Mães há muitas
Quem não chora, não mama
- A sua filha é danada.
Foi assim, num tom entre o trocista e o científico, que a pediatra definiu a Laura. A bebé revela um temperamento apurado, talvez por ser mulher, talvez por se aperceber dos pais que tem, talvez por ter nascido em Portugal. A miúda refila por tuta e meia, na única linguagem que sabe: o choro. Cá para mim, já nasceu a saber que "quem não chora, não mama" e vai adorar manifestações. Portanto, espertíssima, entrou cá em casa e desatou a chorar como quem canta o hino nacional de peito cheio. Consola-me saber que chorar faz bem aos pulmões.
Pois bem, se é para agarrar nas armas, "para esperta, esperta e meia". Uma forma de tourear o choro de um bebé é rindo. A Laurinha chora e eu vou fechar-me um minuto na casa de banho a rir. Há quem faça minutos de silêncio, eu sou a favor dos minutos de riso. Volto logo com outra disposição para a confortar. “Olé! Aqui, bebé!”. É que o riso é o melhor remédio para levantar a moral, sem efeitos secundários a recear. Excepto para mamãs com problemas de incontinência.
No quarto da minha filha vivem três ursos, um leão, um elefante, um cão e nenhum acha graça quando ela chora. Nem quando os morde. Sinto que devo um pedido de desculpas a estes animais. Principalmente ao cão que, aliás, ficou esquecido em casa de uns amigos. Há quem pense que este esquecimento foi um acaso, mas eu desconfio que o cão pediu asilo político. Devia existir uma Sociedade Protetora dos Animais de Pelúcia.
O choro é desgastante. Entra directamente no sistema nervoso e fica a assistir aos nossos circuitos cerebrais a fundirem todos, como se fosse um espetáculo de fogo-de-artifício. Após uma crise de choro dos filhos, os pais aparentam aquele ar derrotado de quem correu-correu-correu e ficou com dor de burro, e portanto, nem fala.
É que, com a quantidade de vezes que um bebé chora por dia, ou os pais se munem de boa disposição, ou acaba tudo num pranto. Porque os bebés já treinam o choro dentro da barriga da mãe, estiveram meses a planear esta brincadeira e estão prontos para actuar: “Vou chorar agora que a mamã acabou de entrar no duche”.
E os bebés não se limitam a chorar. Há toda uma expressão dramática a acompanhar o choro, numa linguagem corporal que lembra O Exorcista: o queixo treme, o corpo contorce-se, ficam vermelhos, cerram os pulsos, e muitos nem lágrimas têm, o que dá um toque assombroso ao menino que não é o da lágrima.
Confesso que a choraminguice é a gracinha que mais me tira do sério. Prefiro levantar-me 100 vezes para apanhar a chucha que caiu, mudar mil fraldas de cocó pastoso e chafurdar os pés descalços na poça bolsada no chão. Porque ouvir chorar sem antever final é o maior dos enervamentos de uma mãe. Que não seja surda, claro.
Por outro lado, tenho visto muitos pais em restaurantes a quem parece que cortaram as orelhas. Os filhos choram, berram, gritam, alguns chegam mesmo a uivar, e os seus papás a assobiar para o lado como se ali não estivessem. A vontade que tenho é de ir ter com eles e enfiar-lhes um cotonete pelo tímpano abaixo. “Essa cera, é decorativa? Ou estás a guardar para a sobremesa?”
Como ainda não perdi a audição, ouvi na rádio a notícia de um casal que foi viajar com os seus bebés gémeos. Assim que entrou no avião, receoso do choro incomodativo dos seus filhos, distribuiu tampões para os ouvidos a todos os passageiros. Porque é mais fácil calar a boca a 300 passageiros do que a dois bebés.
Claro que temos a exaustiva questão de porque é que os bebés choram. Qualquer mãe sabe que há uma lista de dez coisas que podem ser o motivo do pranto. Mas, mesmo assim, eles choram e sentimo-nos como na ópera: sabemos, pelos soluços comoventes, que algo de dramático se está a passar, mas não percebemos patavina. Corremos a lista e não é cocó, fome, frio, calor, sono, cansaço, nem excitação. É tédio.
Metade das vezes que um bebé chora, é porque está entediado. Os bebés aborrecem-se. Porque nós, adultos, somos maçadores. E porque a vida entre berço-espreguiçadeira-sofá-chão é uma chatice. O tecto da sala é branco todos os dias e os brinquedos têm um prazo de graça limitado. Ou já os desfizeram o mais que podiam. E nem todos podem fugir, como fez o cão.
Um amigo meu andou o fim-de-semana todo atrás da Laura. Sempre que ela chorava, ele aproximava-se com um gravador de som. Quer editar uma música com o choro da miúda. Não acho mal, cada qual com a sua tara desde que vi um documentário sobre adultos que gostam de se vestir de bebé. Talvez venha a ser útil esta gravação dos berros da Laura. Se estiver ao telefone com alguém que me esteja a maçar, posso pôr o som e desculpar-me que tenho de ir acudir a bebé. Ou ouvir no carro, bem alto e de janela aberta, quando estiver no trânsito. Sempre me distraio com os olhares enervadinhos e posso testar se algum automobilista se atreve a vir de cotonete em punho para mim.
A solução para o choro sem razão aparente está na criatividade. Se o bebé está aborrecido, vamos distraí-lo. Porque os bebés abrem a goela e, no minuto a seguir, esqueceram o motivo. Por isso, não vale a pena farejar motivos - só quando cheira mesmo mal. É melhor predispormo-nos a fazer o pino, a dançar à pato, a cacarejar. É garantido que as lágrimas páram. A não ser que a performance seja lamentável. O último recurso é aspirar a casa pois dizem que o barulho branco é um excelente soporífero.
Finalmente, pôr o bebé no carro para dar uma volta ao quarteirão a meio da noite é uma ideia idiota para quem vive no centro de Lisboa. Porque quando chegamos à esquina da rua já o bebé dorme, o lugar do carro desapareceu e ficamos nós a chorar por ter levado uma hora para nos rendermos a estacionar na passadeira.
A verdade é que, qualquer que seja o motivo do choro, a culpa é dos adultos. Porque ou é algo que fizemos, ou é algo que não fizemos. A terceira hipótese, minha preferida, é porque os bebés sabem que um dia vão ser adultos, razão mais que suficiente para chorar. Como dizia um escritor inglês, “quando a infância morre, os seus cadáveres são chamados de adultos”.
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.