ModaLisboa
Sangue Novo: Viver da moda? Um dia de cada vez
Noite de estreia para dez jovens designers na 43.ª edição da ModaLisboa. Colecções de identidade definida e pragmatismo para o Verão 2015.
Um pé numa passerelle académica, no final do curso, e logo a seguir outro na passerelle do Sangue Novo da ModaLisboa. Entre estreias, nervosismo e uma boa dose de experimentalismo, os jovens designers reconhecem a plataforma como uma rampa de lançamento para o meio profissional. “Nas colecções finais de curso que temos de apresentar, além de haver mais controlo, nunca sabemos bem quem somos. Aqui temos liberdade e acabamos por descobrir quem somos e o que queremos fazer”, diz Cristina Real, uma repetente do Sangue Novo.
Em Março apresentou a colecção Interrupção para este Inverno na ModaLisboa. Dois meses depois, uma das suas criações fez capa da Vogue portuguesa e em Agosto ganhou o segundo prémio na categoria sportswear nos International Design Awards. “Entretanto saí da zona de conforto, principalmente no que toca a materiais”, comenta, fazendo referência à colecção Details que agora apresentou – com missangas, peles e peças mais estruturadas.
A apresentação em desfile colectivo – são dez nomes, individuais ou de pequenas marcas – dá-lhes visibilidade e aproxima-os da reacção de um público mais alargado, essencial para os fazer pensar no futuro. “A continuidade do projecto depende do feedback. Tem sido bom, mas ainda não é significativo”, explica Tiago Loureiro, dos Banda, a dupla que criou em conjunto com o cabo-verdiano Aloísio Rodrigues e que sexta-feira à noite propôs Monument, oito coordenados inspirados no fundo do mar em que misturaram indigo, ocre e caqui. Apesar disso, mesmo “desconhecidos” já foram convidados para um fashion film, para um showroom e para produzirem peças para o mercado africano, conta o designer.
Foi em 1992, na 3.ª edição da ModaLisboa, que a plataforma Sangue Novo foi inaugurada, na altura em formato de concurso, destinada a jovens finalistas das escolas de design de moda. Maria Gambina foi a primeira vencedora, seguiu-se Miguel Flor, hoje coordenador do espaço de novos talentos Bloom, do Portugal Fashion, Priscilla Alexandre (Marc Jacobs, Louis Vuitton, Proenza Schouler), Lara Torres, Ricardo Dourado. Não houve Sangue Novo durante dez anos. Regressou em Outubro de 2013, renovada, com a apresentação das colecções em desfile colectivo.
Contudo, apesar da nova oportunidade e da aposta reforçada no talento dos jovens, Cristina Real admite ser “complicado” pensar no futuro e considera que o melhor é trabalhar, usufruir das colecções - e viver um dia de cada vez. Também Nair Xavier, que apresentou uma colecção masculina com tons quentes, com cortes clássicos mas descontraídos, considera difícil começar um percurso de autor. Ainda assim, de sorriso nos lábios, afirma que “é preciso aproveitar tudo o que é pequenino e torná-lo maior”.
Olga Noronha também já não é estreante, apresentando-se pela terceira vez no Sangue Novo e mantendo a sua marca de joalharia medicamente prescrita em Londres. No final da tarde de sexta-feira, inaugurou a passerelle com muito branco e muita luz, graças aos LEDs dos seus acessórios. “Foi muito complicado vestir as modelos. Teve de ser estabelecido um processo muito rígido: colocar as baterias, ajustar, verificar que as baterias estavam carregadas e camufladas, ter cuidado para não magoar as modelos com a fibra óptica”, descreve. A colecção, que diz ser de amor ou ódio, começou com confusão no backstage mas acabou com uma descarga, satisfeita, de energia. “Agora que nos conhecem, a responsabilidade é grande, as expectativas foram aumentando. E estar ao nível não é coisa fácil, mas acho que consegui”, conclui.
Todos têm ideias muito precisas sobre o que faz falta e apontam o dedo a quem não investe neles. “O mercado aqui está muito contraído”, opina Tiago Loureiro. “Só temos um tecido português na nossa colecção. É muito difícil para nós conseguir patrocínios da indústria têxtil portuguesa, não há abertura”, exemplifica.
Este ano, no final da apresentação dos dez Sangue Novo, a colecção masculina Karma de Inês Duvale – que faz parte do lote de estreantes absolutos – inspirada no streetwear, com muito preto, branco, cinzento e azul escuro, foi escolhida para estar em Junho de 2015 no festival holandês Fashion Clash.
Na passerelle estiveram uns minutos, mas durante todo o fim-de-semana, três dos jovens do Sangue Novo – Catarina Oliveira, Cristina Real e Nair Xavier – têm pontos de exposição e venda na loja temporária da ModaLisboa, o Wonder Room, nos Paços do Concelho, que está aberto ao público.