Aprender a cozinhar e comer bem é o objectivo de grande parte das iniciativas para crianças que existem no mercado
Aprender a cozinhar e comer bem é o objectivo de grande parte das iniciativas para crianças que existem no mercado João Henriques/arquivo

Cozinha para os mais pequenos

Há crianças que querem ser chefs e o mercado sabe disso

A culinária, os chefs e os novos alimentos estão na moda e começam a deixar de ser uma coisa só de adultos.

Os mais pequenos passaram da mera curiosidade por um utensílio de cozinha para manifestarem um interesse crescente sobre como fazer um bolo ou um prato de massa.

As editoras estão atentas e vão surgindo a nível nacional mais livros de receitas para as crianças. Workshops e aulas de culinária em versão mini têm também uma forte presença no mercado e a procura tem vindo a aumentar. Mas além de aprender a fazer um bolo, vestir um avental pode ser divertido e educar para uma alimentação mais saudável.

Bolos para Festas, como fazer e decorar (2014) é um dos livros infanto-juvenis recentemente lançado pela Editorial Presença. Com um design colorido e receitas passo-a-passo, o livro é destinado a quem “não tem muita experiência em culinária”. Há ainda Bolos na Caneca (2014), outro livro da mesma editora que propõe receitas de bolos para se fazerem em dois minutos no microondas.

Ana Espadinha, da Editorial Presença, explica ao Life&Style que a “ideia tem sido procurar receitas que sejam principalmente atractivas, para que os mais pequenos sejam aliciados para essa actividade [cozinhar]”. A responsável admite que este é ainda um mercado novo para a editora mas afirma que em “geral estes livros têm tido uma boa aceitação por parte do público”.

Neuza Luz, do Grupo Bertrand, reconhece também que “não são muitos os títulos” dedicados inteiramente às crianças, apesar de a editora ter publicado livros como A Vóvó Ensina-te a Cozinhar (2009), 10 Salgados, Que nós sabemos fazer (quase) sozinhos (2012) e 10 Doces, Que nós sabemos fazer (quase) sozinhos (2012).

A editora Caminho das Palavras tem presente que este tipo de títulos “vem no seguimento do interesse em livros de receitas e alimentação saudável para adultos”. “Naturalmente essa tendência reflecte-se na faixa etária dos mais novos, até porque os filhos, sobretudo quando ainda são pequenos, mimetizam um pouco aquilo que vêem os pais fazer. O mercado sabe disso e aproveita”, sustenta o publisher André Pereira.

A Caminho das Palavras publicou, por exemplo, Hoje, o Chefe Sou Eu! (2009), que reúne receitas de alguns dos mais conceituados chefs que actualmente trabalham em Portugal. “A novidade é que neste livro trabalham com os filhos, são eles os chefs”, sublinha André Pereira.

O publisher afirma que com base no mercado “não são só os chefs que assumem um lugar de destaque e publicam livros, mas também os nutricionistas, que muitas vezes desempenham esse papel múltiplo de nutricionista/chef/autor”. Rodrigo Abreu é um desses casos, à excepção de ser chef. Nutricionista, fundador do Atelier de Nutrição e autor de O Grande Livro da Alimentação Infantil (Esfera dos Livros, 2009), assume que se a “culinária e o interesse por novos alimentos estão na moda”, em parte aos “vários programas televisivos sobre o tema, à celebridade de muitos chefs de cozinha e ao acesso facilitado a um número crescente de alimentos e ingredientes exóticos”, a “alimentação e a culinária saudável estão a beneficiar desta moda, a que se acrescenta a preocupação actual com a obesidade”. “Isto leva pais e crianças a dedicarem mais tempo a aprender a comer”, conclui ao Life&Style.

A maioria dos pais que procuram Rodrigo Abreu quer garantir que os filhos comem correctamente para que cresçam saudáveis. Segundo o nutricionista, é frequente os pais preocuparem-se quando os “filhos não comem certos alimentos ou quando têm dúvidas relativamente à alimentação na escola”. “E muitos pais também se preocupam em saber se os filhos estão 'gordinhos'”.

Dados da Organização Mundial de Saúde, de 2014, indicam que na Europa, mais de 27% das crianças com 13 anos e 33% com 11 têm excesso de peso. Portugal está entre os países com piores indicadores: aos 11 anos, 32% das crianças têm peso a mais.

Apesar de existir informação em livros ou na Internet sobre como manter uma alimentação equilibrada, Rodrigo Abreu considera que essa informação “nem sempre se traduz em melhores escolhas ou comportamento alimentares”. “É preciso investir na educação alimentar das crianças e da sua família e professores e educadores, para que a informação disponível se possa transformar em estilos de vida mais saudáveis”.

