Júlia Pinheiro

"Vim para a SIC porque é a estação que está em último lugar"

A apresentadora e directora de conteúdos do canal de Carnaxide falou com o PÚBLICO sobre a troca de um líder, a TVI, pelo último dos generalistas na eterna luta pelas audiências e sobre uma carreira de 30 anos. Em tempo de transferências no mercado televisivo e antes de saber da saída do director de programas da SIC Nuno Santos para a RTP, Júlia Pinheiro mostrava-se satisfeita: são sinais de vida dados pelo mercado.

Vem de uma "digressão" pelo país em que se cruzou com o público potencial do seu primeiro horário na SIC - as manhãs, com Querida Júlia. Visitou mercados em Lisboa. Deram-lhe chouriças na estação de São Bento, no Porto.

Denuncia o cansaço. Mas a maquilhagem e o cabelo primorosamente arranjados disfarçam tudo. Já apresentou programas carismáticos da SIC como Praça Pública ou Noite da Má Língua. Evoca Carlos Cruz ou Herman José para dizer que saiu da SIC há oito anos porque estava demasiado perto do tecto de vidro da sua carreira. Queria crescer e sabia que tinha de se afastar dos senhores televisão. Passou meteoricamente pela RTP - quatro meses - e acabou por se fixar na TVI, onde esteve oito anos e se destacou como figura incontornável do daytime televisivo e na apresentação de entretenimento com pendor reality. De forma menos visível, definiu estratégias na direcção de conteúdos da estação. Em Janeiro voltou à casa de partida, como diz sobre esta sua nova vida na SIC. Voltou precisamente porque a SIC está em terceiro lugar, a cauda do pelotão da paisagem televisiva de massas actual. A entrevista decorreu três dias antes da confirmação da saída de Nuno Santos, director de programas da SIC, para a direcção de informação da RTP. O PÚBLICO tentou depois, e sem sucesso, confrontar Júlia Pinheiro com as consequências desta saída para a SIC e para as suas funções na estação.

Aceita ser uma das figuras mais bem pagas da TV nacional, não denunciando o ordenado muito discutido nos últimos meses - dos 50 mil aos 29 mil euros, tudo se arrisca na imprensa. Júlia Pinheiro desdramatiza o seu peso financeiro numa estação que há anos corta e lima custos. Assume-se como "rainha do trash" televisivo, aprendeu que as pessoas querem emoção na TV e adivinha a manutenção da programação orientada pelo reality por mais alguns anos nos ecrãs. Além de apresentadora de duas apostas fortes da estação para 2011 - a estreia, dentro de meses, de O Peso Certo/The Biggest Loser e, já amanhã de manhã, de Querida Júlia, a sua ofensiva à manhã líder que desenhou na TVI, conduzida por Manuel Luís Goucha e Cristina Ferreira -, Júlia Pinheiro é directora de conteúdos da SIC, o que significa que se preocupa com os serões da SIC Mulher ou com as madrugadas da SIC Notícias, bem como com os talk-shows da SIC Radical onde, aliás, o seu filho Rui é apresentador das tardes. Gosta de falar, frisa os seus amores e ódios, não foge a controvérsias, sempre no registo inquieto e no tom de voz que lhe é particular. A "senhora televisão"?

Estreou-se em televisão em 1981, na RTP. Já tem 30 anos de carreira.

Eu tinha acabado de fazer 19 anos - julgo que soube que tinha passado no casting exactamente no dia em que fiz 19 anos. Foi há 30 anos, num programa execrável chamado Estamos Nessa. Foi resultado de um megacasting feito pelo país todo pelo jornal Se7e, que alinhou com a RTP para arranjar novos apresentadores de televisão para um novo programa de divulgação musical, hoje uma espécie de Top+. Era para substituir o ViváMúsica, apresentado pelo Jorge Pêgo, que viria a ser meu cunhado. Lá cheguei aos sete finalistas e só dois ficámos a trabalhar na área da comunicação - eu e o Paulo Alves Guerra [actualmente na Antena 2].

O que são 30 anos de TV, com uma passagem pela rádio, na vida de alguém?

