Filipe Faísca, Graziela Sousa, Eduarda Abbondanza, João Jacinto, Anabela Becho e José António Tenente (da esquerda para a direita)
Filipe Faísca, Graziela Sousa, Eduarda Abbondanza, João Jacinto, Anabela Becho e José António Tenente (da esquerda para a direita) DR/José Frade

Tertúlia

Uma noite de consumo mas com espaço para reflectir

Na 6.ª edição da Fashion’s Night Out, foi acrescentada uma tertúlia sobre teatro e moda ao roteiro.

As lojas do centro de Lisboa voltaram a abrir portas até às 23 horas para a 6.ª edição do Fashion’s Night Out (FNO), uma noite pensada como um incentivo ao consumo mas que, edição após edição, ganhou dinâmica própria e tornou-se, mais do que uma oportunidade de comprar com descontos, uma noite para ver e ser visto e aproveitar brindes e outras ofertas das lojas. Mas também pode ter uma vertente cultural. “A Fashion’s Night Out tem mais do que compras e lojas e cocktails”, acredita João Jacinto, o autor do blogue Gentleman’s Journal, em conversa com o Life&Style, dias antes do evento. Por isso, em parceria com o Teatro da Trindade, organizou a tertúlia Quando o Teatro se Cruza com a Moda.

Se em 2014, a noite da moda, organizada pela revista Vogue em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa, se estendeu pela primeira vez à Baixa lisboeta para oferecer uma outra vertente ao público habitual do evento e despertar o interesse de uma audiência particular, mais focada na oferta cultural, este ano o roteiro teve uma proposta concreta. “Não será uma actividade com milhares de pessoas, como uma loja aberta com acções especiais, mas é uma outra faceta possível nesta noite. A própria noite, nascida em Nova Iorque, já teve muitas metamorfoses”, frisa João Jacinto – em Nova Iorque, onde a noite nasceu pela mão da influente directora da Vogue norte-americana, Anna Wintour, durou apenas quatro anos. O caos, causador de acidentes e roubos, e a constatação de que não se vendia mais do que nos dias “normais”, foram os “culpados”. Este ano, em Lisboa, a Prada, a Gucci, a Longchamp, a Fashion Clinic e outras lojas de luxo, outrora participantes, têm as suas portas fechadas; a festa concentra-se noutras 258 lojas da Avenida da Liberdade, Rua Castilho, Príncipe Real, Chiado, Rossio, Rua Augusta e Rua do Ouro.

Mas a moda não é só isso. “É muito interessante lembrarmo-nos de que a moda, felizmente para todos nós, não é só comércio”, realça ao Life&Style Anabela Becho, conservadora de moda e curadora do Museu do Design e da Moda (MUDE), momentos antes de participar como oradora na tertúlia.

No Salão Nobre do Teatro da Trindade, ao final da tarde de quinta-feira, com a sala cheia, Anabela Becho, os designers de moda Filipe Faísca e José António Tenente, a presidente da Associação ModaLisboa Eduarda Abbondanza e a designer e professora na Faculdade de Arquitectura de Lisboa Graziela Sousa, juntaram-se para reflectir sobre a relação entre a arte cénica e o design de moda – duas artes que sempre andaram de mãos dadas e se influenciam uma à outra.

O teatro na moda e a moda no teatro
A moda sempre esteve presente no teatro, quer nas roupas do público, quer no palco. “Do ponto de vista da moda, temos de encarar o teatro como uma grande plataforma onde a moda se exprime, onde a moda ajuda a construir um personagem”, diz João Jacinto.

Antes de mais, lembra Anabela Becho no início da tertúlia, o próprio acto de vestir obedece a um ritual performático – o momento em que Maria Antonieta vestia os seus vestidos grandes e extravagantes tinha uma teatralidade, o que demonstra, desde logo, que “a ligação entre teatro e moda não é recente”.

Muitos designers, paralelamente ao seu trabalho para as passerelles e para as lojas, são figurinistas. Coco Chanel, continua Anabela Becho, começou a sua carreira a desenhar chapéus e depois figurinos para peças de teatro – os figurinos, além de possuírem uma função estética, auxiliam como suporte de comunicação e interagem com todos os outros elementos que compõe um espectáculo de teatro. Elsa Schiaparelli, Alexander McQueen, Yohji Yamamoto ou Jean Paul Gaultier são outros dos designers que também desenharam figurinos.

Apesar de haver sempre condicionantes, quer seja na criação de uma colecção para passerelle ou na criação dos figurinos de uma peça, a maior diferença, para um criador, é que num desfile próprio “o designer é o seu art director. No teatro, a última palavra não é dele, é de outro art director, o encenador”, diz Eduarda Abbondanza, que começou a trabalhar na área do teatro como actriz, passou para contrarregra, coordenadora de figurinos e, depois, designer de moda.

E também as roupas são muito diferentes. “A roupa de um actor não tem nada a ver com a roupa que se compra nas lojas. Está adaptada, tem especificidades técnicas”, acrescenta Filipe Faísca, que compara os figurinos à alta-costura – são peças feitas à medida de quem as vai vestir, com tecidos nobres.

Já as influências entre as duas artes são “são visíveis e muito recíprocas”, considera Tenente, que lembra que há muitos casos de colecções de criadores de moda que vão buscar inspiração a uma personagem de filme ou de teatro em particular. “E há muitos desfiles que são autênticas encenações teatrais”, continua Tenente, actualmente a desenhar os figurinos para a peça Ricardo III.

A moda utiliza, aliás, várias estruturas do teatro: a cenografia, os efeitos de luz e son, coreografias, happenings, performances. O próprio ritual de escolha de um local para um desfile de moda, o casting das modelos, a definição de um tema e o grande final mostra uma ligação profunda com o teatro.

Mas “o teatro e a moda e a moda e o teatro são duas actividades artísticas que fazem parte de uma maior”, vinca Eduarda Abbondanza, “que é a cultura”. “A moda, seja qual for o tipo de manifestação que tenha, seja nas montras da Zara ou no Teatro da Trindade, é sempre uma manifestação cultural”, corrobora Graziela Sousa.