Design de Moda
Jovens criadores de moda portugueses lutam por oportunidades e reconhecimento
São jovens e tomaram a decisão de seguir o sonho da Moda. No curso técnico de Design de Moda, na Escola de Moda de Lisboa, participaram em concursos nacionais e internacionais e agora esperam ver o trabalho reconhecido. Esta quinta-feira, em Lisboa, apresentam peças de couture inspiradas em Paris.
Orlando Veliz, 19 anos, está no 3.º e último ano do curso técnico de Design de Moda e sempre quis ser designer. “Desde que me lembro que sou gente que queria seguir esta área”, conta ao Life&Style. Durante o curso, já teve oportunidade de participar em vários concursos e o seu sonho é criar roupas para espectáculos: “para peças de teatro ou para concertos… tenho um estilo ousado, não muito comum”, descreve.
Na Escola de Moda de Lisboa encontrou a oportunidade de aprofundar conhecimentos, desenvolver o desenho e a criatividade, explorar materiais. Marynara Persego, de 21 anos, também. “Este curso é muito completo. Eu sempre gostei muito de desenhar e conheci esta escola na Futurália. Percebi que aqui ia ter a oportunidade de evoluir”, diz, revelando que no futuro gostava de desenhar peças de sportswear. O curso técnico de Design de Moda existe nesta escola deste 1989 e desde então já ajudou a descobrir novos talentos que agora andam espalhados um pouco por todo o mundo.
“Existem outras escolas com oferta similar à nossa em Portugal, mas somos das mais antigas. O ensino profissional em Portugal surgiu em 1989 e nós começámos logo o curso técnico de Design de Moda, que na altura se chamava curso de Estilismo”, explica Ana Salvador do Gabinete de Relações Externas da escola.
Todos os anos, são procurados por vários jovens e, comparativamente a outros cursos, o de Design de Moda é o que atrai mais pessoas. Vêm das ilhas, do Algarve, do Alentejo. “É uma procura muito determinada mas só há duas turmas, com 25 alunos cada”. Têm de passar por um processo de selecção rigoroso, feito através de uma prova de desenho, de um exercício de cultura de moda e de uma entrevista. “Tentamos perceber se estes jovens, que são tão novinhos quando se candidatam a este curso – porque vêm fazer o equivalente ao ensino secundário – têm vocação e determinação para enfrentar três anos de um curso que é muito trabalhoso e exigente em termos de criatividade e realização de projectos”, esclarece Ana Salvador.
Curiosamente, não há muitos nomes conhecidos. Isto porque, como nos explica Adelaide Borges, coordenadora do curso, os alunos são “muito solicitados para a indústria, para as grandes empresas. Quando fazem estágios no estrangeiro acabam por ser convidados a ficar. Ainda não temos muitos alunos a fazer um percurso de autor”. Os nomes ficam ocultos, inseridos dentro de grandes grupos como “a gigante Inditex ou marcas portuguesas que ainda continuam a dar cartas na indústria do vestuário, como por exemplo a Dielmar”, acrescenta Ana Salvador.
Ainda assim, há quem tenha conseguido iniciar percursos de autor. Caso de João Soares e Nair Xavier, que Adelaide Borges recorda que se apresentaram na plataforma Sangue Novo, da Moda Lisboa. “A Nair Xavier vai apresentar-se novamente e a Lara Torres também passou por aqui. E há uma dupla muito conhecida no sector das noivas, Joana Montez e Patrícia Melo”, diz.
Falta de apoios
O problema, em Portugal, é a dimensão do mercado, a diminuição do poder de compra, a falta de oportunidades, os entraves legais. “Sim, há falta de oportunidades, mas cada vez mais vão sendo divulgados trabalhos e começam a dar-nos atenção. É um processo demorado”, defende Carolina Costa, 17 anos.
Valentina Garcia, directora executiva da Storytailors, considera que este é um sector muito difícil. “Temos de ser cada vez melhores, cada vez mais profissionais. Fazer um desfile é uma coisa muito, muito cara. É preciso apostar a sério na internacionalização porque o mercado português ainda é muito pequenino e o poder de compra diminuiu muito”, frisa.
“O que acontece com a moda é que a moda está frequentemente num limbo entre indústria e arte. É definitivamente uma forma de criação mas pode ser uma forma de arte e pode ser apenas indústria. Logo à partida isso acaba por ser uma condicionante”, comenta João Branco, um dos elementos da dupla de designers Storytailors. “Não sendo uma forma de arte, não usufrui dos apoios que são concebidos à arte. Por outro lado, os apoios à indústria frequentemente não abrangem o tipo de apoio que um designer independente precisa. E isso coloca o criador de moda numa posição particular, num limbo”, continua.
