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Vendas Novas

Queijaria das Romãs

Quando eu era pequenino todos os queijinhos frescos eram de ovelha. As queijeiras iam a nossa casa vendê-los. Emprestavam as cintas de latão mas eram rigorosas: só vendiam o número de queijinhos conforme a quantidade de cintas devolvidas. Era o método infalível que tinham de assegurar que nenhuma cinta se perdia.

Nos jornais lia-se que, de vez em quando, morriam pessoas com febre de Malta. A culpa era atribuída a certos queijinhos menos cuidados. Passados 50 anos, todos esses medos foram ultrapassados. Fugindo ao leite de ovelha e de cabra, apareceram produtores que conseguiram usar leite de vaca pasteurizado para fazerem queijinhos tão deliciosos como os antigos. É o caso dos queijinhos de leite de vaca (e outros queijos de ovelha e de cabra) feitos pelo nobre alentejano Jorge Romão. A marca deles é Courela do Campo. Já aqui fiz o merecido elogio dela (que se pode ler grátis no Público online) e continuo a recomendá-los.

Os queijinhos agora são feitos em Torres Vedras mas o gosto (bom, pois claro) é decididamente alentejano. O número de telefone deles é 965103 773.

Entretanto soube de uma antiquíssima novidade. Há em Vendas Novas, desde 1988, uma queijaria moderníssima e ultra-higiénica que consegue fazer queijinhos de leite de ovelha pasteurizado que sabem aos queijinhos de ovelha dos velhos tempos.

Na zona de Lisboa, Setúbal, Amadora, Sintra e Torres Vedras não conheço outros queijinhos frescos que não sejam banais e insípidos. É que é muito difícil fazer queijinhos frescos saborosos, com textura sedosa, com leite fresco pasteurizado. Em contrapartida, é muito fácil fazer queijinhos “frescos” com leite em pó, leite de longa vida e outros ingredientes mais baratos...

Em Portugal, tal como tem vindo a acontecer com os vinhos e os azeites, os queijos (excepto os de Serpa) têm vindo a melhorar de ano para ano. A excepção tem sido sempre os queijinhos frescos, cada vez mais industrializados e anódinos.

Tal como a Courela do Campo, a Queijaria das Romãs é uma pequena empresa familiar que assegura a distribuição. É preciso telefonar para lá (913 865 180) para saber quais são os pontos de venda em que se podem comprar os queijinhos.

Como também fornecem bons restaurantes (é sinal de um bom restaurante ter queijinhos de ovelha da Queijaria das Romãs), uma possibilidade é combinar com os proprietários, caso sejam bons amigos, para encomendarem por si.

A verdade é que, para arranjar queijinhos bons, é preciso algum esforço e planeamento da nossa parte. É preciso telefonar e combinar. A procura é muita e a oferta, devido às dimensões sensatas das empresas, é limitada.

Mas vale a pena, por razões puramente gastronómicas mas também por razões pessoais: é bom conhecer estas pessoas que levam a sério uma tradição que muitos julgavam morta. É graças a elas que podemos dizer, sem qualquer vaidade patriótica mas com o mais frio dos discernimentos, que não há país europeu que tenha melhores queijinhos frescos de ovelha ou de vaca do que os da Quinta das Romãs e os da Courela do Campo, respectivamente.

A Queijaria das Romãs também tem uns belos queijinhos com mistura de leite de ovelha e leite de vaca. São mais baratos mas são queijinhos de primeira, ideais para quem está mais habituado aos queijinhos de leite de vaca.

Eu, como fanático, sou contra a mistura de leites. Que desperdício de leite de ovelha, penso eu com o meu egoísmo selvagem, sabendo da escassez de ovelhinhas leiteiras. Também gosto tanto de queijinhos de leite de vaca que sugiro à Queijaria das Romãs que experimente fazer uns queijinhos só de leite de vaca, para as muitas pessoas gulosas que têm o infortúnio de não gostar de queijos de ovelha. Como uma que eu cá sei...