• Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Two man hug", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Man sinking to the floor", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "The older man sitting", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Young couple", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Self portrait", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Women crossing the water", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011)
    Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011) Lara Torres
  • Fotograma do filme
    Fotograma do filme "Woman in the water", projecto "An impossible wardrobe for the invisible" (2011) Lara Torres
  • Vista da exposição no Museum Boijmans Van Beuningen, Roterdão, The Future of Fashion is Now
    Vista da exposição no Museum Boijmans Van Beuningen, Roterdão, The Future of Fashion is Now Lara Torres
  • Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011)
    Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011) Lara Torres
  • Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011)
    Documentação fotográfica da performance de dissolução (2011) Lara Torres

Moda

Designer portuguesa acha que Hussein Chalayan a copiou

Lara Torres vê demasiada proximidade entre a performance do cipriota, em Paris, e o seu projecto de 2014.

A fronteira entre inspiração, apropriação intelectual e cópia directa é ténue – Lara Torres, designer portuguesa sediada em Londres, reconhece-o, “ainda mais quando falamos de trabalhos que estão na fronteira entre moda e artes plásticas”, diz ao PÚBLICO.

Em causa estão as imagens, tornadas virais, do desfile do criador de moda Hussein Chalayan, onde peças de vestuário se dissolveram em água numa performance que fechou a apresentação Primavera/Verão 2016 do cipriota numa das mais importantes semanas de moda internacionais, que contêm “basicamente a mesma ideia” do projecto An Impossible Wardrobe for the Invisible, da portuguesa.

“A performance, em si, é a ideia. Há, até, semelhanças na aparência”, diz, por telefone, Lara Torres, responsável por sete vídeos de performances onde peças de vestuário brancas, com um material solúvel em água, se dissolvem. “Não posso dizer que é exactamente o mesmo material, não lhe toquei e essa é a única forma de ter a certeza. Mas estive um ano a fazer investigação para o projecto e conheço relativamente bem a forma como aquele material se comporta”, refere, confessando que “é muito difícil pensar que não foi uma cópia”.

Lara Torres, a fazer o doutoramento na London College of Fashion e com formação no português Citex, foi uma das seleccionadas – a única portuguesa – para mostrar o seu projecto An Impossible Wardrobe for the Invisible, que explora “o lado inerente absolutamente efémero da moda, de renovação, do terminar e voltar a existir, traduzindo visualmente a obsolescência do vestuário de hoje”, na exposição The Future of Fashion is Now, dedicada a novas visões da moda de jovens designers do mundo não-ocidental ou das margens da Europa no Museu Boijmans Van Beuningen de Roterdão, Holanda. Na mesma exposição, que decorreu entre 11 de Outubro de 2014 e 18 de Janeiro de 2015, esteve presente Hussein Chalayan, vencedor do prémio British Designer of the Year, do British Fashion Council, nos anos 1999 e 2000 (e que reconhece “contribuições marcantes para a indústria da moda”), a par de outros nomes como Martin Margiela, Rei Kawakubo ou Viktor & Rolf.

No conjunto de sete vídeos, que estão disponíveis online, há imagens de homens e mulheres que mergulham num tanque e as suas peças de vestuário desaparecem; chuva que desfaz outras dessas peças, feitas de álcool polivinílico, um material usado na fixação de bordados e tricotados, que tem como função desaparecer.

“O Chalayan, a casa e a marca, tinham a responsabilidade de investigar o que já tinha sido feito nesta área, mesmo que aleguem que não foi uma cópia, há essa responsabilidade”, defende Lara Torres, que acredita que o criador, mesmo que não tenha estado em contacto com o seu trabalho performativo directamente na exposição em Roterdão, “dificilmente não o viu no catálogo ou no site que foi criado para o efeito”.  No desfile de Chalayan, no quarto dia da Semana de Moda de Pronto-a-Vestir de Paris, o criador colocou duas modelos em pequenos pedestais, no meio da passerelle, e, no fim, água caiu sobre elas – os seus casacos brancos, semelhantes a batas de laboratório, desintegraram-se e revelaram vestidos de noite com cristais Swarovski.

