessoas velhacas.
Então o que não sabia: que o meu novo estômago se indispõe quando assisto a notícias maldosas com bebés e crianças. E que desconheço como vai ser daqui em diante, se este estômago vai continuar a revirar-se quando se deparar com estas crueldades. Ou se isto foi apenas empolgamento de uma recém-mamã que, daqui a uns dias, estará de novo empoeirada, sentada a escutar as notícias e a mastigar em simultâneo. Gostava de acreditar nas intenções, “espero que não, daqui em diante vou estar limpa”. Mas creio enganar-me novamente. Porque somos milhões na Terra, a pisar este solo redondo mas bem limitado em fronteiras. Igualzinho ao nosso coração que, para não ser pisado, também se resguarda em fronteiras definidas: só dá para bombear uma vida.
Este Natal gostava que, por um dia que fosse, no mundo inteiro, nenhuma mãe tivesse o estômago indisposto.
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.