É todos os dias continuar tão apaixonada quanto. Este é o tipo de actividade no qual se entra e depois é muito difícil sair. Não sei, nunca saí, mas acho que hoje tenho uma paixão renovada pela actividade - primeiro, porque a entendo muito melhor, há 30 anos era na base da inconsciência, era um fascínio. Hoje tenho um olhar que passa por várias coisas, vários anos. Neste momento estou muito expectante em relação ao que acho que deve acontecer em todos os ciclos e momentos de alteração de paradigmas de consumo e de avanços da tecnologia. Só caí em mim há um ou dois anos sobre o facto de que a minha geração iria ter de ser aquela que ia dialogar de forma directa com aquilo que será o futuro da televisão. Daqui a quatro, cinco anos já não vamos consumir televisão como consumimos agora. As televisões generalistas ainda terão um peso grande, mas estamos de facto à beira de um mundo novo. Eu sabia, mas de repente o futuro bateu-me na testa. É a minha geração, faço parte dos profissionais que têm de ser práticos, lúcidos, que têm de ter sentido de pragmatismo, de dever e de atitude para fazer esta passagem.

Como é que vê esse futuro?

Lá está, com muita expectativa - não é com medo. Quem tem medo compra um cão, não é? Vai ser diferente e certamente trará, para quem gosta e consome de televisão, outras zonas de conforto que actualmente não temos. E espero que nos liberte a nós, operadores e cada vez mais produtores de conteúdos, para fazermos outro tipo de coisas. Porque como a audiência será avaliada de outra maneira, até a nossa lógica de mercado se alterará e vai ser muito curioso ver é como se calhar, a partir de determinada altura, o que interessa mais na nossa indústria não é tanto a lógica de uma grelha - que vai desaparecer, porque cada pessoa fará a sua grelha.

Estamos a falar do on demand.

Não só, mas também com a chegada da TDT [Televisão Digital Terrestre], em que as pessoas escolhem o que quiserem à hora que quiserem. Não quer dizer que as pessoas vão logo começar a consumir televisão desta maneira, vai demorar muito tempo até que as generalistas tal como as conhecemos desapareçam. Mas vêm aí coisas novas e temos de estar preparados para essas novas exigências de consumo. Estou com muita expectativa para ver como vai ser. E aí o que vai valer são conteúdos fortes, marcas próprias diferenciadoras que as pessoas tenham como referência e que são fundamentais para a sua ligação ao meio. Os apresentadores serão cada vez mais marca, terão cada vez mais importância, porque as pessoas já não vão ver a SIC ou a TVI ou a RTP, mas sim o apresentador A, B ou C. Vai ser muito interessante participar nessa nova distribuição.

Disse numa entrevista: "Estou a projectar muito mais de mim neste formato do quem em todos os outros que já fiz." O que é que isto quer dizer?

Quer dizer que nesta altura da minha vida profissional, e julgo que posso reclamar para mim alguma maturidade, hoje tenho uma gestão muito mais tranquila e serena do que deve ser a projecção de mim própria num conteúdo de televisão do que no passado. Acho que de forma generalizada, nós todos, apresentadores, temos uma atitude um bocadinho defensiva, não nos revelamos muito. Eu não. Sempre falei muito, sempre mostrei muito. O personagem televisivo é exactamente igual ao personagem fora do ecrã porque, justamente, às vezes não sabemos onde está a baliza. Hoje, com a maturidade que tenho, acho que me posso expor um pouco mais e mostrar um pouco mais de mim. O formato que vou começar é um programa daytime absolutamente comum e igual aos outros. Tem é aquilo que eu chamo lógicas de encadeamento e alinhamento diferentes do que os meus concorrentes estão a oferecer. E nesse aspecto há ali uma mancha em que vou ter de dar um bocadinho mais de mim do que normalmente dou. Estes programas são sempre feitos apenas e só na entrevista ou nos momentos de animação que não têm uma dimensão de espectáculo tão marcada. E eu espero que consigamos fazer um bocadinho mais de espectáculo. Showtime logo de manhã!

Podemos saber um bocadinho mais?

Não. [risos]

Quando regressou à SIC, dizia que achava que este é o canal mais bem preparado para responder a esses novos desafios da mudança de paradigma televisivo. Porquê?

