Maria de Lourdes Modesto

81 anos, reformada e autora de livros de culinária

Com que idade percebeu que falhou na vida?
Se percebi! Foi há 60 anos, tinha 21, quando dei a minha primeira aula de culinária. Ensinei as alunas a fazer um soufflé, que, quando saiu do forno, era mais baixo do que quando entrou.

Qual é a diferença entre um alfacinha e um tripeiro?
Os tripeiros fazem as melhores tripas do mundo.

Qual a sua qualidade que mais irrita os seus amigos?
A pontualidade.

Qual o seu defeito que mais os enternece?
Ter a mania das perfeições.

Trata de forma diferente as pessoas feias e as bonitas?
Penso que não. Mas, apesar da inveja, deslumbram-me tanto as caras bonitas que, se calhar…

Quando está com uma pessoa deficiente exagera no ignorar da deficiência?
Não. Mas a primeira coisa que digo a toda a gente com quem tenho de falar é que sou surda. O que obriga a falarem-me de frente e sem gritar.

Com que figura pública se acha fisicamente parecida?
Comigo. Mas não me importava que me confundissem com a Julia Roberts.

Tem números que memorizou no telemóvel só para não atender?
Memorizei só os números das pessoas com quem quero falar.

Com que regularidade se googla?
Talvez uma vez por semana, para espreitar o que a concorrência anda a fazer.

Que jornal ou revista usaria para matar um insecto?
O insecto safava-se. Não tenho em casa jornal ou revista que mereça essa desconsideração.

Se fosse jantar com Woody Allen, onde o levaria?
Levava-o ao restaurante onde fazem um prato que deslumbrou Brederode dos Santos, ao ponto de o citar numa das suas crónicas: “Lombinho de azeitona em sua cama de alface.”

O que almoçou hoje?
(Parece-me que estas três perguntas não encaixam umas nas outras.) Vitela assada com ratatouille, em minha casa.

E o que deveria ter pedido?
Na minha casa, era o que havia. Mas, se fosse num certo restaurante de cozinha de autor, em cuja carta constam: “Coisas do mar; Coisas da terra; Coisas do poleiro”, ia pelo poleiro e pedia um prato que lhes sai muito bem: cristas de galo em cozedura unilateral a baixa temperatura, cama de raia desfiada, crême-fraiche da Normandia, trufas d’Alba, crocante de pão alentejano, quenelles de topinambo e seu coulis de pepino, redução de vinho do Porto e espuma de Parmesão.

Qual o segundo momento mais marcante da sua vida?
Quando fiz o primeiro programa de televisão e depois de me verem me disseram para pensar no programa da semana seguinte.

Sem ser essa mariquice de morrer a dormir, como é que preferia morrer?
Se excluem essa mariquice de morrer a dormir, então prefiro não morrer.

Qual o seu pintor favorito da escola flamenga?
Pieter Bruegel, com especial preferência por Casamento na Aldeia.