Catarina Correia Marques, a ilustradora, à esquerda, e Maria João Lopes, a autora do texto, na apresentação da obra
Catarina Correia Marques, a ilustradora, à esquerda, e Maria João Lopes, a autora do texto, na apresentação da obra DR

Livros

Lançamentos e actividades salvam livrarias infantis

Cada vez mais livrarias destinadas ao público infantil se desdobram em actividades criativas para atrair clientes e conquistar novos leitores. Não é só pelo negócio. Quem as dirige gosta genuinamente de livros, de leitura, de ilustração e de crianças. Mas há contas para pagar.

Horas do conto regulares, lançamentos das novidades com a presença de autores e ilustradores, leituras encenadas, oficinas de artes plásticas e de escrita a partir dos livros disponíveis na livraria, exposições com os originais das obras acabadas de lançar, feiras e festas de aniversário são iniciativas que a maior parte das livrarias para crianças integrou no seu calendário de actividades.

“Fazemos mais do que vender livros. Mas precisamos de os vender. E queremos”, diz Adélia Carvalho, da Papa-Livros, no Porto. Também autora e editora da Tcharan, diz que “muitos clientes passam a ser amigos”. Habituam-se a visitar o espaço, criam laços com quem lá está e regressam. “Umas vezes, compram; outras, não. Mas são sempre bem-vindos e bem recebidos. Essa é também a nossa diferença”, conclui, satisfeita com a vida que escolheu.

“A nossa missão é promover a leitura. Pretendemos ser mais que uma livraria”, diz também Rui Andrade, da Cabeçudos, em Lisboa. E acrescenta: “Precisamos de ter pessoas na livraria. Têm de acontecer coisas lá. Uma coisa serve a outra.” Uma é a promoção da leitura, outra é o negócio.

A Cabeçudos tem até uma versão itinerante: uma carrinha que leva livros e contadores de histórias para espaços ao ar livre. É o que vai acontecer neste fim-de-semana, 10 e 11 de Maio, em Telheiras, na boca do Metro. “Das 14h às 19h, os nossos livros vão levar para a rua histórias alegres ou tristes, com amigos para sempre ou que se perderam pelo tempo, personagens simpáticos ou verdadeiros vilões. Vão andar a saltitar pelo jardim, a descansar na calçada, sentados na relva. E no sábado, às 15h30, até sobem ao Palco do Jardim. Vai ser uma festa! A convite da Associação Viver Telheiras”, escreve Rui Andrade num email que fez chegar ao Life&Style.

 

Um rei e um sem-abrigo

No fim-de-semana passado, assistimos naquela livraria ao lançamento do livro O Rei Inchado, de Maria João Lopes e Catarina Correia Marques, da editora Máquina de Voar. Três crianças (Miguel Jesus, 13 anos, João Rebelo, 12 anos, e Mafalda Rebelo, nove anos) leram a história do livro, que fala de um rei tão vaidoso, tão cheio de si que encheu até rebentar. Antes, a autora explicou como o seu texto passara a livro e como “não quis ser moralista”. A ilustradora contou que se tinha inspirado no Rei Sol para criar o protagonista e nuns soldadinhos de madeira alemães (que são quebra-nozes) para representar os vassalos do rei.

À espera, lá fora, estava um lanche inspirado no livro e por isso transformado em “feira de vaidades”. Gomas para ter olhos brilhantes, bolos que transformavam os penteados em cabeleiras esplendoras, sumos de perspicácia e rebuçados de esperteza.

No Porto, no mesmo dia, na Papa-Livros, não se falava de reis mas de sem-abrigo. Era o lançamento de Abrigos, com texto de Adélia Carvalho e ilustrações de Maria Remédio, editado pela Tcharan. Ali se conta a história de uma menina que não percebe por que é que há pessoas a dormir na rua. Um dia, faz o desenho de uma casa e oferece a um sem-abrigo. “Se não gostar, faço-lhe outra.” O homem sem nome gostou, mas preferia que tivesse um jardim.

A partir daí, desenhou casas ao gosto de cada um dos sem-abrigo que a procuravam. Transformou-se numa grande arquitecta. “Ainda hoje os seus clientes são os mais satisfeitos.”

Autora e ilustradora falaram do processo de criação do livro e autografaram a obra, que será lida na Hora do Conto do próximo sábado, dia 17, e também no dia 31, sempre às 16h e em sessões gratuitas.

O tema desta obra já motivou a construção de um abrigo em materiais recicláveis num colégio do Porto. “Estimulamos muito a interacção com as escolas”, diz Adélia Carvalho, que também se associa sempre à Festa da Arte Contemporânea no Porto – o circuito Cultural Miguel Bombarda (rua onde a livraria se localiza). Uma iniciativa que acontece seis vezes por ano e “em que as galerias de arte do quarteirão de Miguel Bombarda se renovam e apresentam novas exposições e novas coleções em simultâneo”. Nesses dias, lança um livro e inaugura uma exposição com as respectivas ilustrações.

Deu-se a coincidência de a Cabeçudos e a Papa-Livros terem ambas vendido 40 exemplares dos livros que lançaram durante a sessão de apresentação de sábado passado. Mas acabam sempre por vender também outros, que as crianças ou os pais descobrem durante o tempo em que estão na livraria.

Se nesse dia não houvesse lançamento, a Cabeçudos teria vendido “menos de metade”, diz Rui Andrade, e a Papa-Livros “não mais que 10 a 12 títulos”, diz Adélia Carvalho.

As festas de aniversário são também uma forma de divulgação daqueles espaços. “Há pais que só ficam a conhecer a Papa-Livros quando vêm trazer os filhos para a festa dos amigos. Depois, voltam. É uma boa publicidade.”

Há festas com lanche a cargo da livraria (11,5€/criança) ou a cargo das famílias (8,5€/criança).

O que há sempre é a escolha de um livro e actividades divertidas e criativas à volta do tema que invoca. “Dá trabalho, estragam-se alguns livros, que ficam um bocado besuntados…”, diz divertida. “Mas é uma alegria ver a livraria cheia de crianças felizes.”