A SIC é a estação pioneira no negócio do cabo, já se reestruturou internamente para ter várias frentes e o negócio do cabo é muito importante - desenvolveu-se e não é apenas uma excrescência que vive junto do canal-mãe. Grande parte do que se vai passar no futuro tem a ver com estas formas todas de consumir televisão que passa pelo cabo, pelo on demand, pela TDT. Não quero estar a fazer comparações com a TVI, mas a TVI esteve sempre muito mais centrada na sua operação no canal principal e não tem esta experiência e dimensão. Além disso, a SIC tem esse caminho muito mais desenvolvido do que as estações concorrentes, à custa de uma visão acertadíssima do que são as novas tecnologias, o multiplataformas, quer a nível comercial quer a nível tecnológico. Quando me foi posto o desafio de vir para cá, isso pesou.

E quanto à posição que a SIC ocupa hoje no mercado, os conteúdos que oferece, o que a estação é hoje? Isso também contou?

Uma das razões por que eu vim para a SIC foi porque a SIC é a estação que está em último lugar [o terceiro nas audiências entre as generalistas concorrentes, com a RTP2 em quarto]. Porque se eu quisesse certezas e viver no conforto, ficava onde estava, na estação líder. Vivia agarrada, como de resto todos os líderes têm de viver, à ideia de que não posso perder um ponto, porque a cada meio pontinho que eu dou a minha liderança vai-se. Como acho que aos 49 anos ainda não estou definitivamente interessada em certezas absolutas, acho que a dúvida é motivadora e nos faz ir para a frente, achei que fazia todo o sentido passar para a estação com menos competitividade no mercado, aquela que está mais fragilizada e que precisa de ajuda para crescer. E depois de seduzida durante um ano e meio, de me terem feito a corte violentamente [riso], de ter achado que na TVI não era pela minha saída que a liderança era ameaçada - a TVI tem o seu percurso para fazer, um dia destes as coisas também mudam porque o mercado é assim -, eu vim para aqui tentar ajudar a SIC a crescer.

Na última década, a TVI surge como líder quase intocável na luta pelas audiências e, ao mesmo tempo, a SIC e a RTP digladiam-se pelo eterno segundo lugar...

A TVI tem descido, há sinais.

Dizia há dias na imprensa que "a médio prazo a SIC será líder". Como? E quais são as balizas desse médio prazo?

Quando, não faço ideia, vai demorar muito tempo. A liderança não acontece num dia, é um trabalho de anos provavelmente. Este ano temos condições para crescer e de uma forma que vai dar sinais muito interessantes para o mercado. É uma empresa, que tem de ter receitas, e as pessoas têm de olhar para nós como uma força competitiva. Conteúdos: ora a SIC tem no seu ADN fundador a ideia de fazer diferente, de mostrar coisas que os outros ainda não mostraram, de estar muito atenta aos sinais dos que nos vêem e acho que temos de marcar muito a nossa matriz portuguesa. O que nos vai trazer dividendos é sermos intrínseca e contemporaneamente nacionais e a nossa diferenciação passará por aí. E pela ruptura, pela originalidade, atrevimento. Uma estação que está em terceiro lugar pode fazer coisas que as outras não podem.

Quando fala em marca nacional, foi a TVI que com a sua produção de ficção, sobretudo de novelas, que se ligou desde logo a essa marca; e o daytime de qualquer generalista é "nacional"...

Sem dúvida, mas eu reservaria, e para não dizer muito mais, que o nosso caminho é levar essa dimensão do nacional ainda mais longe.

Exportando? É isso? Porque é algo que a TVI, com a Plural, também já faz.

Isso também pode acontecer, mas é muito importante para a TVI com a Plural como braço armado que vende para uma série de sítios. Nós aqui não temos essa expressão. O que eu digo é criarmos uma identidade e uma proximidade com o público cada vez maior, buscando caminhos para essa ligação tendo em conta que estamos em 2011 e que o público da SIC não é igual ao da TVI nem ao da RTP e que temos de marcar a nossa singularidade.

Há um certo desafio na conquista desses públicos.

Todos os dias [risos].

No caso do Querida Júlia, de que forma quer ir então à procura do público da TVI?