Para o criador, faz falta “acompanhamento” para o jovem criativo poder “criar alicerces empresariais e as ligações comerciais” necessárias para chegar ao público que pretende. Falta “uma directriz que lhes permita conhecer melhor e alavancar o seu posicionamento de maneira a capitalizar a sua criatividade para se poderem tornar auto-suficientes”.
“Por exemplo, os impostos. Sobrecarregar com impostos aqueles que ainda não têm capacidade para pagar, no início da criação da sua empresa, sem dar primeiro a oportunidade do designer investir em si próprio e gerar riqueza é um contra-senso. É uma sentença de constante limitação. É como pôr uma planta que está a germinar dentro de um boião. É um bonsai eterno, fica pequenino porque não pode crescer”, exemplifica.
Mas, lembra João Branco, nem tudo é mau e há entidades que estão atentas. “Há coisas que estão a ser feitas. Há duas instituições em Portugal que têm tentado, cada uma à sua maneira, divulgar o trabalho realizado e oferecer oportunidades: a Moda Lisboa, com a plataforma Sangue Novo; e o Portugal Fashion”.
Tanto a Moda Lisboa como o Portugal Fashion estendem uma passerelle aos jovens criadores. “Ficam com um registo fotográfico profissional, em passerelle. Isso é essencial para montar portfolio, ir a feiras internacionais, criar véus comerciais. Uma rede essencial para os criadores.”
Paris em Lisboa Fashion Show
Esta quinta-feira, em Lisboa, há outra passerelle que vai ser estendida aos alunos da Escola de Moda. No Paris em Lisboa Fashion Show, um evento promovido pela Atout France (agência para o desenvolvimento turístico de França) e pela Air France, os alunos foram desafiados a criar uma colecção com a temática “Paris em Lisboa”.
“O repto que foi lançado aos alunos foi no sentido de fazerem uma apologia da moda francesa, muito icónica, aqui em Lisboa”, explica Adelaide Borges, que acompanhou o trabalho dos alunos. “É roupa de autor, sempre com o cuidado de ser uma roupa que tenha algum aspecto couture, mas a preocupação deles, além da abordagem muito pessoal de cada um, foi realmente ser uma roupa muito simbólica, para senhora”, revela.
Houve discussão de materiais, de acabamentos, de paleta de cores, de formas de enriquecer a peça e de cuidados com o interior. São peças com uma abordagem contemporânea mas também com um “aspecto retro”.
Levantando um bocadinho a ponta do véu sobre o que vai acontecer no desfile, Adelaide diz que há alunos que foram buscar inspiração a monumentos icónicos de Paris, à doçaria, a Eça de Queiroz e à sua apologia da cultura francesa, ao cliché da cidade das luzes e até à calçada.
“Há várias interpretações com alguns pontos comuns: o fato pode ser transformável. Alguns dos alunos entenderam que uma mulher de moda contemporânea, francesa ou não, tem de ter uma personalidade e um look versátil, abordado em várias ocasiões. Fizeram um 'dois em um', fatos que podem ser utilizados em mais do que uma situação”, adianta.
Por exemplo, Carolina Costa revela que no seu coordenado tentou “captar a arquitectura de Lisboa e Paris” por considerar as duas “cidades muito românticas”; Marta Sternberg criou uma estampa e fez “uma sobreposição da calçada portuguesa com as ruas de Paris”; Marynara inspirou-se na “parede do amor de Montmartre”, feita de azulejos e fez uma associação com os azulejos portugueses. Já Orlando diz que se inspirou “numa história de amor passada na cidade mais romântica do mundo”.
Os quatro alunos consideram a iniciativa “óptima” e uma “boa aposta” para abrir caminho, formar currículo, desafiá-los e dar motivação. “Isto é uma coisa enorme. É fantástico participar em qualquer desfile, mas é ainda mais fantástico este desfile em particular. É um evento em grande. Não somos só nós, alunos da Escola de Moda de Lisboa. Há vários parceiros e nomes conhecidos e isso inspira-nos”, diz Orlando.
No júri vai estar a dupla Storytailors, composta por João Branco e Luís Sanchez; Bárbara Guimarães, embaixadora da marca L’Oréal Paris em Portugal; Sabine Blarel, mulher do embaixador de França em Portugal; e a chefe de redacção da revista Vogue portuguesa, Patrícia Barnabé.
Relativamente às criações dos jovens designers, João Branco diz não ter expectativas. “Pessoalmente não sou muito de criar expectativas. Parto para uma situação destas como quando vou ver um filme ou quando leio um livro: com interesse, mas sem criar expectativas para que não saiam defraudadas. Prefiro ir com espírito aberto e limpo para avaliar e deixar-me surpreender”, afirma, considerando que este tipo de plataformas são “importantíssimas” para os designers em formação mas também para os que já estão no mercado.