Beto Perez em Lisboa
Beto Perez em Lisboa José Maria Ferreira

Entrevista ao criador da Zumba

Beto Perez: “A Zumba tornou-se numa filosofia de vida porque a vida é uma celebração”

Uniu a dança ao exercício e conquistou o mundo. A festa da Zumba faz-se por 150 países e movimenta milhões. Beto Perez, o pai deste fenómeno, esteve em Lisboa e garantiu ao Life&Style que a Zumba não é "moda passageira": "veio para ficar".

Avenida da Liberdade, número 196, Lisboa. Um grupo de pessoas vestidas de cores vibrantes e de sorrisos rasgados mistura dança com passos de aeróbica ao som de músicas como Dale Dale, de Francesca Maria. Quem passa na rua e observa a festa através do vidro pensa que talvez seja um ginásio num dia especial. Mas o edifício pertence à Bolsa de Valores de Lisboa e recebeu, na sexta-feira, Alberto (Beto) Perez. O nome deste colombiano de 44 anos ainda pode passar despercebido a muita gente. Mas o da sua filha não. Beto é o inventor da Zumba, um ritmo latino que já atraiu 14 milhões de pessoas em todo o mundo e que está espalhado por 150 países, tendo-se tornado numa fórmula de sucesso em ginásios e eventos. O ritmo começou por ser divulgado em DVD mas cresceu para a formação de instrutores e até já tem um jogo para consolas e uma marca de roupa.

O Sr. Zumba não confirma que o seu negócio, que deu em 2001 origem à empresa Zumba Fitness, esteja já avaliado em 500 milhões de dólares – mas o certo é que o projecto que encabeça e o facto de ser um exemplo para outros empreendedores fez com que recebesse o convite para que na sexta-feira protagonizasse às 17h em ponto o toque do sino de encerramento do mercado. E, como não podia deixar de ser, a campainha soou de uma forma única: Beto optou por inovar e fez com que o sino balançasse ao ritmo da salsa.

O colombiano aproveitou a sua passagem por Portugal para visitar também algumas aulas da sua modalidade e para no sábado ser o protagonista num espectáculo que pôs 2000 pessoas a fazerem as mesmas coreografias que inventou. Na Bolsa de Valores, Beto contou a sua história a um grupo de jornalistas e deu uma entrevista ao PÚBLICO onde explicou que, apesar de ter inventado esta mistura entre dança e ginástica por mero acaso, num dia em que se esqueceu das cassetes para uma aula de aeróbica, sempre se identificou com o sonho americano. Sentiu que a Colômbia se tornou demasiado pequena e arriscou conquistar os Estados Unidos, onde chegou apenas com “uma mala cheia de sonhos”.

Para o pai da Zumba, os limites estão apenas na cabeça de cada um e na sua não existem. Aconselha a que no mundo dos negócios haja sempre uma dose de intuição e muito trabalho. Começou a ‘bailar’ ainda em criança, inspirado em John Travolta, e não imagina os seus dias de outra forma – até porque, garante, a Zumba veio para ficar e não é uma moda passageira. “É um estilo de vida” que torna a ginástica em festa e que conquistou quem não gosta de exercício.


A sua vinda a Portugal para tocar o sino no fecho da Bolsa de Valores de Lisboa pode parecer uma combinação estranha. Como surgiu a oportunidade?

Estou a tentar vir há dois anos, mas era complicado porque era um país pequeno e que ainda estava a crescer [na Zumba]. Agora, houve uma coincidência entre o convite da Bolsa de Valores com um evento na mesma semana em Portugal e eu estar na Alemanha, pelo que podia passar por Portugal antes de seguir para Miami. A bolsa acaba por ter muita relação com o Zumba Fitness, porque a bolsa quer cuidar dos seus clientes para que tenham êxito e sejam empreendedores e nós queremos que os nossos instrutores também tenham êxito.

As primeiras impressões que teve do país correspondem ao que pensava? Preparou algo de especial para a sua visita?

