Alessia Pierdomenico / Reuters

A questão da satisfação feminina

Iniciei a minha vida sexual há quatro anos e já estive com vários homens mas, até agora, nunca tive um orgasmo. Neste momento tenho um namorado de quem gosto imenso, mas não sou capaz de lhe contar este meu "segredo". Já fizemos sexo, mas acabei por fingir que tinha atingido o orgasmo. Na primeira vez em que questionei o ginecologista sobre esta situação, ele explicou-me que nem sempre se atinge o orgasmo numa relação. Mas já passou tanto tempo que começo a pensar se terei algum problema...É normal?

A ausência do orgasmo é sempre motivo de preocupação e frustração. Apesar de, aparentemente, ouvirmos falar dele como se fosse a coisa mais comum do mundo, muitas mulheres sentem dificuldade em consegui-lo e algumas nunca o experimentaram.

Estamos habituadas a achar que o orgasmo é a única forma de provarmos que temos prazer, mas não é bem assim. Existem muitas mulheres que se sentem satisfeitas nas relações sexuais, mesmo que o orgasmo teime em não acontecer. Mentimos acerca dele, entre muitos motivos, porque receamos magoar os nossos parceiros temendo que se sintam maus amantes ou porque nos culpamos por não conseguir competir com as amigas ou os gritos da nossa vizinha (até porque parece que existem só para elas...). Fingimos porque nos sentimos culpadas, diminuídas.

Apesar da culpa que carregamos, esta dificuldade é mais comum do que se pensa. A maior parte das mulheres tem dificuldade em atingir o orgasmo porque não consegue ficar suficientemente excitada. Perante a ausência de prazer potenciado pelo orgasmo, é preciso perceber junto das mulheres como é que elas vêem o sexo, como é que se vêem a si e o que é que pode estar a bloquear esta capacidade. É importante identificarmos a fonte da dificuldade. Sente que consegue excitar-se? Já experimentou a estimulação adicional no clítoris? Consegue atingir o orgasmo com a masturbação? Faz contracepção ou alguma medicação que possa influenciar a excitação como antidepressivos, por exemplo?

Quanta mais culpas as mulheres carregarem, mais dificuldade terão em conquistar o seu prazer. É importante que conheça o seu corpo e as suas zonas de prazer. É importante que não se limite à vulva e à vagina, que aumente os preliminares e que não procure o orgasmo exclusivamente na penetração. Não tenha receio de partilhar com o seu parceiro a sua dificuldade. Mentir não vos vai ajudar. O seu parceiro pensa que a satisfaz e, por isso, acaba por não tentar outras formas de chegar, efectivamente, a fazê-lo. Não esconda que o seu prazer é mais exigente e faça-o compreender que tudo até ao orgasmo é igualmente bom. Não pense que, por existir esta dificuldade, não tem direito ao orgasmo! Pense sim que o desafio de o conquistar tem de começar em si! Sem medo e constrangimentos, "meta mãos (e dedos) à obra": procure conhecer o seu corpo, adicione fantasia pensando em algo que a excite e experimente tocar-se. Use a sua fantasia como um motor de arranque e deixe-se ir. Se não for à primeira, alguma vez irá acontecer.

Ponto Quê: O prazer no Feminino

Vânia Beliz

Licenciada em Psicologia Clínica e Mestre em Sexologia, Vânia Beliz dedicou os últimos anos ao estudo da sexualidade cujos resultados tem vindo a partilhar em diversos meios de comunicação social, seminários, palestras e em eventos como o Salão Erótico de Lisboa e do Porto.

Tem consultório em Vilamoura e, em Maio de 2011, lançou o primeiro livro pela Objectiva Editora que, com o título “Ponto Quê: O prazer no Feminino”, desafia à descoberta de uma sexualidade mais plena e satisfatória.

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