Aprender a comer melhor
Rodrigo Abreu sublinha o papel que a Associação Portuguesa dos Nutricionistas e a Direcção-Geral de Saúde, através do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, nesse sentido. Mas também destaca a existência de espaços dedicados ao tema, “onde se podem frequentar workshops para aprender a cozinhar ou comer de forma mais saudável”.

O Atelier de Nutrição, no qual trabalha, é um deles. Adultos e crianças são convidados a trabalhar os conhecimentos na alimentação e a desenvolver boas práticas para uma alimentação equilibrada.

Joana Byscaia teve essa preocupação quando criou o Petit Chef, uma “cozinha pedagógica para crianças a partir dos 6 anos”, onde os mais pequenos podem frequentar workshops, aulas regulares de culinária ou dar festas de aniversário onde a alimentação é o tema central.  “Quando criei o Petit Chef, em 2005, não existia nada de similar por isso aliei a paixão pela cozinha com o facto de por ser mãe perceber que as crianças têm um gosto natural por cozinhar”.

Por outro lado, realça Joana Byscaia, também existem pais atentos à questão da alimentação saudável e que “consideram importante proporcionar aos seus filhos esta aprendizagem tão importante para as suas vidas futuras”

“Pessoalmente fico feliz por perceber isso, pois acredito que ensinando crianças a cozinhar desde cedo contribuo para serem não só adultos mais cuidadosos com a sua alimentação e a dos seus filhos e também adultos mais informados e exigentes”, refere.

Nas aulas da chef, “regra geral o patinho feio são os vegetais” mas quando é ultrapassada essa barreira “as crianças percebem que afinal gostam de um alimento que diziam não gostar”.

Célia Estrela sabe disso e decidiu criar recentemente o projecto “A Missão do Tuneco”, onde desenvolve workshops de educação eco-alimentar para crianças. O Tuneco é um rapaz que é enviado numa missão pela mãe, Pachamã ou Mãe Terra, que ficou doente devido aos abusos causados contra o ambiente para se alimentarem. O menino deve ajudar as outras crianças a escolherem mais alimentos naturais, tais como frutas e verduras, os chamados Alimentos Sol, e menos os refrigerantes e doces, os Alimentos Petrol.

A partir de um conto infantil, Célia Estrela desenvolveu o projecto destinado a crianças entre os 6 e os 14 anos e que quer envolver as criança na “confecção das suas refeições e tudo o que isso envolve, desde escolher os ingredientes, confeccionar, provar e decidir o que melhor lhes sabe”, o que “ajuda a criança a desenvolver desde cedo um palato mais apurado”.

“As crianças têm mais facilidade em comer o que elas confeccionam pois, durante esse processo, elas criam laços emocionais com a sua comida, geram menos controvérsia às refeições e têm mais disponibilidade para experimentar novos ingredientes e sabores”, defende a fundadora de “A Missão do Tuneco”.

Nos workshops e aulas de Célia Estrela, as crianças são convidadas a aprenderem a cozinhar e a fazer escolhas alimentares saudáveis e são motivados para mudar de hábitos alimentares. “Um dos exercícios que fazemos é pedir às crianças que desenhem a sua última refeição e depois comparamos com o prato do Tuneco para que eles tenham uma imagem bem clara de como deve ser composto um prato equilibrado e por sua vez transmitirem aos pais”, explica.

No ProchefKids, uma iniciativa do Grupo Hig, o primeiro passo foi o desenvolvimento de vestuário de cozinha para crianças mas pouco depois surgiu outro objectivo: “consciencializar as crianças para que tivessem uma alimentação equilibrada e para que cuidassem do meio onde vivem”.

O projecto inclui workshops de culinária e sensibilização para a agricultura biológica, actividades que podem ser o tema de uma festa de aniversário ou ocupação nos períodos de férias escolares. “Na nossa opinião as crianças têm cada vez mais interesse em aprender a cozinhar. Temos muitas que pela primeira vez tiveram acesso a alguns legumes nas nossas aulas.  Esta tendência deve a existência de muitos programas televisivos de culinária e em revistas. Está na moda ser chef! Existe muito glamour a volta desta profissão”, diz Orquídea Silva, da Hig International.

O ProchefKids aproveita o entusiasmo pela profissão para alertar para uma alimentação saudável e correcta. “Nos nossos workshops existe muita preocupação em explicar o que é saudável. Ensinar a colocar as ervas aromáticas em vez de sal, por exemplo. Introduzir legumes em cada workshop em pratos que eles apreciam, como numa pizza”.