É um país muito bonito. Encanta-me a arquitectura, a tranquilidade das pessoas. Parece-me um país muito boémio e não o imaginava assim. Imaginava-o um pouco mais moderno, mas ao mesmo tempo não é tão antigo como França ou como Itália e é um pouco mais ordenado. Fiquei em Cascais a descansar e posso dizer que é dos países mais bonitos que visitei nas minhas viagens. [Além da bolsa], o ponto alto está na aula de sábado com 2000 pessoas a dançarem ao mesmo tempo no Parque das Nações.

Como descreve a Zumba a quem não a conhece?

Zumba é uma festa, uma celebração, um estilo de vida, uma maneira mais divertida de fazer exercício, sem se dar conta de que se está a fazer. Os portugueses gostam de festa e é um programa que está desenhado para quem não gosta de exercício. São programas muito fáceis e sem coreografias muito complicadas. Não é apenas um desporto ou uma rotina de exercícios.

Começou a dançar muito cedo. Diz que se inspirou ainda em criança no filme Brilhantina, com John Travolta, e que imitava Michael Jackson. Acabou a ser professor. Mas a Zumba surgiu por causa de um esquecimento.

Sim, foi por mero acaso. Uma vez fui dar a minha aula de aeróbica e esqueci-me de levar as músicas. Só tinha comigo as minhas cassetes de música latina, do que dava na rádio. O que fiz foi improvisar durante uma hora e as pessoas ficaram encantadas. Fiquei surpreendido porque uma aula que dura 60 minutos, e que às vezes parecia demorada, no caso da Zumba parece que acaba em 20 minutos.

Quais foram as primeiras músicas? Ainda se lembra de alguns exemplos?

Claro. Foi Rumba, Samba, Mambo, dos Loco Mía, Cali Pachanguero, do grupo Niche, e El Baile del Perrito, de Wilfrido Vargas.

Qual a música que não pode faltar numa aula de Zumba?

A salsa. A salsa encanta-me, pois eu sou de Cali (na Colômbia), que é a capital mundial da salsa.

Quando é que percebeu que um esquecimento por mero acaso lhe tinha aberto as portas para algo com muito potencial? Qual é afinal o segredo da Zumba?

Desde o primeiro momento que percebi que é isto que quero fazer o resto da minha vida: que me paguem, que dance e estar rodeado de mulheres. É o melhor trabalho. Creio que o mais importante é que se tornou num estilo de vida. Criavam-se programas para pessoas que gostam de exercício e nós criámos a Zumba para quem não gosta e esse é o segredo. As pessoas não gostam de exercício mas gostam de festa. Não têm tempo para o ginásio mas têm tempo para ir a festas. Trouxemos a festa para os ginásios e ganhámos todos. A Zumba tornou-se numa filosofia de vida porque a vida é uma celebração.

Acabou por se juntar a dois sócios, Alberto Perlman e Alberto Aghion, que além de não serem da área da dança não tinham dinheiro para investir. Recusou uma proposta de um milhão de dólares de um investidor para se juntar aos “Albertos”. O que teria sido diferente se tivesse aceitado o dinheiro inicial?

Seria muito diferente, creio que tomei a decisão correcta. Foi uma jogada de vida bem estratégica. Acreditei na minha intuição que é muito importante nos negócios.

Apesar de ter visto logo sucesso na Zumba, o processo ainda demorou e só anos mais tarde se mudou da Colômbia para Miami. Como foi esse passo?

Houve um momento em que a Colômbia já tinha atingido o topo e estava muito bem. Mas eu quero sempre mais, gosto de projectos e que seja eu a definir as minhas próprias metas. Queria conquistar os Estados Unidos e o mercado americano. Em 2000 decidi emigrar e comecei do zero. Fiz quatro viagens aos Estados Unidos e numa delas dormi na rua duas noites. Tinha apenas uma mala cheia de sonhos e quando alguém me deu uma oportunidade tudo começou. Queria conquistar o mundo.