Da TVI não, do nosso. Mas, se puder roubar algum à TVI, fico muito contente. Ele tem de vir de algum lado! Mas o que acho que se tem passado em relação ao daytime, que é absolutamente estruturante para uma estação, é que tem havido [na SIC] um certo afastamento, uma certa falta de ientifi cação de rostos. O daytime é feito de hábitos, de certo tipo de rotinas - detesto rotinas nos programas e o Querida Júlia só terá uma, que sou eu a apresentá-lo todos os dias -, mas acho que se perdeu cumplicidade e afectividade porque o daytime é feito desse piscar de olho.

Envolve uma grande fidelização. Exactamente, e acho que se perdeu aí qualquer coisa.

Eu tenho de trazer essas pessoas de volta, tenho de as agarrar para mim.

Esta digressão pelo país [a apresentadora visitou várias cidades com a equipa da SIC] já é trabalhar nisso?

É tudo uma espécie de metáfora, que começa com a promoção, em que eu apareço de carro, de fato-de-macaco - ou seja, não estou no campeonato do glamour, nem do chique, nem do sofisticado -, de camião de caixa aberta em que vou na rua convencendo as pessoas a entrarem no camião comigo. É uma metáfora obviamente, a ideia é que estamos cá todos. Não tenho a pretensão de achar que as manifestações de carinho de que fui alvo são retrato de seja do que for em termos de audiência. Mas são sinais.

Isto é a SIC a regressar à sua origem? A SIC, nos seus primeiros anos, trouxe-nos programas como Perdoa-me, All You Need Is Love, Ponto de Encontro.

Os reality são da TVI, esses não eram reality em sentido absoluto.

Mas foi nessa altura que se começou a discutir o conceito cá.

Os reality têm a ver com a vivência directa e continuada de um conjunto de seres. Ali estávamos a trazer pela primeira vez a componente espectáculo, uma série de coisas que não tinham sido ainda vistas em Portugal. Mas eu gostava mais de ir reclamar à fundação o jornalismo de cidadania, o Praça Pública, a sensação de que a estação era uma espécie de espelho. A SIC foi a primeira estação que elevou para protagonista o anónimo e que criou espaços onde o pequeno acontecimento, que ficava fora da agenda política ou do dia, era nobre e rei. Eu quero é agarrar isso.

Nos antípodas do anónimo estão as celebridades, os famosos. Também se escreveu que vai ter uma rubrica dedicada a paparazzi e à perseguição de figuras públicas no seu programa. Como é que enquadra isso?

Não vou ter paparazzi nem nada disso. De todo, não tenho a menor intenção de fazer paparazzi.

Como foi o regresso a esta estação, da qual saiu numa altura tensa [que coincidiu com a saída do fundador Emídio Rangel]?

Que mudanças, ou permanências, encontrou? Eu saí desta estação numa altura em que ela vivia o seu primeiro grande cisma. E saí também num plano que não é o que tenho hoje. Na altura era apresentadora, embora me fosse dada alguma liberdade editorial para estar muito envolvida a formatar algumas coisas. Foram as minhas primeiras experiências nessa matéria, com a Noite da Má Língua.

Quando me fui embora, fui-me embora de uma empresa que estava numa fase de crescimento difícil. Fui por uma questão pessoal pura, que era a necessidade de crescer profissionalmente porque esta estação tinha as estrelas todas no mercado, que eram mais velhos, custavam muito mais à casa do que eu e por isso, claro, tinham de ser aproveitados em horários de maior exposição - estou a referir-me a pessoas como o Herman [José], o Carlos Cruz, que seriam sempre primeiras opções em vez de me darem um formato de prime time a mim. E eu senti claramente que tinha batido com a cabeça no tecto e que tinha de me ir embora. Hoje regresso fazendo parte da direcção, com um lugar na estrutura e venho para participar de uma forma activa e com muito trabalho no desenvolvimento da estretégia e planificação. Estou muito envolvida. Há muitos rostos do passado, que é bom rever, há muitas caras novas. Não é a mesma empresa. Mas é uma empresa onde conheço muita gente.

Na luta das audiências, a Júlia tornou-se numa voz essencial no daytime TV tanto da TVI quanto da SIC. Quais são as diferenças de fazer TV em directo durante o dia e no horário nobre?

