A psicóloga é também a directora do projecto Portal Bullying
A psicóloga é também a directora do projecto Portal Bullying Oxana Ianin

Livro

“As famílias também sofrem com o bullying”

Será o meu filho agressor ou vítima de bullying? Falhei ao educá-lo? A psicóloga Tânia Paias procura responder a questões como estas no livro Tenho medo de ir à escola, um guia para pais e educadores, com histórias reais sobre bullying.

“A ideia de escrever este livro surgiu no decurso do projecto Portal Bullying, que aborda muitas destas questões da convivência entre pares, no que consiste o bullying e quais os sinais mais comuns”, explica a psicóloga Tânia Paias. O Portal Bullying uma página em português de partilha de informações e experiências, deu-lhe acesso aos casos reais que compõem o livro Tenho medo de ir à escola, lançado este mês pela Esfera dos Livros. 

O livro nasce assim de uma vontade de “transpor para papel um guia para ajudar os pais a reconhecer e lidar com os sinais que indicam se o filho será vítima ou agressor", explica a autora. “Sabemos que, durante o percurso escolar, os jovens podem estar no papel de vítimas, agressores ou espectadores.”

O que falta aos agressores?

As preocupações dos pais aumentam, à medida que o debate em torno do bullying ganha destaque nas escolas e em casa. “Hoje em dia os pais também já começam a ter algum receio de ter filhos agressores, é uma dúvida que tenho visto bastante no Portal Bullying. Alguns pais têm medo do que o filho possa estar a fazer aos colegas na escola”, conta a psicóloga. 

Há sinais aos quais os pais podem estar atentos: “Na relação com o outro o jovem agressor quer sempre que prevaleça a sua vontade. Não é atento aos outros jovens, tem uma forma de convivência pela imposição e não pela troca de comunicação. Não percebe que há mais alguém além dele.”

Para ilustrar que “muitas vezes, os agressores estão deprimidos e que a forma que encontram para fugir [desse sentimento] é a agressão”, Tânia Pais cita o exemplo de um rapaz de 12 anos no livro: “Eu acho que as crianças são violentas porque precisam de o ser e não porque lhes apetece... A violência é praticada por falta de alguma coisa de que elas precisam e a única maneira de as desencorajar de fazer isso é descobrir o que lhes falta”.

Os pais devem estar atentos e trabalhar no sentido de “enquadrar o estilo de convivência” do jovem agressor. A especialista em bullying acredita que é importante “mostrar-lhe o efeito que as palavras e acções dela têm no outro e dar-lhe a entender que se ele agir de certa maneira, o outro irá reagir assim.” Os pais e educadores devem lembrar o jovem que “as coisas se podem alterar, e poderá também precisar do outro”. Em suma, apelar à consciência e à tolerância.

Silêncio dos inocentes

Os sinais de bullying manifestam-se de modos distintos em agressores e vítimas. “Se por um lado o agressor exterioriza mais, as vítimas vivem o bullying mais interior e silenciosamente”, explica Tânia Paias, directora do Portal Bullying.  “Quem sofre tem um medo constante, que pode gerar apatia, sentimentos de desvalorização, ansiedade e nervosismo. Imagine-se o que é ter medo de ir à escola por não se saber o que vai acontecer nem como se defender”.

Os níveis de ansiedade vividos por uma vítima de bullying são “corrosivos”. Com o passar do tempo, a própria vítima acabar por desenvolver problemas de agressividade, “mas é algo mais interno, é agressiva para consigo mesma por não se conseguir defender e por começar a acreditar que provavelmente merece tudo aquilo que a fazem passar”, acrescenta a psicóloga. 

“Os pais devem estar muito atentos e ajudar o jovem em casa, ensaiando, percebendo o que é que se está a passar, o que ele sente e de que maneira é que ele gostaria que as coisas mudassem”, aconselha. Tentar chegar a estas respostas com um filho vítima de bullying ajuda-o a perceber o que está ao alcance dele, dando-lhe “mais autonomia, confiança e capacidade de resposta”. 

Mea culpa parental

O terceiro capítulo do livro de Tânia Paias intitula-se “Poderia ter feito as coisas de forma diferente?” e reflecte o medo de ter errado na educação do filho e as possíveis consequências para o futuro da criança. A psicóloga desdramatiza: “Sabemos que o estilo educativo marca um pouco quem somos, mas também sabemos que a partir de certa altura há uma propensão individual de cada para agir e reagir à sua maneira.” 

Ou seja, “o estilo parental pode ser factor de risco ou protecção em circunstâncias de bullying, contudo, o jovem também irá escolher o seu próprio estilo e é isso a que nós temos que estar atentos”. É que os sentimentos de culpa “não são bons para nada, pois se estivermos a pensar no que fizemos bem ou mal, não estaremos a agir”, explica a psicóloga.

“As famílias também sofrem com o bullying e têm muitas dúvidas e anseios, mas devem encarar o erro como uma forma de aprendizagem”. Afinal, “os filhos também nos vão ensinar a educá-los”. Sejam vítimas ou agressores, “estes jovens são os adultos de amanhã e nós temos que os ajudar a desenvolver as reacções mais adequadas, quer seja a lidar com a frustração e a zanga, quer seja a enfrentar as dificuldades e a saber dizer não”, aconselha a psicóloga.

Mas como saber quando é demais? Onde acabam as brincadeiras e começa o bullying? “Não é tolerável a violência gratuita. Quando é continuado e os colegas nunca deixam fazer o que a pessoa quer; quando para estar num grupo o jovem tem que se subjugar e ser conivente com coisas de que não gosta e fazer coisas que individualmente não faria.” Tânia Pais alerta: “O limite traça-se onde começa a liberdade do outro”. 

 

Título: Tenho medo de ir à escola

Autora: Tânia Paias

Editora: A Esfera dos Livros (Fevereiro de 2014)

PVP: €16