Carlos Ramos

Allan Hobson

Devíamos ser mais neutrais em relação aos sonhos

Acha que sonha com o que lhe aconteceu ontem? Este professor de Harvard, que esteve em Lisboa para participar nos Diálogos Mente-Corpo da Universidade Católica, diz que sonhamos para o amanhã.

Explique-nos a sua abordagem aos sonhos e em que medida se afasta da sua tradicional interpretação?

Haverá sempre interpretação de sonhos porque, quando sonhamos, o nosso primeiro impulso é tentar explicá-los. Como se fossem histórias pessoais. Os meus sonhos são coloridos pelas minhas histórias e os seus, coloridos pelas suas histórias, mas têm certos aspectos em comum. Interessa-me as propriedades universais dos sonhos. Quando sonhamos estamos desorientados, não sabemos que horas são ou quem são aquelas pessoas, pensamos que estamos acordados mas estamos a dormir - isso é comum. A diferença entre uma abordagem formal e uma abordagm dos conteúdos é clara. Mas as pessoas vão ler isto e ainda vão pensar, "Ok, mas eu quero mesmo é saber o que é que este sonho significa".

Talvez porque os sonhos são pessoais.

Um céptico diria: tem a certeza de que é pessoal? Podíamos fazer uma experiência: pegar em cinco sonhos seus, cinco meus, cinco de outra pessoa, e dar a alguém para dividir por pilhas. Essa pessoa poderia separar os sonhos por indivíduo? Não seria possível. Não é possível por exemplo distinguir o sonho de um homem do de uma mulher.

Como é que se interessou por esta área?

Comecei como psiquiatra e tive uma educação com uma componente freudiana forte, que respeitava, mas não me convencia. No início dos anos 60, fui parar por acaso a um laboratório de sono e fui ver as pessoas dormir, os músculos relaxados, os olhos a moverem-se. Quando se vê o sonho em associação com a actividade do cérebro, é uma experiência impressionante. Porque o cérebro está activo e a pessoa tem ideia de que está simplesmente a dormir.

É contra-intuitivo, porque achamos que a dormir estamos a descansar.

Na barriga da mãe, em determinada fase, estamos em sono REM (Rapid Eye Movement). O cérebro está activo antes de qualquer experiência do mundo exterior. Quando somos bebés, temos quatro vezes mais sono REM. Trata-se de um processo de desenvolvimento, antes sequer de se começar a sonhar. Digamos que, quando está a dormir, o cérebro está a praticar para quando está acordado. O sono REM não é simplesmente para ter sonhos, é para estarmos acordados. Temos 100 mil milhões de neurónios - mais do que pessoas no mundo. O cérebro processa informação a uma velocidade que nem conseguimos compreender. Parece fácil, acordamos e tudo funciona. Mas é um feito.

Porque é que temos pesadelos?

A verdade é que a maior parte dos sonhos são maus. A ansiedade é a principal emoção dos sonhos. A ansiedade é útil, é um mecanismo de sobrevivência, e o cérebro está a preparar-se. A pergunta devia ser: como é que não temos pesadelos sempre? Quando as pessoas desejam boa noite e dizem "bons sonhos"... Bem, não é uma grande aposta.

Como podemos dormir melhor?

A primeira coisa é não nos preocuparmos com os sonhos. Devíamos desenvolver uma atitude mais neutral em relação aos sonhos

Como é que entra em jogo a imaginação?

Estou a fazer uma investigação com cegos, mudos e pessoas com paralisia congénita. Nos sonhos, os cegos vêem, os surdos ouvem e os paralíticos andam. Eu nunca voei. Mas vejo como um pássaro voa. Então aprendo a voar nos sonhos, e sonho com voar de forma totalmente convincente. O meu cérebro é capaz de criar uma ficção realista. Quando sonhamos, inventamos histórias fantásticas. E acreditamos nelas.

Explique o seu conceito de "protoconsciência".

"Proto" quer dizer "anterior". A ficção do sonho não é uma repetição da realidade, é uma preparação para a realidade. Ao tentar interpretar, uma pessoa pensa que o que aconteceu hoje explica o sonho ansioso que tem à noite. Não tem a ver com o que aconteceu hoje, tem a ver com o que pode acontecer amanhã.

Texto originalmente publicado na Pública