Filipe Arruda

Catarina Wallenstein

Uma artista “à flor da pele”

Catarina Wallenstein nasceu em Londres em 1986. Teve formação francófona na era da globalização anglófona. Foi protagonista de Singularidades de uma Rapariga Loura, filme do mais internacional dos realizadores portugueses, Manoel de Oliveira. Subiu a um palco pela primeira vez no Teatro São Carlos em miúda para figurar como “anjinho” na ópera Fausto. Após uma curta mas recheada incursão pelo cinema e televisão, e de umas brincadeiras com o fado, Wallenstein está a descobrir o desafio do teatro profissional. A actriz-que-é-mais-do-que-actriz garante ao Life & Style que a conhecerão melhor vendo-a em palco do que lendo revistas em que se fala de tudo menos do seu trabalho.

Entra de rompante numa sala do mais recente aposento dos Artistas Unidos, em Lisboa, a uma hora de um dos últimos ensaios antes da estreia de Não se brinca com o amor, uma peça “de teatro de repertório” escrita por Alfred de Musset em 1834 e encenada por Jorge Silva Melo em pleno século XXI.

As primeiras palavras: “Debito muito rápido”. É assim Catarina Wallenstein, 24 anos, “uma amálgama de experiências, dúvidas e contradições”, como se identifica, por vezes difícil de seguir. Amiúde, acelera o discurso e responde “à flor da pele” para desmistificar ideias sobre o que é essa coisa de ser actor. Outras vezes, retrai-se num sorriso tímido, quase infantil.

Neste momento dedica-se em exclusivo ao teatro, mas não seria difícil encontrá-la a preparar um filme ou uma série de televisão, como locutora de um anúncio publicitário ou na dobragem de uma animação, ou ainda a cantar fado ou ópera, actividades que considera “complementares”. E o que liga tudo isto? “São coisas que quero defender e nas quais acredito e onde acho que possa aprender e crescer, mas com o mínimo de qualidade”. O verbo “crescer” é, aliás, uma constante durante a conversa: “Questiono-me diariamente como é que passo daquilo que já encontrei, [como] crescer mais”. A incursão no teatro profissional nos últimos meses vem ao encontro desta ambição de crescer em palco.

Outro denominador comum de todas estas actividades é o trabalho da voz, o “instrumento de expressão” de Catarina Wallenstein. “Só a falar, já é muito importante. No teatro, tenho não sei quantos meses de ensaio para perceber em que zona de voz, de emoção, é que aquilo funciona. Depois eu gosto de cantar, preciso de cantar, nem que seja só fazer lá-lá-lá”. Foi, aliás, no canto lírico que Catarina deu os primeiros passos no meio artístico antes de ingressar no ensino básico, com o coro da Fundação Musical dos Amigos da Criança. Em tom dócil, quase acriançado, Catarina recorda as primeiras óperas em que entrou: Carmen, Tosca e La Bohème, em versão infantil, no Teatro Nacional de São Carlos. “Eu era uma das criancinhas que andavam para lá a cantar e a correr de um lado para o outro. Adorei!”.

Em criança estudou violoncelo e mais tarde dedicou-se ao canto lírico de forma exaustiva. “A música está à minha volta, faz parte do que sou”. Cresceu envolta em melodias e ritmos - o pai é contrabaixista, a mãe é cantora lírica, o irmão está a estudar violino e integra uma banda de rock - e diz sentir necessidade de voltar ao canto. Apreciadora de jazz, rock e bossa nova, Catarina deu de ouvidos com o fado em Alfama, nos intervalos das aulas em Paris, ainda mal conhecia Amália. “Perguntava-me ‘Mas por que é que eu estou a ir aos fados?’ Depois entrei e ouvi a Carminho e fiquei muito fascinada. Mas que forma harmónica tão simples! Ao mesmo tempo é preciso um sabor tão especial para o fazer e que forma estranha de dizer as palavras!”. De espectadora curiosa passou a intérprete de fado – não fadista, salienta - em pouco tempo. Foi convidada para participar no programa mensal “Fadistas Espontâneos” – uma meia hora de fados por não fadistas, acompanhados por instrumentistas do fado - no restaurante do Museu do Fado, na capital, onde cantou temas como Naufrágio e Zanguei-me com o meu amor. Apesar de andar focada no trabalho da representação, não enjeita a ideia de uma carreira musical.

