Mães há muitas
Quem tem medo do bebé mau?
A filha de um amigo, com apenas oito meses, conseguiu espetar o dedo bem no centro do olho do pai. Espero que ele lhe tenha cortado as unhas antes. O meu afilhado entrou na fase de distribuir umas palmadas a quem se puser a jeito, sendo os pais o alvo diário de treino. O bebé de uma vizinha, com as crises de cólicas, dava-lhe socos. Um casal amigo conseguiu ficar, cada um, com um olho negro, após uma tarde de saltos na piscina com a sua prole de três rapariguinhas. Já a minha Laura puxa-me os cabelos, chegando a arrancar alguns. Dói. Não tanto como ficar sem olho, mas dói.
Nós, pais, cheios de medidas protectoras. Eles, filhos, a darem-nos pancadinha. Onde é que está o respeitinho à antiga pelos pais? Ou a partir de que idade é que eles nos tratam como adultos e começam a bater de socapa? Descobri que há uma parafernália de materiais para garantir a segurança dos miúdos, mas não encontrei nada à venda para proteger a integridade física dos pais. Por favor, ponham uma cancela no quarto dos pais. É que, cada dia que uma mãe e pai se levantam da cama, podem estar a arriscar a vida.
E os pequenotes não ficam por aqui. Fazem também pontaria à psique dos pais, levando-os a tremer de medo do que os filhos possam fazer. Desde que se tornam pais, passam a sofrer do distúrbio de ansiedade parental. Levar os filhos ao restaurante está no topo dos seus medos. Porque o bebé vai chorar assim que pedirem o arroz de pato. E um deles vai ter de sair do restaurante, ruborizado e a pedir imensas desculpas. Vai chegar lá fora, repreender – que bebé feio! –, regressar 20 minutos mais tarde e comer o patinho frio.
Outro medo dos pais é de serem chantageados. Porque os filhos recorrem à birra como forma de expressão para conseguirem o que querem. Quem é que já assistiu a uma mãe envergonhada no supermercado, a puxar a filha que se atirou para o chão, e só se levanta quando o pacote de bolachas aterrar no cesto das compras? É a chantagem selectiva, já que no corredor dos brócolos os miúdos não limpam o chão.
O que me questiono é se todos os bebés já nascem bonzinhos. Porque, por sistema, depois de perguntarem o nome da Laura, segue quase sempre a pergunta: "É boazinha?" Que raio! Não sei. Na dúvida, respondo sempre que sim: "Oh, é um amor!" Normalmente, nessa manhã, até berrou que se fartou. Certo é que as pessoas querem saber se os bebés são bonzinhos, caso contrário não perguntavam. E, se perguntam, é porque acham que os há mauzinhos. Também desconfio de que, metade das vezes, é uma pergunta de retórica.
Mas o que é afinal um bebé bonzinho? Pode ser um bebé que chora no modo sem som e que come a papa sem a deixar escorrer para o pescoço-quase-até-às-costas. Ou que sorri para qualquer cara que mostre os dentes tortos. Já sei! Deve ser aquele que dorme assim que os pais mandam, mesmo sem saber andar, já vai sozinho para a cama e troca a própria fralda.
O conceito corrente de "bebé bonzinho" consiste em que este faça aquilo que o adulto deseja. Ponto. Bonzinho seja o bebé que faz o que é suposto fazerem todos os bebés do mundo. Quanto mais igual aos outros, mais bonzinho. E mais seguros se sentem os pais. Come. Dorme. Ri. Gatinha. Não, não estamos a falar de animais de estimação.
Por outro lado, os pais também olham o seu mais-que-tudo como um bebé especial, mais bem comportado que os outros e – vá-se lá saber como – mais inteligente. Só que, quando o pobre dotado atrasa uns diazitos a palrar ou a andar, lá ficam os pais aflitos que o seu bebé possa não ser tão normal como os outros. Então, queremos bebés iguais ou diferentes dos outros?
– Quero igual, mas melhor. Porque a minha filha é única, porque é minha. E é mais bonita, inteligente, engraçada e boazinha que todos os outros bebés que conheço, que não conheço e que estejam para nascer. Óbvio. E quando chora, refila ou faz birra, está-se mesmo a ver que a culpa não é dela. Mas sim da mãe que pisou o boneco que guinchou, do senhor do café que sorriu e é feio que nem um carapau, do barulho do autoclismo a meio da noite, "mas querida, temos mesmo de puxá-lo".
Descobri que existe uma Consulta para Bebés Irritáveis, deduzo que estes não sejam tão bonzinhos como se planeava. Imagino o que é estar na sala de espera desta consulta: uma orquestra amadora. Suponho que sejam bebés que choram, choram, choram mesmo depois de os pais fazerem o pino. Eu também fico irritada por vezes, mas, se a Laura de repente fizesse o pino, ficava logo mais bem-disposta.
Tenho a certeza de que a Laura é especial porque já diz "Olá" desde os três meses. E não me digam que é apenas uma emissão de som ao acaso, que eu sei bem o que quero ouvir e ponto final. E se há dias em que é menos boazinha? Há. Tento nesses dias reforçar a paciência, poupar nos brócolos e salvaguardar os cabelos e os olhos. Cada bebé a seu dono.
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.