O daytime é feito de rotinas e de uma certa desconstrução. É uma coisa de proximidade. É uma televisão que embora seja aparentemente doméstica, porque tem uma certa linguagem do doméstico, é um produto de grande sofisticação. Parece ser muito simples de fazer, mas é muito mais difícil do que parece. É feita de proximidade, do carinho, do dia que passa e as pessoas seguem quase diariamente a narrativa que colocamos no ar. No meu entender, o registo deve ser esse, de uma certa domesticidade, pode-se falar da chouriça, do cão, do que existe na vida de todos nós - porque é disso que falamos quando estamos juntos. É um bocadinho o prolongamento da janela da vizinha.

O velho "fazer companhia"?

Não é só companhia. Abomino quando me dizem que o daytime é uma coisa menor. Não é. Aliás, deve ser das coisas mais difíceis de fazer até se chegar à fórmula boa e tem uma grande importância na passagem de algumas mensagens, de alguma pedagogia e informação, faz-se jornalismo seriíssimo nestes espaços. Há sempre uma tentativa de menorizar estas pessoas e estes profissionais e fico assanhadíssima quando isso acontece. Acho que fazemos, em Portugal, um daytime excelente comparado com o que vemos noutros países. O prime-time tem de ser feito, hoje e no estado actual do mercado, em cima de uma ideia muito boa, de um formato que tem de ser desafiador para os espectadores, que tem de ser uma coisa nova - embora hoje em televisão fazer coisas novas seja cada vez mais difícil -, tem de ser surpreendente e de ter um nível de apuro técnico e de espectáculo. Acho que mesmo que seja para pôr um prego na parede, em televisão tudo tem de ser feito com escala. À noite então, isso é tudo elevado ao superlativo. Deve haver registos diferentes e de formato para formato devemos sempre reiventar-nos um pouco, dar ao público algo de nós que ele ainda não viu.

Essa diferenciação estava a acontecer?

Nos três canais, temos alguns dos apresentadores mais carismáticos da TV, quer no programa da manhã quer no da tarde. Eu acho que sim, que somos todos diferentes. A RTP claramente apontou para uma fórmula para públicos mais velhos - o Jorge Gabriel e a Sónia Araújo, que são excelentes comunicadores, têm um registo um pouco mais calmo, menos exuberante para as pessoas que se calhar não apreciam tanto o frenesim que tínhamos na TVI. Na TVI, a manhã foi desenhada - e fui eu que a desenhei, por isso falo à vontade - para o Manuel [Luís Goucha] e para a Cristina [Ferreira] terem uma componente quase de alguma comicidade, de grande desconstrução de si próprios e eles fazem-no maravilhosamente. Às vezes é tudo um bocadinho over, over acting, mas funciona muito bem. A tarde tem outro registo, é mais confessional, deve ser mais tranquila e deve ter, na minha opinião, picos de narrativa - umas coisas mais tristes, outras mais alegres. Eu, quando fazia o programa da tarde, era mais sossegada, mas tinha uns dias em que estava mais transtornada e atirava-me para o chão. Com a Fátima Lopes, é tudo mais igual, tem um registo mais sereno porque ela também é naturalmente assim. Por isso acho que somos todos diferentes e que imprimimos essa diferença na forma como comunicamos.

Voltando à noite e a uma das apostas da SIC, o Biggest Loser, quem decidiu trazer para Portugal este sucesso de audiências da SIC Mulher?

A decisão já estava tomada quando eu cheguei, pertence ao Nuno Santos. Espero um grande sucesso porque o programa criou uma grande expectativa, a versão americana popularizouse de uma forma que nos surpreendeu a todos. Cresceu imenso, à conta disso o cabo subiu, o cabo agora é o grande inimigo [risos]. É novo, não é um programa sobre pessoas doentes, embora tenha esse elemento, é um programa sobre histórias de superação, de abnegação, de sofrimento, e isso provoca emoção. E as pessoas só querem ver uma coisa em televisão - emoção.

E quais são os limites para essa emoção?

Há dez anos que vivemos a era dos reality shows. Decência e dignidade. No Biggest Loser haverá o maior dos cuidados clínicos, todo o rigor. Às vezes interpelam-me sobre a participação em reality shows, há pessoas que são capazes de me cuspir em cima, sei lá, porque eu costumo dizer que sou a rainha do trash, mas estou de consciência absolutamente tranquila. Em qualquer programa em que eu tenha participado, nunca, nunca se ultrapassou esse limite da dignidade e da decência. Quando aconteceu, é porque se calhar os protagonistas não se deram ao trabalho de se defender, e isso é outra coisa, e em directo pode acontecer muita coisa que a gente não controla. Mas na minha responsabilidade directa, tenho a certeza de que nunca o fizemos.

