Adriano Miranda

Dicionário dos Alimentos

B de Borrego

Se o bacalhau e o peru estão no topo das tradições de Natal, também o cabrito e o borrego ocupam o seu lugar na consoada em algumas regiões do país.

O borrego pode até nem ser das carnes “vermelhas” com uma maior quantidade de gordura (apenas 5% em cru). No entanto, como em qualquer assado que se preze, este valor de gordura pode triplicar fazendo deste prato uma excelente iguaria de Natal ou de qualquer outra ocasião esporádica e especial. A banalização deste tipo de prato é que se torna desadequada quer no que concerne à tradição quer do ponto de vista nutricional.

E o que há a salientar da tradição do borrego no Natal, tal como de todos os outros pratos e sobremesas típicas, é justamente o seu enquadramento sem sentimentos de culpa nem contagem mental de calorias no Natal e só no Natal. Não na semana que antecede o Natal, quando os preparativos da consoada já aguçam o apetite e os jantares se multiplicam pela empresa, clientes e vários grupos de amigos, nem na semana que faz a ligação à passagem de ano, quando todas as sobras dos dois dias de festa são repetidas até à exaustão. Quando os dois dias de “natural” desequilíbrio natalício se transformam em 15, aí sim fica comprometida a eficaz gestão do nosso peso, sobretudo se não existir a devida compensação quer ao nível da alimentação nas refeições “não-festivas” desse período quer numa maior frequência de actividade física.

Mas voltando ao borrego, apesar de ser inevitável a adição de gordura na sua confecção, uma boa limpeza do sebo e uma marinada cheia de coisas extraordinariamente aromáticas como vinho branco, alho, cebola, pimenta, colorau, louro, etc. permitem uma mão mais leve aquando da adição do azeite e sal, conferindo o sabor que tanto gostamos a troco de menos calorias.

Passado o Natal, fica assim a mensagem para um controlo menos rígido e mais flexível nestes dois dias em que devemos disfrutar de tudo o que está à nossa disposição. Se a palavra “compensação” for mais recorrente por estes dias, com certeza que não haverá peso a mais… na consciência.

*Assistente Convidado da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto
pedrocarvalho@fcna.up.pt