REUTERS

O pé na poça da maternidade

Quando levantamos um bebé no ar, vem um fio de cuspo para baixo. E, se o arrotamos inclinado para a frente, garantimos uma poça bolsada no chão. Mas, na maioria das vezes, é mesmo em cima da roupa da mamã que a saliva e os leites digeridos aterram. É o que chamo "pôr o pé na poça da maternidade". Disse-me a pediatra na consulta: os bebés podem bolsar leite aquoso, espesso ou requeijão. Como sou estreante, imaginei logo um requeijão inteiro a sair da boca da miúda – do qual me tentei desviar, pois não sou uma tosta.

Em Agosto, ofereceram-me um casaquinho branco de lã, feito à mão, para a Laura. Tamanho perfeito para os três meses que ela tinha na altura. Cheguei mesmo a pensar em vestir o casaco à miúda e ligar o ar condicionado. Mas dei-o a outro bebé, porque, agora que está um frio de rachar, nem nas orelhas o casaco lhe serve. Quanto a sapatos, sejamos realistas: os bebés não andam. Somos uma espécie que nasce atrasadinha no andar. Portanto, os bebés não precisam de sapatos. Um par de meias é mais que suficiente: são quentinhas e esticam para vários números de pé. Com jeitinho, até servem de luvas no Inverno.

Por muito que as mães leiam, há sempre uma pedrinha no sapato que as apanha desprevenidas. Ou porque esqueceram o que leram, pois já não têm espaço mental para armazenar tanta informação, ou porque lhes acontece a única coisa que não leram. Como a mim, no outro dia, quando me disseram que os supositórios se devem colocar do lado oposto ao que o bom senso dos meus olhos me dizia. Tenho aprendido que, no que respeita a bebés, há sempre duas teorias, até na forma de lhes administrar um supositório. Tomei partido do lado fino.

Outra coisa que os pais têm dificuldade em entender: os bebés não são palhaços. Portanto, abaixo os laçarotes na cabeça careca, os casacos de capuz com orelhas de animais e os pijamas com rabo de coelho. Respect. Excepção no Carnaval, animaizinhos é no jardim zoológico. A entrada é cara, mas mais barata que ter um filho e vesti-lo de urso.

Os bebés também não são todos rechonchudos, lourinhos e de olho azul, a concorrer ao prémio Bebé Nestlé. A maior parte, vejamos, é real. Com manchas avermelhadas na cara, orelhas de abano, olhos estrábicos, dedos do pé grandes, narinas salientes. Iguaizinhos a nós. Diz a natureza que até nascem com o focinho do pai, para que este tenha a certeza de ser o progenitor e não os abandone.

Também era bonito se os pais percebessem que os bebés não têm hora marcada para rir. Riem quando tem graça. Não podem pedir-lhes “Gugu, ri-te agora para a tia Guilhermina” porque eles vão pensar “isso é que era bom, ri-te tu, que eu não gosto da velha”.

E não é preciso estar sempre a falar com uma voz abebezada. Porque corremos o risco de manter o tom em circunstâncias menos próprias: “Ohh, patrãozinhooo… Vou fazer um xixizinho e volto já, tá queriducho?” Falar como se o bebé fosse a nossa melhor amiga ou contar-lhe tudo o que estamos a fazer também não funciona: “A mãe está a pôr a marcha-atrás e aquela besta não está a ver”, “a mãe está a ralar cenouras, baby! Se fosses ruiva, ainda tinha mais graça!” ou “a mãe vai comer um bolo, não contes ao pai”. Então que vá! Nada disso interessa ao bebé, que não sabe sequer falar para se poder “chibar” ao pai, muito menos em inglês. Portanto, tem de continuar a aturar o desejo da mamã de ter alguém que a ouça.

Desconfio de que isto de os bebés nascerem sem saber falar é porque a natureza foi previdente. É que um bebé precisa de cerca de um ano para se mentalizar de que vai ter de viver aqui, depois leva mais meio ano a ganhar coragem para se pronunciar e, finalmente, a primeira vez que o faz expressa o resultado de tudo o que viu desde que nasceu: Não!

Por vezes, vejo na rua carrinhos de bebé armadilhados com bonecos, mobiles, porta-chuchas, rocas, morde-dentes. Em duplicado. Lá dentro, duas mãozinhas brincam com uma colher de café que não veio de casa, nem tem lugar marcado no carrinho quitado. É que os bebés são obrigados a carregar todo o universo infantil que os seus pais não tiveram na idade deles. Por isso, fico contente quando a Laura se entretém meia hora com uma tampa de tupperware. Para que não cresça com a herança da minha infância, mas sim com a dela. Mas sei que vou ter de me esforçar muito para não pôr o pé na poça.

Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.