Como profissional de TV e alguém que foi também uma das contratações-chave desta "época de transferências" entre os generalistas portugueses, como vê as movimentações do mercado dos últimos meses?  José Alberto Carvalho, Judite de Sousa e Maria José Nunes na TVI, Manuela Moura Guedes e Gabriela Sobral na SIC, etc.

Estou tão contente, tão, tão contente que não imaginam.

Porquê?

Temos três sítios para trabalhar, eu já voltei à casa de partida não é? [risos] De vez em quando há uns ciclos. Acho que o Zé Alberto e a Judite tomaram uma opção certíssima, embora imagine que no caso da Judite de Sousa deve-lhe ter custado horrores, são 30 anos num sítio. Eu sou pela mudança, porque nos obriga a crescer, a bater de frente com coisas que não conhecemos. Não é matéria fácil mudar a informação da TVI. E estar na pública é muito difícil. Estive lá quatro meses e chegou-me.

E o que acha que isto diz do mercado, houve aqui um momento de dinamismo?

Que estamos vivos. É o momento, não tenho dúvidas de que eles foram para a TVI porque a privada tem possibilidade de fazer coisas que a pública não tem. Pelo que sei, a RTP não é uma empresa fácil onde se trabalhar, porque tem constrangimentos vários, porque tem obrigações diferentes dos privados. No caso do Zé Alberto, devia haver saudades dessa liberdade, no caso da Judite, vai experimentar!

Mas haverá mesmo a intenção de mudar a informação da TVI? Será fácil?

Não tenho a menor dúvida. Para que é que eles querem estes profissionais? A informação da TVI tem o seu ADN criogenizado. A saída do José Eduardo promoveu ali uma ruptura e um vazio. Não esqueçamos como, nestes dois anos, a informação se descredibilizou, como foi alvo de ataques, uma série de vicissitudes que aqueles profissionais estoicamente aguentaram. Era preciso refundar e isto é uma refundação. E ainda bem. Palmas.

Também a Manuela Moura Guedes vem para a SIC. Quais são os planos para ela?

Sobre isso gostaria que falassem com o Nuno Santos.

Mas a Júlia também está na direcção de programação...

Não, o que posso dizer é que estamos a desenhar para ela e com ela um programa com um perfil igual ao dela, desassossegado, provocador, surpreendente. Uma fórmula que não deixe as pessoas indiferentes. Vai contar com outras pessoas. Mas com estas mudanças todas não sei o que se vai passar. Havia pessoas dispostas a aceitar coisas que agora... não sei...

Será para Setembro?

Eu sei lá o que vai acontecer em Setembro! Não, será antes.

Tem-se tentado descobrir qual o seu ordenado ao mesmo tempo que se fala de um certo descontentamento na SIC com esse valor, associado às medidas de contenção que a estação promove há anos.

Eu quero só deixar clara uma coisa que se calhar ainda não ficou esclarecida. Eu ganhava muito bem na TVI. Muito bem mesmo. Não aconteceu nada de exótico, de estratosférico, quando passei para a SIC. Não me ofereceram uma moradia no Havai e três nas Baamas de baixo e mais um cachet... É um ordenado ao nível das remunerações mais altas da casa e do mercado, mas perfeitamente normal. Nada de estranho e bizarro. Ganho mais ou menos a mesma coisa que ganhava na TVI.

Não é a pessoa mais bem paga da televisão portuguesa, como se especula?

Não faço ideia. Mas se não sou vai haver porcaria! [risos] Tirando aqueles que trabalham na pública, que de vez em quando vêem os seus ordenados nos jornais, ninguém faz a mais remota ideia de quanto é que os outros ganham!

Fale-nos um bocadinho da Júlia Pinheiro fora da SIC.

Existe?

Como é que são os consumos de media lá em casa, com tanta gente ligada aos media [o marido, Rui Pêgo, é director da rádio pública e o filho, também Rui, é apresentador de Curto Circuito na SIC Radical].