Foi em busca do sonho americano?

Sim, creio que senti que já não cabia no meu país e que com as minhas capacidades podia fazer mais e levar a Zumba ao mundo. Não queria desperdiçar a minha juventude, a minha vontade e os meus sonhos. Não me conformei, pois o ser humano quando se conforma limita-se e eu não tenho limites. Sou ilimitado, gosto de romper as regras e de ir contra a corrente. Gosto de desafios e creio que represento o perfeito sonho americano. Não tinha dinheiro, não falava inglês, não tinha documentos, mas tinha o sonho de ser alguém e nos Estados Unidos é mais fácil ter dinheiro do que ser alguém, que é mais meritório. Ocupei um espaço que não estava ocupado e sou alguém. Creio que isso tem valor.

Teve de fingir que falava inglês até conseguir aprender. Quer contar-nos essa história?

O meu sócio marcou uma reunião para mostrar um vídeo nosso em Ohio a uma empresa de fitness e perguntaram se eu falava inglês. Disse para ele dizer que sim e pedi que me ensinassem a dizer “muito prazer, desculpe, tenho que ir”. Fui fazer a demonstração e no fim saí só com estas palavras. Depois quiseram gravar um vídeo comigo e eu tive de contratar um professor para me ensinar a decorar o guião em inglês e memorizei sem saber o que estava a dizer. Temos de aproveitar o momento na altura certa e foi o que fiz.

Diz que Deus é o único que lhe pode impor limites. Que relação tem com a fé?

A minha mãe é muito crente e influenciou-me muito e sempre me disse para não me esquecer de rezar e de agradecer. Só Deus me pode dizer que não. O resto são limites que impomos a nós mesmos e eu quero o mundo.

O que tem a dizer às pessoas que gostavam de desenvolver um projecto pessoal? É preciso cair muitas vezes ou acredita num sucesso rápido?

É necessário cair e erguer-se e o sucesso não aparece num dia. Creio que se pode fazer num dia, mas corre-se o risco de se criar um produto dispensável, que assim como sobe rápido acaba por cair rápido. As pessoas pensam que a Zumba foi algo rápido, mas a verdade é que eu há 27 anos que trabalho para chegar a este projecto e dediquei-lhe muito tempo. Fui passo a passo, para subir devagar mas com segurança. É preciso paciência e perseverança para alcançar as metas. As pessoas às vezes desesperam porque num ano não acontece nada com o seu negócio. É preciso lembrar que só estabelecemos a Zumba como empresa em 2001 e demorámos oito anos a ver resultados económicos.

Diz que é o Forrest Gump da dança. Porquê?

Porque no Forrest Gump ele começou a correr, as pessoas começaram a segui-lo e começou a mudar vidas sem esperar. E é assim que eu me sinto. Nunca quis ser um Gandhi ou um Martin Luther King. Só queria dançar e que as pessoas se sentissem contagiadas. Acreditaram em mim e isso fez a diferença. Sempre sonhei com viajar pelo mundo e dançar à frente de muita gente, mas não esperava mudar vidas e gerar testemunhos.

O que é necessário para ser instrutor de Zumba?

Vontade. Qualquer pessoa é bem-vinda, não precisa de ser um super profissional ou um super bailarino. Há quem faça o treino para instrutor só por gostar e que acaba como instrutor. Mas a única coisa necessária é mesmo vontade.

Chegam-lhe muitas histórias de instrutores e alunos que mudaram as suas vidas por causa da Zumba? Alguma que o tenha marcado mais?

