Mães há muitas
Pai nosso que estais em casa
Os pais de licença topam-se logo. Não é o pai-nosso-de-cada-dia ver um homem com um bebé a fazer compras no supermercado do bairro às 11h da manhã. Nem ver um senhor de barba rija na sala de espera da vacinação infantil, apesar de, diante de uma seringa, o pai da Laura ter comportamentos adequados a menores de 12 anos.
É que as mentalidades ainda não estão habituadas a ter os homens em casa. À luz do dia. E quando estão, não são empregados, são desempregados. Porque as empregadas e amas e avós e vizinhas e mais quem-dê-aqui-um-pulinho para ajudar a cuidar da criança são sempre mulheres. Levante o dedo no ar quem tem um homem-doméstico em casa? Não, minha senhora, domesticado não é a mesma coisa.
Até há pouco tempo atrás havia a licença de maternidade que deu dois passinhos em frente e passou a ser licença parental. Só que os horários das licenças parentais continuam muito maternais e pouco paternos. Gostas mais da mãe ou do pai? Com licença, gosto mais da mamã. Sucede que não só a legislação, mas também as decisões conjugais, acabam sempre no mútuo acordo de que a responsabilidade da licença é da mãe.
Os filhos também são dos homens, mas parece que ao Senhor Legislador faltou carinho paterno na infância. Afinal, quem é o Senhor Legislador? Tinha padrasto? Se sim, era o Lobo Mau? É que, neste capítulo, faltam aos homens os mesmos direitos das mulheres. Na prática, tirando a eterna questão das maminhas, não vejo maior ou menor capacidade de cuidar de um recém-bebé. Deduzo, portanto, que são as maminhas perigosas de algumas mães, os acordos mútuos e o Lobo Mau que podem minar a relevância da figura paterna nesta fase abebezada.
E o que podem os nossos pais-homens fazer para passar mais uns diazinhos com o seu bebé acabado de vir ao mundo e que, nalguns casos, até tem a cara deles? Pôr férias, lá está. Ou emigrar para a Noruega - é outra alternativa, já que aqui a lei permite que os casais decidam como partilhar as suas 46 semanas de licença remunerada, no mínimo, das quais 12 são exclusivas dos homens. A terceira hipótese é – boa ideia! – chegarem-se à frente. Já estou a vê-los a reivindicar os seus direitos queimando os soutiens de amamentação das esposas. "Não querido, esse não é de amamentação! É o que comprei para comemorar um mês de namoro. Mas sim, queima antes esse, que me dá mais jeito".
Por cá, os homens que se atrevem a tirar o seu mês de licença obtêm-no como se se tratasse de um parto feito a ferros. Porque custa mais a todos, a começar pelo próprio pai, seguido do patrão que não acha graça, dos colegas que olham invejosamente para o lugar vazio, da esposa insegura e, por fim, do disputado bebé que não tem escolha. Ah, e custa também à avó paterna, que vai receber mais telefonemas do filho nesse mês que em toda a sua vida.
Para grande parte dos pais, o vínculo pai-bebé começa assim que a mãe sai de casa. O pai salta finalmente da casca e é nesta independência que o vínculo bate à porta. Cucu! E lá vão todos brincar, sem a necessidade da supervisão de um adulto. Ou seja, por volta dos seis meses de idade do bebé. Não, não é na gravidez, pois muitos pais não sentem os pontapés do bebé que as mães tanto insistem em mostrar. Nem quando o bebé nasce e dorme o dia todo ou quando chora assim que o pai chega a casa. É quando, finalmente, a mãe os deixa sozinhos.
Li que os pais se comportam de uma forma diferente com os bebés quando as mães estão fora e também quando não estão a olhar. Levante o dedo no ar o pai que se diverte com fartura quando a mãe vira costas?
- Gugu, tens sopa no olho? Oba! Toma lá mais uma colher para o outro olho e pareces uma bebé-marciana! E o papá também vai pôr o puré de maçã nos olhos!
Só tenho receio que a Laura aprenda algum palavrão este mês. É que, com tanto programa de bola que lhe vai entrar nos ouvidos, não dá para não ferir susceptibilidades à miúda. Ela não é pêra doce, mas o pai também não. Das duas uma, ou vão andar à pêra um com o outro, ou acaba em marmelada e não sobra um quadradinho para mim. Até ver, quando chego a casa, estão os dois com cara de quem esteve a navegar no Facebook do Papa Francisco.
De qualquer forma, não tenho sofrido retaliações. Contava chegar a casa e que me lançassem um bebé nos braços antes de fazer o xixi-de-já-cheguei. Esperava um pai desgrenhado e uma bebé de olhos esbugalhados a suplicar pela mãe. Imaginei fraldas sujas no corredor, biberões por terminar enterrados no sofá, babetes pendurados no candeeiro do tecto.
Por isso, estou certa de que algo se passa, desde que saio de casa de manhã até à hora a que regresso. É que só não contei com o instinto paternal, que atinje até o mais distraído dos machos. E não me apercebi que a Laura já é uma menina do papá.
Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez em Maio.