Lá em casa temos o hábito da TV em regime familiar, mas eu vejo muito a informação quando chego, para ver o que se está a passar. Vejo as estreias dos outros. O meu filho vê TV no computador e está-se nas tintas para nós. Mas vejo com o marido e as filhas. No entanto, não passo muitas horas à frente da TV.

Mas fora daquilo que tem de ver por obrigação inerente ao cargo, o que é que gosta mais de ver?

Sou uma furiosa consumidora de séries como toda a gente, uma furiosa consumidora de cinema e de notícias. Vejo os canais estrangeiros de notícias, um hábito um bocadinho decorrente da minha formação jornalística, do tempo que passei em redacções. Nunca nos conseguimos afastar da emoção e dessa génese. Com o meu marido, vejo muita informação.

Ainda tem o jornalismo em si?

Acho que o pratico diariamente, embora travestido de outros sinais. Aquilo que fazemos nos programas de daytime não é mais do que jornalismo com uma certa componente de emoção e de um certo sentido de espectáculo. Mas é jornalismo como vocês fazem. Tem é outra roupagem. Não podemos enganar-nos no que as pessoas fazem, não podemos não verifi car factos, não podemos lançar para o ar coisas não fundamentadas, não se pode avançar em certas matérias sem exercer o contraditório, faz-se investigação. É jornalismo puro. Tem é outra moldura.

E a sua actividade de professora universitária?

Essa também está congelada. Gostava de praticar com mais tempo. A última pós-graduação que fi z foi há dois anos. Tenho um grande prazer em ensinar o que as pessoas estiverem dispostas a aprender. Mais do que ensinar técnicas de apresentação ou ajudar as pessoas a descobrir a sua capacidade de comunicar, o que é preciso ensinar a esta gente mais nova é centrá-los em relação àquilo que é esta actividade. Muitas pessoas vêm para este sector convencidas de que trabalhar em televisão é uma coisa que tem como prolongamento apenas os sinais do sucesso e da notoriedade, o frou-frou das revistas, das festas, no fundo o que é menos importante nisto tudo. Estes cursos de comunicação preparam para uma série de coisas, mas não preparam para um certo pragmatismo do que se passa nas redacções e no entretenimento. A minha aula passa por escová-los de alto a baixo sobre o que são as certezas deles, obrigá-los a reflectir sobre o que é a realidade da indústria. Ultimamente não tenho feito tanta formação porque acho que não temos mercado de trabalho para esta gente. Embora sejam importantes em matérias de personalidade e de comunicação no geral, achei que não devia agravar esta falta de capacidade da indústria em absorver gente. As coisas não vão acontecer com a facilidade que elas pensam. Não devemos criar expectativas.

Temos visto três grandes eixos de tendências de programação nos últimos anos: desde os ciclos noticiosos de 24 horas à ficção americana, as séries, passando pela ficção nacional - as novelas - e todo o mundo dos reality shows. Como é que vê os futuros e novos ciclos de produção televisiva?

A nível de tendência internacional estamos muito nos spin offs [derivados] dos reality. Isto é a base de muitos formatos, talvez dos mais interessantes. Reparem: são uma grande operação financeira para uma estação que são amortizados em vários segmentos. É uma operação que acaba por ser vantajosa. Só por isso é que se tornaram no que são. Não é porque os programadores têm uma pancada voyeurista. [Estes programas] têm um impacto muito positivo na grelha. Em Outubro em Cannes [na feira MIPCom, um dos maiores mercados de produção televisiva do mundo] era o que se via ainda. Os fornecedores estavam muito entusiasmados com o lançamento, cá, da Casa dos Segredos [o programa mais visto em 2010 em Portugal] porque provava que em mais um país do mundo a coisa estava a dar. Mas vamos ter seguramente formatos que vão ser consequência daquilo que são as redes sociais. E self made content, onde é o espectador que contribui com o seu próprio conteúdo. Cada vez mais, há a ideia de que isto se vai fundir tudo, TV e Internet. Vai ser uma das grandes tendências de futuro, embora ainda não haja modelo de negócio para isso, nem esteja sistematizado. Mas ainda temos uns anos de formatos tradicionais pela frente.

Texto originalmente publicado na Pública