Apesar de existirem “variações” – Lara aponta para as peças com cristais Swarovski, fruto do 10.º aniversário da colaboração do designer com a marca – são essas que mais incomodam a designer e investigadora portuguesa. “Porque isso até é um bocadinho oposto àquilo que é o meu trabalho em termos conceptuais e que tem muito a ver com alguma resistência ao mercado. Este trabalho dele, no fundo, é um trabalho de publicidade.”

Publicações influentes como a Vogue, a revista Dazed and Confused ou o New York Times, elegem o desfile como um dos dez melhores da temporada. O site de referência na indústria da moda Business of Fashion descreve a apresentação de Chalayan como “uma reflexão sobre a natureza transformativa da moda”, que é, “exactamente”, a temática de trabalho de Lara Torres. “Quando descrevem este trabalho dessa maneira, é ainda mais complicado. Ainda por cima com o reconhecimento de um site que é imensamente lido. É muito incómodo. Deixa de ter só a ver com autoria, tem a ver com o respeito pelo trabalho que eu já fiz”, frisa.

A inspiração para o seu Pasatiempo, o nome que deu a esta colecção para a Primavera/Verão 2016, é Cuba, explicou Hussein Chalayan a Suzy Menkes, influente editora da Vogue Internacional. “O duche serviu para representar a transformação de Cuba, da militância para uma situação mais lúdica. E eu gostei da ideia de usar água porque Cuba está rodeada por todo aquele mar”, referiu sobre os casacos que se “derretem” e mostram “algo mais brincalhão por baixo”. À Vogue norte-americana revela ainda que passou seis meses a desenvolver um material próprio que reagisse desta maneira à água.

O gabinete de imprensa de Hussein Chalayan, contactado telefonicamente pelo PÚBLICO, mostrou não conhecer o projecto de Lara Torres exposto no Museu Boijmans Van Beuningen e indicou que pedidos de esclarecimento ou outras informações sobre a colecção Primavera/Verão apresentada em Paris deveriam ser remetidos para o departamento de Vendas da marca.

Em resposta às questões do Life&Style sobre a participação de Chalayan na exposição The Future of Fashion is Now, em Roterdão, assim como às semelhanças com o trabalho de Lara Torres e fontes de inspiração para esta colecção, Erin Adair, gestora de operações da marca, responde que Hussein Chalayan “nunca visitou a exposição nem viu nenhum catálogo”, “não viu, genuinamente, os vídeos” de Lara Torres e fala de uma “acusação infundada”.

“O que o Chalayan fez com os vestidos a derreter faz parte de um projecto que já tinha em mente há algum tempo”, esclarece a responsável por e-mail, referindo que o criador cipriota “já faz roupas de papel desde meados dos anos 1990", que tem “um interesse contínuo em metamorfose e desintegração de roupas” já verificados em “performances com roupas em chamas” ou em “peças enterradas no solo para se desintegrarem” e que até já teve "uma instalação com roupas e água num tanque" no referido museu. “O que se viu em Paris trata-se de uma evolução do corpo de trabalho” do criador, aponta, convidando Lara Torres a “dar uma olhadela” ao historial de Chalayan de forma a ver “claramente a forma como o seu espectáculo em Paris é uma evolução natural de todo o seu trabalho”. Ainda assim, vários comentários publicados por utilizadores da rede social Facebook a acusar o criador de “roubar” o trabalho da portuguesa e de não ser “assim tão inovador” como algumas publicações internacionais descrevem, que estavam público na página oficial de Chalayan, até terça-feira, foram eliminados.

Casos de cópia, em moda, são “sempre muito complicados”, reconhece Lara Torres. “Autoria, em moda, é um conceito difícil. Moda tem, precisamente, a ver com a disseminação pela cópia”, diz. E neste caso “torna-se ainda mais difícil” porque tanto um, como outro trabalho estão na fronteira daquilo que é moda e artes plásticas. “Não estamos a falar de um produto que vai para o mercado, estamos a falar de uma ideia e de um conceito que é um projecto artístico”, contesta Lara Torres, já em contacto com uma advogada especialista em direitos de autor e a arranjar “o melhor prisma” para avançar com uma acção legal.