Fabio Teixeira / PUBLICO

Família

O ano começa agora

Setembro é o mês de todos os regressos. Decisões, planos e contabilidade ocupam a cabeça de quem tem crianças por perto. Quem disse que o ano começa em Janeiro? Para as famílias com filhos, é em Setembro. 

É tempo de definir a logística familiar para os próximos meses. Quem leva as crianças? Quem as traz? A que horas é a natação das meninas? O rapaz vai para a explicação de Matemática? Conta-se com os avós? Há dinheiro para ATL (Actividades de Tempos Livres)? Desiste-se da música no conservatório?

As perguntas não serão as mesmas para as diferentes famílias, mas todas terão muito para decidir e organizar por estes dias. “Em Julho, começo logo a pensar: ‘Tenho dinheiro para os pôr no Inglês? Aos três?”, conta Inês Seabra, mãe de Afonso (14 anos), Mafalda (12) e Francisca (oito). “Mas é em Setembro que tudo recomeça.”

E, sim, há dinheiro para o Inglês: “Optámos por pô-los num instituto em detrimento das actividades desportivas. Se um foi para o Inglês na primeira classe, os outros também vão. Andam todos na escola pública porque eu sei que poderei manter. E o que decidimos para um é igual para os outros”, prossegue a professora de Matemática, a leccionar na Escola Secundária Sebastião da Gama, em Setúbal.

Puzzle difícil

No início da semana, esta família ainda não sabia os horários que a esperavam. “Felizmente que em Setúbal é feriado municipal a 15 de Setembro [Dia de Bocage]. Por isso ainda estou calma”, diz Inês, sem perder o sentido de humor, apesar da “loucura” que se adivinha para os próximos dias. Afinal, será preciso encaixar horários de quatro pessoas (mãe incluída), em diferentes escolas. Um puzzle difícil de construir.

Só o pai (Luís Seabra) escapa à incógnita sobre o seu dia-a-dia. Gestor de projectos, é o único que já tem um horário definido, igual ao de antes. Sai de manhã, “às sete e tal”, e regressa à tarde, “às sete e tal”. Setúbal-Lisboa, Lisboa-Setúbal, diariamente e de moto. “Nos primeiros dias de aulas, às vezes consigo levá-los. Um de cada vez, claro. Eles adoram aquele número de chegar à escola de moto!” E percebe-se que o pai também gosta.

“A legislação permite-nos pedir na escola um horário que seja flexível e que se conjugue com os horários dos nossos filhos. Este é o quinto ano que peço, logo em Julho/ Agosto, para terem em consideração esta minha realidade”, explica Inês Seabra. “Provavelmente vou ter pela quinta vez o pedido ignorado.”

E conta como no ano lectivo anterior pediu para que o seu horário fosse distribuído pelas manhãs e pelas noites, depois das 20h, hora a que Luís (o marido) já estaria em casa. “Deram-me um horário em que tinha aulas entre as 13h30 e as 20h. Brilhante! Como a mais pequena saía às 18h30, ficou muitas vezes sozinha até o pai chegar. Ela tem oito anos. Isto chama-se negligência familiar. Se aparecesse alguém da segurança social em minha casa, tirava-me os filhos…”

Regras claras

Como “é impensável” terem outra actividade para além do Inglês, “a pagar e fora da escola”, os miúdos aproveitam as oportunidades que a escola dá. “Vão para o desporto escolar. Escolhem um de que gostem. O Afonso está no voleibol e vai continuar. No 6.º ano, a Mafalda andou no ténis. O Afonso nessa altura quis  badminton. No 7.º ano ninguém foi para nada porque eram muitas disciplinas e era difícil organizarmo-nos. No 8.º ano, escolhem uma modalidade dentro da oferta da escola. A Mafalda agora tem de escolher uma e são obrigados a ir, porque é de graça e faz bem. É assim que está determinado cá em casa.”