Um nome que não lhe pesa

Catarina Wallenstein nasceu em Londres em 1986. Aos 17 anos já dava nas vistas na série Só gosto de ti. Ao Life&Style confessa que esse facto não a pressionou de modo algum, nem tão pouco o Prémio L’Oreal Paris – Jovem Talento que recebeu no European Film Festival, em 2007. “Não sinto isso. Se calhar foi umas das coisas boas sobre as quais não pensei demais. Responsabilidade de quê? Porque o meu avô e o meu tio eram actores? Não. Ser jovem actriz? Não. Não sou boa sempre e queria tentar ser melhor cada vez mais, mas não posso fazer grande coisa senão trabalhar, estar interessada, ouvir os que sabem”. Catarina evoca os exemplos de actores mais velhos, como Catarina Avelar, com quem contracenou em Álbum de Família, peça de teatro do Teatro Aberto em que participou este ano.

Sabia que chegaria “a questão do Wallenstein”. Catarina é sobrinha do actor José Wallenstein e neta do célebre encenador e actor Carlos Wallenstein. Considera que o peso do apelido é “mítico” e não acredita que alguma vez tenha passado nos castings por causa do nome. “Alguém que não faça a mínima ideia de quem sou, olha e diz ‘Mais uma Wallenstein’. [Mas] acho que não é a coisa do ‘tens de ser tão boa quanto [a tua ascendência]’”. Embora mantenha uma relação próxima com o tio, Catarina nega que José seja paternalista perante o trabalho da sobrinha: “O meu tio não é aquela coisa de ‘tens que ser assim ou assado’. Está presente. Vejo na expressão dele se calhar algumas pequenas coisas. [Uma atitude de] ‘tens que aprender por ti’. Falamos de igual para igual e isso é muito bom”.

Apesar da tenra idade, não é fácil traçar uma sequência linear do breve mas já recheado percurso de Catarina no ramo da ficção. Nos últimos quatro anos tem feito cinema [Lobos, de José Nascimento, Um Amor de Perdição, de Mário Barroso Singularidades de Uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira, e Filme do Desassossego, de João Botelho], mas foi na televisão que se estreou oficialmente à frente das câmaras e chegou ao grande público, em séries como A Vida Privada de Salazar, Destino Imortal, Conta-me Como Foi e na telenovela Espírito Indomável.

Acerca da exposição pública que estes trabalhos lhe proporcionaram, mostra veemência e sobe o tom de voz: “[O que me incomoda] não é passar na rua e ser reconhecida. É acharem que aparecer nas revistas é ser actor, que o que é interessante é saber onde comprou aqueles óculos, onde foi passar férias, ou quem é o namorado. Não é uma questão de ‘ai, não quer contar’. É que isso não é central. As pessoas sabem mais sobre mim se me forem ver a trabalhar. Dou muito de mim àquilo que faço.” E o rótulo de sex symbol incomoda-a? “Acho que qualquer mulher gosta de se sentir atraente e bonita, mas também acho que é um bocado exagerado”, responde sorrindo.

Ingressar no mundo da moda não lhe interessa “de todo”. Aliás, Catarina afirma não ter paciência para escolher roupa e adereços. É com o auxílio de profissionais da L’Agence, que agencia Wallenstein, que se prepara para os eventos em que participa. “Entro completamente em stress na altura de escolher um vestido. Preciso de ter sempre alguém comigo. Sou péssima a tomar decisões”. Admite, porém, não descurar o visual: “Não considero que no dia-a-dia ande mal vestida. Gosto de me arranjar q.b., mas não gosto da responsabilidade de ter que ir a um sítio e ter que parecer assim ou assado, porque está lá o fotógrafo tal”.

All right, Mr. DeMille, I'm ready for my close-up

Na sessão fotográfica do Life&Style, Catarina Wallenstein - sabrinas nos pés, traje azul quase-hospedeira-de-bordo - enverga a roupa que vai usar nos dois primeiros actos de um texto escrito em 1834 por Alfred de Musset. Já não é Camille, jovem a sair do convento para o amor e protagonista de Não se brinca com o amor, que está no palco. “Estou um pouco pin up com esta roupa”, solta Catarina a sorrir, depois de trautear uma melodia fugidia. É agora uma actriz que lida naturalmente com as câmaras, a preparar várias expressões para uma série de flashes. Momentos antes, a actriz sintetizava assim a peça: “São dois miúdos que não percebem o poder que os jogos de sedução têm”.

