Reuters/Enrique Castro-Mendivil

As mães não se medem às mamadas

A Organização Mundial de Saúde, a pediatra, as mamãs do Google, a minha sogra, o pai e até a minha melhor amiga estão de olhos postos nas minhas mamas a ver se alimento responsavelmente a criança. Nunca me olharam tanto para as mamas e nunca antes me apeteceu tanto usar o tamanho 34.

Estava a dar biberão quando a empregada entra na sala e sussurra de olhos arregalados: "Já não dá de mamar?" - Não, Albertina. Apeteceu-me acrescentar, desculpe lá qualquer coisinha, as mamas são minhas. Calei-me e pedi-lhe antes que fosse lavar os biberões.

Só de ouvir a palavra ‘amamentar’ imagino logo uma sala cheia de recém-mamãs com as mamas ao léu a ver quem tem mais leite. É como se fosse um concurso, ganha quem esguichar mais. E elas a roerem-se todinhas para perguntar às outras: "durante quanto tempo deste?".

Estão-se nas tintas se o bebé da outra vai ter todos os nutrientes, querem é saber se se portaram melhor que as outras. E se sim, então ‘eu sou melhor mãe que tu’ e se calhar vou conseguir dar mesmo conta do recado. Como se as mães se medissem às mamadas. 

Dei de amamentar três meses. Isso coloca-me num meio-termo, não sou boa nem má, fico ali em purgatório matriarcal até decidirem que juízo dar a esta média. Contas feitas, quem amamenta seis meses é uma boa mamã, quem amamenta dois meses é uma mamã menos boazinha. As que ultrapassam os seis meses são profissionais e as que ultrapassam um ano são as minhas preferidas, são as mamãs prodígio.

Sou a favor da amamentação para quem o queira fazer, mas dá-me algum formigueiro toda a panóplia de dissertações que colocam a amamentação num pedestal como se isso definisse o tipo de mamã que vais ser. 

Nunca vi nenhum cartaz a publicitar o Dia da Mãe com uma mulher de mamas de fora.

Há simplesmente mulheres que não estão para isso. Não gostam, não querem e têm de se justificar tanto que até dói os ouvidos. O filho é delas mas lá têm de ir com o papelinho da justificação para não levar falta. Até se podem safar com mastites e falta de leite, mas o não-quero-ponto-final é tão válido como as gretas nos mamilos. Não amamentar é um direito, tal como não pedir desculpas, embora não caia bem a muita gente. 

De qualquer forma, a amamentação para lá dos 6 meses é para mulheres cujos empregos têm boas casas de banho. 

- Sofia, estás aí trancada há 20 minutos e estão todos à tua espera para começar a reunião.

- Desculpa, estava só a tirar leite. Vou ali à copa guardá-lo no frigorífico.

Nas empresas, ao ritmo a que todos mamam os iogurtes uns dos outros, está-se mesmo a ver que o leitinho do bebé ia acabar no bucho do Bruno da informática.

Gostava de ver as mamãs portuguesas a entrarem nos gabinetes dos seus chefes e explicarem que vão amamentar até a criança ter sete anos. Não vão, pois não? Então porque é que são tão picuinhas umas com as outras só por dá cá aquele mês? Mamem e deixem mamar.

Muitos adultos que conheço cujas mães eram trabalhadoras foram amamentados pouco mais que um mês - o tempo da licença à época -, não havia bombas de tirar leite como agora, e nem todas as mulheres gostavam de ver os seus bebés pendurados noutras tetas. Será por isso que há tantos filhos adultos ainda a mamar em casa dos pais? Mãezinha, amamenta-me aí 20 euros se faz favor.

Os benefícios são irrefutáveis - sinto a consciência mais levezinha por a minha bebé ter recebido o meu leite. Só que a questão da alimentação não se resume a amamentar seis meses um bebé com leite materno exclusivo para depois andarem toda a infância a anafá-lo a bolos. Cá as minhas mamas não vão ser bolas de Berlim. A verdade é que, passado o tempo dos fundamentalismos com o leite materno, os bebés tornam-se crianças pupilas da fila dos menus do McDonald's.

Quanto aos pais, as mães pouco os deixam mamar nesta fase, não vá os senhores roubarem o leitinho aos próprios filhos. Os homens que se tornam pais descobrem todo um novo significado para a palavra mamada. Ah, tens sede? Bebe Coca-Cola zero.

Deixei pois de amamentar e estou contente. Vou celebrar irresponsavelmente com um bom vinho tinto de 14 graus, uma massa picante e terminar a noite a cantar: "As minhas maminhas têm dois bicos / têm dois bicos as minhas maminhas / se não tivessem dois bicos / as maminhas não eram minhas."

 

*Sofia Anjos, 38 anos, directora de contas numa agência de comunicação, foi mãe pela primeira vez há três meses.