Os testemunhos surpreendem-me sempre. O meu sonho era viajar pelo mundo, dançar pelo mundo, ter êxito profissional. Mas mudar vidas e os testemunhos de gente que emagreceu, que mudou a vida por isto, depois de estar a antidepressivos ou a ponto de suicidar-se, isso surpreende-me. Há uma especial de uma menina que jogava voleibol e que sofreu uma pancada na cabeça. Ficou em coma um mês e meio. Quando abriu os olhos e viu um anúncio da Zumba na televisão, pediu à mãe que lhe comprasse os DVD e começou a fazer Zumba na cama, depois numa cadeira e depois foi a Miami fazer um treino comigo. Deu o seu testemunho e pôs 300 pessoas a chorar. Agora tornou-se instrutora de Zumba.

Já inventou a Zumba Gold, para os mais velhos, a Aqua Zumba, dentro de água, a Zumba Kids, adaptada às crianças, a Zumba Sentada, feita com uma cadeira… O que lhe falta mais?

Faltam muitas coisas mas que não posso dizer. Mas um filme, um livro, um musical e um circo de Zumba estão nos meus planos.

Quem vai interpretar Beto Perez no filme? Imagina alguém no seu papel?

Não seria eu, teria de ser um actor, mas ainda estamos a pensar e será estranho. Não será fácil porque tem de dançar e de representar ao mesmo tempo.

Nos ginásios ainda há algum preconceito em relação às aulas de Zumba. Há quem diga que não é exercício físico ou que é apenas para os mais gorditos e que passará de moda…

Quem diz isso que vá a zumba.com ver os testemunhos de quem mudou de vida e perdeu peso. De mulheres que estão lindas, belas mas sobretudo seguras de si mesmas. A Zumba é para toda a vida porque é um programa que trabalha com a música e a música está sempre a renovar-se. Há dois anos tínhamos a Macarena e agora temos o Reggaeton.

Acha que é inveja do sucesso?

Não me importa. Desde que falem bem ou mal, o importante é que falem.

Já há várias celebridades que aderiram à modalidade. Quem lhe falta ver a dançar Zumba?

Já tivemos Michelle Obama, Naomi Campbell, Shakira, Victoria Beckham… Talvez a Beyoncé? [Uma pessoa da equipa de Perez lembra que Beyoncé já dançou] Bem, pelos vistos já todos dançam, mas se calhar gostava de ter a Rihanna.

E quem é que gostava de ver a fazer uma música só para a Zumba?

Outra pergunta difícil. Os que eu queria já não podem, como o Michael Jackson ou a Celia Cruz. Agora gostava, e estamos a trabalhar nisso, que a Shakira fizesse. E também gostava que a Beyoncé fizesse uma e que a dançasse num vídeo. E já agora comigo.

Há um Beto antes e depois da Zumba?

O que acontece – e espero que interpretem bem o que vou dizer –, é que Steve Jobs dizia que há pessoas inteligentes e que há génios. As pessoas inteligentes pegam nas ideias, copiam-nas e fazem-nas muito bem. Os génios roubam-nas. E eu roubei esta ideia. Porque a aeróbica e a dança latina já existiam antes. Simplesmente roubei-as e arranjei-as, decorei-as, poli-as e juntei-me a dois sócios. Steve Jobs fez o mesmo: os computadores já existiam e o que ele fez foi roubar Microsoft, uni-la à Xerox e torná-la comercial.

Aos 44 anos, o que lhe falta fazer?

Muita coisa. Ainda tenho energia e corda para tudo. Se me retirar é porque as pessoas me retiram.

Mas consegue imaginar-se a deixar de zumbar?

Não. Vou dançar sempre. E estarei sempre metido na música, nem que seja por trás de alguma maneira… como coreógrafo, a gravar DVD, em assessoria.

Já disse que lhe falta ainda ter filhos. A Zumba absorve-o tanto que acaba por ser uma família?

Sim, falta isso. Tenho muitos filhos profissionais, mas é complicado conjugar. É preciso saber quem é quem, mas acho que quando vemos a pessoa sabemos. Espero encontrar alguém mas também não é algo que me preocupe e que me atormente.

Esse alguém tem de fazer Zumba?

Não sei… Mas se calhar o ideal seria que não.