No início deste ano, a actriz “estava a querer fazer teatro, só que não tinha sido chamada”. Surgiram dois convites, um para colaborar com a companhia Teatro Aberto e outro para os Artistas Unidos. Dois papéis para um ano. Um ano em que sabe que já perdeu uma oportunidade no cinema. “Ontem recebi uma notícia sinistra: perdi um filme. Acontece. Temos meses sem nada e depois as coisas encavalitam-se”. Catarina está ainda ciente da intermitência e da inconstância da profissão – esteve oito meses sem trabalho –, mas ainda assim garante, enérgica, que é por aqui que quer ir.

Até Álbum de Família, peça sob encenação de Tiago Torres da Silva, só tinha experimentado o teatro “sem responsabilidade” no ensino secundário, no Liceu Francês, e no Conservatório, em Lisboa. Numa entrevista por altura da primeira experiência profissional no teatro, este ano, Catarina afirmava o que diferenciava o teatro do cinema: “O palco é um abismo muito maior. Está a ser uma descoberta”. Actualmente, após ter ganho “músculo” em palco, admite que “esta relação com o medo está lá”, só que a confiança aumentou.

A propósito da tal descoberta em palco lança uma pergunta para lhe responder de seguida. “O que será diferente entre o cinema e o teatro? Não é assim tão diferente. Posso trazer aquilo [que aprendi no] cinema para o teatro e depois tenho que lhe pôr mais [camada] em cima". A base é a mesma, afirma: “Sou eu e a minha verdade. Tento não me enganar a mim própria, porque se me enganar a mim própria, corro o risco de enganar toda a gente que está no público, o que não quero”. Nesta altura, Catarina sorri, para logo a seguir “debitar” os seus anseios: “No cinema dá para pensar um bocadinho, no teatro estás sempre a remoer. Há dias em que a coisa é sofrida”. Logo de imediato acrescenta que não se está a queixar. Está consciente das dores de crescimento, garante. 

Na verdade a relação de Catarina Wallenstein com o teatro é remota: “Tenho memória de ir aos espectáculos infantis do José Pedro Gomes com os avós maternos, e de ir aos do ACARTE [na Gulbenkian], com a avó paterna, ver os espectáculos com a Fernanda Lapa, que tinham uma particularidade: as crianças ficavam na primeira plateia”, separadas dos adultos, sendo chamadas ao palco para fazer figuração. “Acho que fiz de árvore uma vez”, recorda. No Liceu Francês representou peças de Albert Camus e Shakespeare. Mais tarde, em Lisboa, Catarina ingressou na Escola Superior de Teatro e Cinema, onde fez papéis marginais.

No teatro “tem de se trabalhar com entrega e verdade”. É um meio que lhe tem permitido “analisar comportamentos humanos e desconstruí-los”. Ao Life&Style Catarina confessa que, ao encarnar a personagem Camille, tem tido espaço para explorar as contradições do ser humano. “A coerência é uma coisa tão estúpida e tão pouco humana. ‘Porque se disse aquilo ali, agora tenho de…?’ Não! Eu tenho de dizer isto e a seguir vou contradizer-me completamente e vou ser mais humana por causa disso”.

Catarina diz haver ainda na sua carreira na ficção margem de manobra para testar limites: “Esse é o grande desafio dos actores e do ser humano. Gosto de representar situações extremas”. Como referência, lembra as actrizes dos filmes do realizador dinamarquês Lars Von Trier, ou a interpretação de Isabella Rossellini em Veludo Azul, de David Lynch, um filme com a sua idade que viu recentemente pela primeira vez. Neste ou noutros registos, admira o trabalho de representação de Maria João Luís.

Esticando a conversa até aos extremos, os do Oriente estão no horizonte de Catarina há vários anos: “Quero ir à Ásia. Ao Laos e ao Camboja”. Para já, até Janeiro, Catarina andará mesmo no país mais ocidental da Europa, em digressão com os Artistas Unidos, por cidades como Almada, Coimbra, Guimarães, Guarda, Caldas da Rainha, Lisboa e Cartaxo. Não se brinca com o amor estreia hoje no Teatro Viriato, em Viseu.

 

Texto corrigido às 11:40 de 19 de Setembro